Biblioteca Nacional e CPDOC: bases de auxílio para o ensino da História do Brasil republicano

Ma. Mariana Dias Antonio – doutoranda em História (UFPR/NEMED)

É comum se falar sobre os usos de jornais e outras fontes históricas como importantes facilitadores e auxiliares do professor de História em sala de aula. No entanto, entre as primeiras perguntas que podem vir à cabeça estão: Onde e como posso achar tais materiais? Como posso utilizá-los?

Nossa proposta é apresentar duas ferramentas on-line complementares e de fácil acesso, sendo de grande valia para o estudo e ensino da História do Brasil: a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e o acervo de verbetes do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC).

A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional foi oficialmente lançada em 2006, abrigando diversos jornais que compreendem desde os primórdios da imprensa no Brasil, com a vinda da Família Real portuguesa em 1808, até exemplares mais recentes, como edições do Jornal do Commercio posteriores a 2010.

As buscas na plataforma podem ser realizadas a partir do link http://bndigital.bn.gov.br/, clicando-se na guia “HEMEROTECA DIGITAL”. O site exibirá possibilidades de busca por “Periódico”, “Período” e “Local”. Após definir os parâmetros desejados, o usuário pode digitar o assunto que deseja pesquisar no campo específico. Alguns parâmetros adicionais de busca podem ser informados neste momento, conforme abaixo.

  • Para uma palavra simples que se deseja buscar, basta digitá-la no campo específico. Ex: Política.
  • Para uma sentença exata que se deseja buscar, basta digitá-la entre aspas duplas. Ex: “Crise Política”.
  • Para a ocorrência de palavras distintas numa mesma página de jornal, mas não necessariamente em sequência, basta usar o sinal + ou espaço entre as palavras. Ex: Política+Economia ou Política Economia.
  • Os comandos apresentados podem ser usados em conjunto. Ex: “Crise Política”+“Congresso Nacional” buscará páginas que apresentem, ao mesmo tempo, as duas sentenças buscadas.

Um exemplo de busca pelo assunto “Jânio Quadros” apenas entre jornais do Rio de Janeiro na década de 1960 pode ser consultado na Figura 1.

Figura 1 – Exemplo de busca efetuada na Hemeroteca Digital

Após confirmar a busca, a Hemeroteca Digital listará todos os periódicos que atendem aos parâmetros buscados e o número de ocorrências em cada um, bastando clicar sobre o nome do periódico desejado para acessar seu primeiro resultado (Figura 2). A tela seguinte (Figura 3) trará diversos comandos que auxiliam na navegação e visualização pelo usuário.

Figura 2 – Exemplo de busca efetuada na Hemeroteca Digital

Figura 3 – Exemplo de busca efetuada na Hemeroteca Digital

Seguindo-se a ordem de leitura ocidental (da esquerda para a direita, de cima para baixo), temos um campo de texto com o assunto buscado, o botão “Pesquisar” e uma contagem de ocorrências. Esta contagem sinaliza a ocorrência atual no acervo em relação ao total de ocorrências (atual/total), e as setas que circundam esse campo permitem que o usuário navegue para a ocorrência anterior (<<) ou para a próxima (>>). À direita temos a paginação em que nos encontramos em relação ao total de páginas da edição (mesmo padrão atual/total) e setas que nos permitem avançar ou retroceder entre as páginas daquela edição. Por fim, os botões ao fim da parcela superior permitem ao usuário gerar um hiperlink para aquela página de jornal, enviá-la por e-mail ou compartilhá-la em suas redes sociais.

Na parcela esquerda da página temos três botões identificados apenas por ícones, respectivamente: “Pastas”, “Informações do acervo” e “Fale conosco…”. Todos os botões da interface de Hemeroteca Digital são textualmente identificados se deixarmos o cursor do mouse parado sobre eles por alguns instantes. Clicando-se no botão “Pastas”, o acervo do jornal consultado é expandido, permitindo novas formas de navegação entre as ocorrências: as pastas azuis indicam que naquele ano há ocorrências do assunto buscado, enquanto pastas amarelas indicam que não há ocorrências; ao expandir a pasta referente a determinado ano, as subpastas verdes indicam que naquela edição há ocorrências do assunto buscado (em nosso exemplo, “Jânio Quadros”), enquanto subpastas amarelas indicam que não há ocorrências. O número entre parênteses em frente à identificação de uma subpasta verde indica a quantidade de ocorrências do assunto naquela edição.

Na área central, onde a página de jornal é exibida, podemos notar que o termo buscado é destacado em verde, facilitando a navegação do usuário. Os botões na parcela superior direita correspondem a comandos de visualização, respectivamente: “Aumenta”, “Diminui”, “Girar para a esquerda”, “Girar para a direita”, “Melhor encaixe”, “Encaixa nas laterais”, “Encaixa na altura”, “Tamanho original”, “Página dupla” e “Miniaturas”, este com as subopções “Miniaturas”, “Miniaturas das ocorrências” e “Miniaturas das capas”. Também na área central, sobre a mancha gráfica do jornal, podemos visualizar setas para os lados que permitem navegar para a página anterior ou para a próxima, seguindo-se a paginação original daquela edição de jornal.

Para salvar a página do jornal com uma boa qualidade gráfica, com letras legíveis, é preciso clicar no botão “Tamanho original” e então clicar com o botão direito do mouse e selecionar “Salvar imagem como…”. Assim, o professor poderá inclusive escolher qual parte deseja mostrar aos alunos (uma coluna, uma reportagem específica) e isolá-la em qualquer editor de imagem. Atentamos que a reprodução de material da Biblioteca Nacional para fins não comerciais é permitida contanto que se atribua a fonte, entretanto alguns jornais ali disponíveis são protegidos por direitos autorais, o que é prontamente avisado ao usuário através de um pop-up, incluindo um endereço de e-mail caso o usuário queira solicitar a autorização de reprodução. A Figura 4 apresenta o pop-up exibido pelo acervo do Jornal do Brasil.

Figura 4 – Aviso de direitos autorais da Hemeroteca Digital

Escolhida uma página ou matéria de jornal capaz de ilustrar ou apoiar o conteúdo em sala de aula, é necessário que o professor contextualize o local de produção desta fonte, o que pode revelar a inclinação política do jornal e, desta forma, o motivo daquele assunto ter sido abordado daquela maneira em suas páginas. Ressaltamos que diversos jornais importantes da segunda metade do século XX tinham vínculos de posse, direção ou sustentação eleitoral com grandes figuras do jogo político, ao exemplo de: O Dia (de Chagas Freitas), Luta Democrática (de Tenório Cavalcanti), Ultima Hora (grande apoiador de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart) e Tribuna da Imprensa (de Carlos Lacerda).

Diante da necessidade de se compreender a origem e alinhamento político dos jornais a serem levados para a sala de aula, o acervo de verbetes do CPDOC surge como uma ferramenta complementar que oferece textos sintéticos e de grande relevância para esta etapa do preparo das aulas.

O site do CPDOC pode ser acessado através do endereço https://cpdoc.fgv.br/. Ao clicar na aba “Acervo”, o usuário pode restringir a busca apenas ao acervo “Verbete” e então inserir o nome do jornal que deseja conhecer melhor, ou personagem histórico retratado na reportagem de interesse. Ao confirmar a busca serão listadas todas as ocorrências que podem ter relação ao assunto pesquisado, priorizando-se a correspondência exata. Um exemplo de busca pelo verbete do Diário da Noite pode ser consultado na Figura 4.

Figura 5 – Exemplo de busca efetuada no acervo de verbetes do CPDOC

Vejamos um breve exemplo do uso conjunto destes dois repositórios para abordar a radicalização política na década de 1950 a partir do atentado da Rua Tonelero até o suicídio de Getúlio Vargas. Este conteúdo é previsto para o 9º ano do ensino fundamental.

Getúlio Vargas é eleito presidente da República por vias democráticas em outubro de 1950 para seu segundo mandato, vindo a assumir o posto em 31 de janeiro de 1951. Seu primeiro governo (1937-1945), conhecido como Estado Novo, é marcado pelo autoritarismo, censura aos órgãos de imprensa e repressão política, o que lhe rendeu diversos opositores políticos, dentre os quais se destaca o jornalista Carlos Lacerda.

Em 1949 Lacerda funda seu próprio jornal, Tribuna da Imprensa, e mesmo antes de Vargas se candidatar à presidência o jornalista já demonstrava uma ferrenha oposição. Vejamos um trecho do texto “Advertência oportuna”, publicado em 1º de junho de 1950 no supracitado jornal: “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”[1]

Ciente da falta de apoio da imprensa devido à censura durante seu primeiro governo, Getúlio auxilia outro jornalista, Samuel Wainer, a criar um jornal que lhe pudesse oferecer apoio político. Assim, em 12 de junho de 1951 nasce o Ultima Hora.[2]

Diante das relações de posse, direção e sustentação política opostas dos jornais Tribuna da Imprensa e Ultima Hora, é mais ou menos evidente que suas linhas editoriais e coberturas de eventos políticos seriam também opostas. Esse clima de oposição também resultou numa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)[3] para investigar financiamentos ilícitos para órgãos de imprensa em 1953, prejudicando o jornal Ultima Hora e aumentando a tensão entre Carlos Lacerda e o governo federal.[4]

Os embates teriam como desfecho os trágicos acontecimentos de agosto de 1954. Na noite de 4 de agosto daquele ano, após voltar de um discurso em um colégio do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda e seu filho retornam para seu apartamento, situado na rua Tonelero. O jornalista estava acompanhado do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que naquela noite fazia sua segurança, quando um homem se aproximou do local e tentou alvejar Lacerda a tiros. Lacerda sofreu apenas um ferimento de bala no pé, mas o major morreu no local. No dia seguinte ao atentado, o jornalista publicou um texto acusatório na primeira página do jornal Tribuna da Imprensa, intitulado “O sangue de um inocente”:

RUBENS Florentino Vaz, herói do Correio Aéreo Nacional, pai de quatro crianças, caiu esta noite ao meu lado. Meu próprio filho correu, com êle, o risco a que estão sujeitos os brasileiros entregues a um regime de corrupção e de terror. […] perante a Deus, acuso um só homem como responsável por êsse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Êsse homem chama-se Getúlio Vargas.[5]

O envolvimento da guarda presidencial de Getúlio tornava-se cada vez mais evidente conforme testemunhas traziam seus relatos à polícia. Como tentativa de acalmar os ânimos, Getúlio determinou em 9 de agosto a extinção da guarda presidencial, o que foi visto pelo jornal Ultima Hora como um grande exemplo de “[…] imparcialidade, capacidade de renúncia e espírito de justiça”.[6] As dimensões do episódio e a morte de um major da Aeronáutica fizeram com que uma investigação militar fosse instalada na base aérea do Galeão, dando origem à expressão “República do Galeão”. Com a confirmação do envolvimento da guarda presidencial (sobretudo de Gregório Fortunato, mandante do crime e braço-direito de Getúlio) cresceram os pedidos de renúncia do presidente. Sob intensa pressão, Getúlio Vargas se suicidou em 24 de agosto de 1954, causando enorme comoção nacional. Esse ato e sua publicidade fizeram com que Carlos Lacerda passasse de vítima a assassino de Vargas no imaginário popular.

Na cobertura jornalística sobre a morte de Getúlio, os jornais Ultima Hora e Tribuna da Imprensa novamente apresentam visões distintas. No primeiro, comenta-se que “[…] O MAIOR LÍDER POPULAR QUE O POVO BRASILEIRO JÁ CONHECEU ENCERROU DE MODO DRAMÁTICO SUA GRANDE VIDA”,[7] dedicando-se várias páginas da edição para o assunto. Em Tribuna da Imprensa, a primeira página do jornal também destaca a morte do presidente da República, mas ressalta que “[s]eu suicídio serve de lição e advertência eterna. Paz à alma de Getúlio Vargas. E paz, na terra, ao Brasil e ao seu atribulado povo.”[8]

Essas simples mudanças na forma com que cada jornal noticiou os desdobramentos de agosto de 1954 exemplificam o clima de polarização política à época, permitindo apresentar aos alunos na prática, através das fontes, um conteúdo presente nos livros didáticos.

Conforme apresentado, as duas ferramentas facilitam o trabalho do professor que deseja usar fontes primárias para enriquecer os conteúdos em sala de aula. Abaixo listamos outras edições emblemáticas de jornais que costumam ser abordadas em livros didáticos e na historiografia.

  • Transcrições da carta de renúncia de Jânio Quadros em comparação com a carta do suicídio de Getúlio Vargas

LUTA DEMOCRÁTICA. Luta Democrática, Rio de Janeiro, 26 ago. 1961. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/030678/20077>.

  • Diário de Notícias e a censura durante a crise da renúncia de Jânio Quadros

DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30 ago. 1961. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/docreader/093718_04/16242>.

  • Editoriais do Correio da Manhã e sua mudança de visão sobre o golpe de 1964

CORREIO DA MANHÃ. Basta! Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 31 mar. 1964. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/50167>.

CORREIO DA MANHÃ. Fora! Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1º abr. 1964. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/50193>.

CORREIO DA MANHÃ. Basta: fora a ditadura! Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 03 abr. 1964. p. 6. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/50240>.

CORREIO DA MANHÃ. Ato Institucional Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 abr. 1964. p. 6. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/59190>.

  • Depredação da sede do jornal Ultima Hora por movimentos paramilitares quando do golpe civil-militar de 1964

ULTIMA HORA. Ultima Hora, Rio de Janeiro [Ed. Extra], 02 abr. 1964. p. 1 Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/386030/98599>.

  • Boletim meteorológico com críticas ao recém baixado AI-5 [detalhe superior esquerdo, ao lado do logotipo do jornal]

JORNAL DO BRASIL. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 dez. 1968. p. 1 [material protegido por direitos autorais]. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/030015_08/126463>.

  • Prisões políticas e o AI-5

CORREIO DA MANHÃ. PRISÕES EM MASSA ANTES E DEPOIS DO AI-5 NO PAÍS. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 07 jan. 1969. p. 11. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/089842_07/98817>.

NOTAS

[1] LACERDA, Carlos. Advertência oportuna. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 1º jun. 1950. p. 4. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/154083_01/1396>.

[2] LEAL, Carlos Eduardo. Ultima Hora. In: In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – DHBB. Rio de Janeiro: FGV-CPDOC (Verbete). Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/ultima-hora>.

[3] Uma CPI é um grupo temporário de investigação do Poder Legislativo. Ela pode ser criada no Senado ou nas Câmaras Federais ou Estaduais e tem como principal função a de investigar e fiscalizar possíveis irregularidades dentro da administração pública. Após o fim dos trabalhos de uma CPI, suas principais conclusões são apresentadas em relatório e podem ser encaminhadas aos órgãos responsáveis para que os infratores sejam responsabilizados civil e criminalmente.

[4] LEAL, Carlos Eduardo. Tribuna da Imprensa. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – DHBB. Rio de Janeiro: FGV-CPDOC (Verbete). Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/tribuna-da-imprensa>.

[5] LACERDA, Carlos. O sangue de um inocente. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 05 ago. 1954. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/154083_01/16715>.

[6] ULTIMA HORA. EXEMPLO DE ISENÇÃO, ACIMA DE TUDO. Ultima Hora, 10 ago. 1954. p. 2. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/386030/19976>.

[7] ULTIMA HORA. Ultima Hora, Rio de Janeiro [Ed. Extra], 24 ago. 1954. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/386030/20229>.

[8] TRIBUNA DA IMPRENSA. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 24 ago. 1954. p. 1. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/154083_01/17005>.