“Segure o amor com força e beba à saúde do possuidor da Dupla Glória”. A poesia andaluza em seu esplendor (século XI)

Aguinaldo Henrique Garcia de Gouveia

 

A expansão muçulmana, iniciada com Maomé, no século VII, na Península Arábica, chegou, no início do século VIII, na Península Ibérica. Aquela região – que hoje compreende os países de Portugal e Espanha – permaneceu, então, sob domínio de muçulmanos – em diferentes níveis de abrangência – até meados do século XV, mais precisamente, 1492, quando houve a efetiva tomada, por cristãos, do Emirado de Granada, último reduto muçulmano na Península. À esta região, durante este período, chamamos Al-Andaluz.

A sociedade muçulmana na Península Ibérica, especialmente no Califado de Córdoba, que durou de 929 até 1031, foi fortemente centralizada. Nesse período havia uma forte centralização do poder no califa, que dirigia aquela sociedade a partir da cidade de Córdoba. A centralização daquela sociedade na cidade de Córdoba se dava em praticamente todos os âmbitos, especialmente no político e no cultural.

Após um período de intensa turbulência política, entre os anos de 1008 e 1031, envolvendo questões de sucessão e interesses separatistas, chegou ao fim o Califado de Córdoba e com ele, a centralização política e cultural de Al-Andaluz. Com o fim do Califado, surgiram os reinos Taifa, que eram pequenos estados independentes, que tinham por base uma cidade importante que eram anteriormente, em sua maioria, capitais de uma província e que eram governados por famílias que já possuíam destaque e influência naquela região.

Podemos compreender melhor esse momento a partir da metáfora do “rompimento do colar” (FLETCHER, 2002, p. 43). Segundo essa metáfora (utilizada pela primeira vez por um poeta muçulmano do século XIII), Al-Andaluz seria um colar de pérolas, no qual o Califado de Córdoba seria o fio e as cidades – especialmente as maiores e mais importantes – seriam as pérolas. Assim, o fio do colar, ou seja, o Califado de Córdoba, seria o poder centralizador que une e mantém as pérolas, ou seja, as cidades, ao seu redor e sob sua influência. Com o rompimento desse colar, ou seja, com o fim do Califado, as pérolas se dispersaram e ganharam autonomia, tornando-se, então, os reinos Taifa. Os reinos taifas, por sua vez, perduraram por pouco tempo, pois nasceram e morreram no século XI.

É durante o período dos reinos Taifa, contudo, que ocorreu o esplendor cultural de Al-Andaluz (MATA, 1992). Isso pode ser explicado justamente pelo “rompimento do colar”. Esse rompimento foi um processo de descentralização – com o fim do Califado e de sua “mão de ferro” centralizadora – e, consequentemente, de dispersão cultural. Ou seja, a produção e o próprio ambiente cultural, que estavam centralizados em Córdoba, se dispersaram pelos diversos reinos Taifas – em uns mais do que em outros – que passaram a ser, no ambiente mais restrito das cortes, o ambiente literário por excelência. Outra explicação para esse fenômeno, de maneira complementar, é a própria função social da poesia. Essa questão, contudo, será abordada posteriormente.

As cortes dos reinos taifas, foram, portanto, o ambiente literário por excelência, em Al-Andaluz. Talvez o melhor exemplo dessas cortes seja a de Sevilha. Esse reino, localizado ao sul da península, foi, provavelmente, o maior dos reinos taifas, a respeito de poder e influência, visto que dominou e incorporou diversos outros reinos taifas, como Huelva, Ronda e Córdoba[1]. Assim como o reino de Sevilha se destacava politicamente, a corte de Sevilha se destacava culturalmente. Ela é considerada por muitos estudiosos (MATA, 1992) como o ambiente literário de maior destaque daquele contexto. E muitos são os argumentos que corroboram para essa interpretação. Tratava-se, efetivamente, de um ambiente no qual se prezava muito pela literatura. Isso se manifestava mesmo, e destacadamente, na figura dos governantes daquele reino. Os três governantes do reino de Sevilha, além de possuírem grandes capacidades políticas, possuíam também grande sensibilidade estética. Esta era manifestada seja pela promoção de um mecenato e um ambiente literário requintado em suas cortes, seja pela própria produção literária. O último dos governantes de Sevilha Al-Mu’tamid (1040-1095), é considerado o “poeta do amor” e mesmo a “personificação da poesia” (MATA, 1992, p. 86). O Fato de Ibn Ammar (1031-1086), um dos maiores poetas daquele período, estar estreitamente ligado à corte de Sevilha, também contribuiu para interpretação de que Sevilha era a principal corte literária Al-Andaluz.

Este era, portanto, o contexto de produção da poesia de Al-Andaluz no século XI. Antes de tratarmos dessa poesia em si, devemos, no entanto, elucidar algumas questões conceituais. Aqui, ao falarmos de poesia, temos em mente sua definição mais estrita, relacionada às manifestações artísticas e suas intenções estéticas, ou seja, a prosa e a poesia (MATA, 1992, p. 36).  Dessa forma, outros tipos de produção escrita, como a filosófica, não se enquadram em nosso recorte. Portanto, aqui, literatura está circunscrita à prosa e a poesia. E como nosso trabalho é sobre a poesia andaluza, literatura se restringe ainda mais e se torna sinônimo de poesia.

A poesia é considerada uma das manifestações culturais mais antigas do mundo árabe. Ela já se encontrava totalmente estruturada e era amplamente utilizada na península arábica antes mesmo do surgimento do Islã (MATA, 1992). Não podemos estabelecer as origens dessa poesia – quando e como surgiu. Sabemos, contudo, que possuí origens na oralidade. Essas poesias, na Península Arábica, eram, na verdade, inicialmente cantadas e/ou recitadas. Possuíam, assim, fortes aspectos musicais. O alaúde, inclusive – instrumento de corda –, era companheiro quase indispensável das poesias.

Esses elementos podiam, ainda, ser percebidos em Al-Andaluz no século XI. A relação com a oralidade se manteve extremamente forte. Uma análise mais técnica (PIDAL, 1943), por exemplo, demonstra muito bem isso. Esse tipo de abordagem, contudo, não nos interessa aqui, portanto, só a citaremos.

Uma mudança importante, por sua vez, quanto ao contexto de origem da poesia no mundo árabe, é que em Al-Andaluz no século XI, a poesia – como já vimos – era algo muito mais relacionado às cortes. Tal característica, embora presente, não era tão marcante na Península Arábica por volta dos séculos VII-VIII.

Os temas presentes nas poesias são importantes indicadores das diferenças entre os dois contextos. Na Península Arábica, quando das primeiras manifestações poéticas, o que predominava eram os chamados “canto de camellero” (MATA, 1992, p. 52). Nessas poesias, o principal destaque é referente ao modo de vida representado, ainda muito associado às tribos e aos constantes deslocamentos. Trata-se, realmente, de temas nada cosmopolitas, quando não, relacionados mesmo ao próprio deserto – e aos camelos, daí o nome.

Esse “canto de camellero” nunca desapareceu totalmente das manifestações poéticas do mundo árabe – especialmente por meio de influências. A partir do século IX, no entanto, ocorreu um movimento de renovação na literatura árabe (MATA, 1992, p. 64). Esse movimento inseriu novas temáticas nas poesias, muito relacionadas às adaptações aos novos contextos[2]. Surgiram, assim, as poesias que falavam sobre a natureza (jardineiras), sobre o vinho (báquicas), sobre a caça (caçadoras), sobre um governante que era exaltado (panegíricas), dentre outras. Muitas das temáticas surgidas nesse momento chegaram a Al-Andaluz[3]. Algumas delas, inclusive, permaneceram como as mais destacadas, como é o caso das báquicas e das panegíricas. Podemos considerar que, juntamente com as poesias descritivas e amorosas, esses eram os principais tipos de poesia em Al-Andaluz no século XI.

Ainda outros tipos de poesias poderiam ser inseridos aqui. Por exemplo, as poesias “florais”, que eram uma derivação das “jardineiras”, no entanto, propriamente andaluzas. Contudo, no trabalho com as fontes e bibliografia especializada, os tipos que mais se destacaram foram, realmente, os quatro supracitados. Portanto, nos limitaremos a eles. Devemos, ainda, destacar que essas categorizações são didáticas, visando, portanto, facilitar a compreensão sobre o assunto.

A poesia que aqui denominamos como descritiva tem por principal característica, justamente o que seu nome sugere, ou seja, a descrição. Trata-se, no entanto, mais especificamente, da descrição de feitos, ou melhor, criações humanas, como palácios. Muitas das vezes refere-se a criações humanas relacionadas à dominação da Natureza, como, por exemplo, em descrições de moinhos ou rodas d’agua. Via de regra, essas descrições têm como tom a exaltação.

“Ah, aquela que chora enquanto o jardim ri,

Quando ela derrama suas torrentes de lagrimas.

O que surpreende a quem olha é isto:

O rugido do leão e as contorções da serpente!

Ela forma lingotes de prata com a agua da lagoa,

E faz-nos crescer nos jardins, na forma de dirhems!”

(FLETCHER, 2002, p. 31)

A poesia panegírica é, em certa medida, parecida com a descritiva, pois, até certo ponto, também descreve algo. Ou melhor, nesse caso, alguém. Esse tipo de poesia tem por característica principal a exaltação de um governante. Realiza-se isso, por meio de descrições de suas características ou feitos. Essas descrições, por sua vez, são quase sempre, extremamente exageradas e inverossímeis. Devemos entender, contudo, esse tipo de literatura diretamente relacionada aquele ambiente literário no qual predominava o mecenato. Um bom exemplo dessa poesia é a seguinte, de Ibn Arfa’Ra’suh, dedicada para al-Ma’mum:

“Segure o amor com força e beba a

saúde do possuidor da

Dupla Glória [isto, é al-Ma’mum]

Que sustenta as terras do Oriente

e do Ocidente,

E que da socorro aos crentes

descendente de Ya-rub,

O rei altaneiro, que humilha sultões,

Que lidera cavalgadas e é leão

dos campos de batalha,

Ele é um rei de coração mais bravo

Que o leão,

Assim como seus dedos são mais generosos

que as nuvens da chuva”.

(FLETCHER, 2002, p. 51)

A poesia báquica configura talvez o caso mais interessante, por dois motivos principais: primeiro, trata de um tema muito palpável, para nós, ainda hoje e segundo, refere-se a uma atividade proibida pelo Corão. Estamos falando, é claro, do consumo de vinho. Embora fosse uma atividade proibida aos muçulmanos, o consumo de vinho não era exceção em Al Andaluz, nem em outras partes do mundo árabe; nesse mesmo período, ou seja, século XI, um poeta sírio escrevia poemas de ode ao vinho (BERGONCI, 2008, p. 42). Muitos foram os poetas de Al Andaluz que escreveram sobre o vinho. Talvez a totalidade – ao menos muito próximo disso – dos escritos que temos acesso sobre o esse tema seja de exaltação ao vinho, como o seguinte exemplo, do poeta Ibn Ammar.

“Em suas margens bebemos pela taça

Era tempo de beber e de mais nada

Mas os olhos do copeiro, na rodada

Eram os mais embriagadores”

(GRANELLA, 2013 p. 367)

Por fim, a poesia amorosa. Al Andaluz é reconhecidamente uma região em que foi intensa a produção de poesias amorosas. Muitos foram os nomes que nesse ramo se destacaram. Al-Mu’tamid chegou a ser chamado de “poeta do amor” (MATA, 1992, p. 87). Nesse tipo de poesia o que se destaca são os sentimentos do autor; a manifestação deles. Na maioria das vezes são amorosos, mas não necessariamente. Muitas vezes podem ser vistos mais como sentimentos de luxúria. Por isso, devemos ter cuidado com o que consideramos como amor aqui. Para fins didáticos, podemos definir esses sentimentos amorosos como aqueles nos quais se manifesta prazer, desejo, carinho, cuidado, pela pessoa referida. Um dos melhores exemplos dessa poesia é a de al-Mu’tamid, dedicado a sua amada:

“Invisível a meus olhos,

trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito de paixão

e lagrimas de pena com insônia.

Inventaste como possuir-me

e eu, o indomável, o submisso vou ficando!

Meu desejo é estar contigo sempre,

oxalá se realize tal vontade

Assegura-me que o juramento que nos une

nunca a distancia o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

e aqui fica escrito no poema: ‘Itmad.

(ALVES, 1996, p. 83).

Não devemos entender esses tipos de poesia – que como já dissemos têm fim mais didático do que propriamente historiográfico – como totalmente independentes um do outro. Existiam muitas poesias que mesclavam dois – mais raramente até três – desses tipos. As poesias que possuíam elementos báquicos e amorosos são uma das mais comuns, como, por exemplo, essa de al-Mu’tamid:

“A noite lava as sombras

das suas pálpebras com a aurora.

Ligeira corria a brisa.

E bebemos! Um vinho velho cor de rubi,

denso de aroma e de corpo suave”.

(ALVES, 1996, p. 59)

Todas elas possuíam importante função social naquela sociedade. Neste ponto poderíamos começar destacando as influências do Corão. No islamismo não é permitido a representação humana, especialmente em lugares sagrados, como as mesquitas. Com isso, a representação de vegetais, especialmente arbustos, ganha destaque. Contudo, é a escrita árabe que mais se destaca aqui. As representações que, por exemplo, nos templos cristãos, são feitas com imagens humanas, nos templos muçulmanos são feitas com escritos, principalmente com trechos do próprio Corão. Assim, a escrita árabe – que por si só pode ser considerada uma arte – que tem, naquele contexto, a poesia como uma das principais manifestações artísticas, traz consigo um importante valor simbólico de representação.

De maneira mais restrita, no entanto, podemos destacar a função social das poesias panegíricas. Considerando que o ambiente literário naquele contexto girava, em grande medida, em torno do mecenato, é compreensível a grande importância que esse tipo de poesia possuía. Um poeta, especialmente um profissional, que, portanto, dependia de sua poesia para sobreviver, tinha no panegírico o melhor meio de se manter financeiramente. Em muitos casos os panegíricos possibilitavam até mesmo a ascensão social de seu autor. Isso se dava por meio de um “esquema de trocas”, no qual o poeta oferecia uma poesia panegírica, que podia servir de elemento legitimador e de afirmação, para determinado governante, que, por sua vez, oferecia recursos financeiros, segurança, cargos políticos ou administrativos. Talvez o melhor exemplo de ascensão de um poeta seja o de Ibn Ammar (1031-1086).

Inserido na corte de Sevilha, sob o governo de Al-Mu’tadid, Ibn Ammar ascendeu socialmente graças a seus poemas panegíricos àquele governante. A mais destacada dentre essas poesias é o seguinte:

“Passem a taça; a brisa da manhã

Sopra livre por toda parte,

As estrelas que cavalgam a noite, cansadas da viagem,

Puseram de lado as rédeas.

[…]

Quando a brisa agita sua superfície

Brilhante, parece cintilar

A espada de seu monarca, que põe em fuga

As legiões de seus inimigos.

O grande filho de Abbad, cujas mãos generosas

Aliviam toda falta,

Mantém sempre verde a terra agradecida

Mesmo que os céus estejam negros;

[…]

Um monarca que, quando os reis

Da terra vêm beber,

Eles não ousam descer à fonte

Até que ele deixe suas bordas.

Mais fresca que o orvalho, sua generosidade pousa

Sobre os corações dos

Cansados, mais doces aos olhos

Do que o sono repousante

[…]

Quem ousaria me contradizer.

Já que eu trouxe teu nome [al-Mu’tadid]

Para arder, como a madeira do aloé

Sobre o braseiro dos meus pensamentos?”

(FLETCHER, 2002, p. 53-54)

Graças a essa poesia, Ibn Ammar chegou a se tornar conselheiro no reino de Sevilha e a governar outras regiões em nome dos governantes deste reino Taifa.

A trajetória de Ibn Ammar, que exemplifica muito bem a ascensão social possibilitada a partir da produção poética, no entanto, também serve de exemplo para outra importante função social que a poesia possuía naquele contexto. Nos referimos, aqui, ao que podemos chamar de conflitos políticos e/ou pessoais. Para compreender melhor essas questões consideramos importante dispender mais atenção à trajetória desse poeta.

Nascido em Silves – na costa sul do que hoje é Portugal – em 1031, Ibn Ammar foi um dos maiores poetas Al-Andaluz no século XI. Grande parte de sua carreira poética e mesmo de sua vida pessoal, teve os episódios mais marcantes relacionados à corte de Sevilha. É justamente nessa relação, entre Ibn Ammar e os governantes de Sevilha, que podemos perceber essa destacada função social da poesia em Al-Andaluz.

A relação de Ibn Ammar com a corte de Sevilha começou no período do governo de Al-Mu’tadid (1041-1069). Tratava-se da clássica relação de mecenato. Nesse momento, Ibn Ammar dedicou um longo panegírico a Al-Mu’tadid (FLETCHER, 2002, p. 53), o que lhe rendeu fortuna e ascensão. Nesse mesmo período, tornou-se muito próximo do então príncipe de Sevilha, Al-Mu’tamid. Há, inclusive, informações de que houve uma relação amorosa entre os dois. Esse, provavelmente, foi um dos motivos para que Al-Mu’tadid exilasse Ibn Ammar.  Exilado, passou por Almería, Albarracín e Saragoça, nesta permaneceu por mais de dez anos, de onde escreveu diversas poesias “cheios de autopiedade, na tentativa de amolecer seu [de Al-Mu’tadid] coração” (FLETCHER, 2002, p. 55). Podemos perceber aqui como a poesia era utilizada como forma de diálogo. Ibn Ammar, contudo, não obteve sucesso com Al-Mu’tadid e apenas conseguiu voltar a Sevilha com sua morte e a ascensão de Al-Mu’tamid (1069-1091).

Voltando a Sevilha, reassumiu suas funções de poeta e conselheiro. Ibn Ammar possuía, então, muita influência na corte de Sevilha, inclusive em assuntos políticos. Em 1078 foi enviado como comandante do exército que atacaria Múrcia, outro reino taifa. Para garantir seu sucesso, Ibn Ammar contratou o auxílio militar de cristãos de Barcelona, enviando para lá o filho mais velho de Al-Mu’tamid, sem que este soubesse, como garantia do pagamento. Após obter a vitória e conquistar Múrcia, Ibn Ammar passou a atuar como governante daquele lugar, embora se dissesse subordinado a Al-Mu’tamid. Ou seja, passou a ter uma postura de insubordinação e agir como governante independente. Em resposta a isso, Al-Mu’tamid escreveu poesias em que ridicularizava as origens humildes da família e Ibn Ammar. Este, por sua, vez respondeu com um poema no qual ofendia Al-Mu’tamid, sua esposa e seus filhos.

Esse conflito terminou de maneira trágica. Ibn Ammar foi traído em Múrcia, de onde teve que fugir, indo, então, para Saragoça, onde após alguns anos foi capturado e vendido para Al-Mu’tamid. Nesse momento, Ibn Ammar ainda dedicou um último poema à Al-Mu’tamid, como um pedido de piedade ao antigo amigo. Não adiantou. Al-Mu’tamid, com suas próprias mãos, matou Ibn Ammar.

Pudemos perceber, com a história de Ibn Ammar, que a função social da poesia naquela sociedade era extremamente ampla. Além de ter um papel simbólico, relacionado às representações da e naquela sociedade e de possibilitar ascensão social, a poesia servia, realmente, como meio de diálogo; no exemplo que trouxemos, referente a conflitos pessoais e/ou políticos. Portanto, embora em grande nível restrita a determinado grupo social, a poesia possuía importantes funções sociais, sendo uma verdadeira forma de comunicação e interação social em Al-Andaluz naquele contexto.

 

Referências

ALVES, Adalberto. Al-Mu’tamid poeta do destino. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

ARMSTRONG, Karen. O Islã. Belo Horizonte: Objetiva, 2001.

BERGONCI, Ana Paula Aydos. O pensamento autônomo de um poeta persa (séculos XI e XII): relações entre indivíduo e cultura no Rubaiyat de Omar Khayyam. 2008. 51f. Monografia (graduação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, curso de graduação em História.

FLETCHER, Richard. El busca de El Cid. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

GIORDANI, Mario Curtis. História do mundo árabe medieval. Petrópolis: Vozes, 1976.

GRANELLA, Camila Flores. “Um mundo de possibilidade: A Península Ibérica no século XI”. Cadernos de Clio, Curitiba, nº 4, 2013.

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia da Letras, 2006.

MATA, Maria de Jesús Rubiera. Literatura Hispanoárabe. Madrid: Editora Mapfre, 1992.

PIDAL, Ramón Menéndez. Poesía árabe y poesía europea. Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1943.

[1] É interessante notar que esse fenômeno era o padrão naquele contexto. Após o rompimento do colar surgiram dezenas de reinos taifas. Ao passar alguns anos, havia apenas uma dúzia de reinos relevantes.

[2] Vale lembrar que, nesse momento, o mundo árabe era muito mas amplo e com contextos e realidades muito mais  diversos, do que no momento de surgimento do “canto de camellero”.

[3] Existia, no mundo árabe, um intenso transito cultural.

 

Apresentação em slides: A poesia em Al-Andaluz (século XI)