Movimentos Cruzados: A Conquista de Lisboa (1147) no encontro entre as Cruzadas do Oriente e a Reconquista

Willian Funke

INTRODUÇÃO

A conquista de Lisboa, comandada pelo rei português Afonso Henriques em 1147, está inserida no processo de Reconquista Ibérica e no movimento mais amplo de expansão da fé cristã, que inclui ainda as Cruzadas ao oriente e a cristianização das regiões escandinava e eslava. A conquista de cidade é um dos momentos de interação entre diferentes processos do período. O monarca português – através do bispo do Porto – solicitou auxílio a cruzados vindos do norte e que haviam parado no Porto para aprovisionamento de suas embarcações, as quais rumavam para a Terra Santa. Os argumentos utilizados para convencer os guerreiros a tomarem parte na investida contra Lisboa são muito próximos dos argumentos gerais da cruzada, como a necessidade de combater os infiéis e cumprir os designios de Deus seja onde for.

O Portugal do período, bem como toda a Península Ibérica, estava em constante conflito pela manutenção e ampliação de suas fronteiras, seja no campo de batalha ou no diplomático. Os acordos se sucediam conforme a conjuntura se mostrava mais ou menos favoráveis a determinados intentos. Por vezes soberanos cristãos e muçulmanos se juntavam contra outro desta ou daquela invocação. O avanço em direção ao Tejo por parte dos portugueses ocorreu num momento de fragilidade dos muçulmanos, que passavam por uma crise, da qual resultaria a troca da dinastia mais importante na porção da península dominada pelos muçulmanos, passando o poder dos Almorávidas para os Almóadas. Afonso Henriques, portanto, viu na fragilidade do inimigo e aproximação de potenciais aliados a janela de oportunidade perfeita para tentar conquistar Lisboa, a cidade mais importante do Ocidente de Al-Andaluz. A Reconquista e a Cruzada estavam inseridas no contexto de expansão da Cristandade. Ambos os movimentos se direcionavam contra os chamados infiés.

No mapa percebemos a movimentação dos cristãos em direção ao sul de Portugal, tomado pelos muçulmanos. Retirado de: http://www.joaoleitao.com/viagens/imagens/mapas/portugal/mapa-portugal.jpg acesso em jul. 2014.

No mapa percebemos a movimentação dos cristãos em direção ao sul de Portugal, tomado pelos muçulmanos. Retirado de: http://www.joaoleitao.com/viagens/imagens/mapas/portugal/mapa-portugal.jpg acesso em jul. 2014.

Portugal, no século XII, lutava pra manter sua autonomia. Oficialmente era Condado do Reino de Leão, mas buscava se firmar enquanto Reino independente. Uma das formas de justificar essa autonomia era combater (e vencer) os muçulmanos que estavam no sul da Península Ibérica.

Janela de Oportunidades

Se os cruzados estavam indo para Jerusalém, por que pararam em Portugal e ajudaram a conquistar Lisboa?

Avanço do movimento cruzadístico dentro da Europa. Retirado de: http://www.islamproject.org/images/crusades_final.jpg acesso em jul. 2014

Avanço do movimento cruzadístico dentro da Europa. Retirado de: http://www.islamproject.org/images/crusades_final.jpg  acesso em jul. 2014.

Eles pararam lá para abastecer, e nesse momento os portugueses pediram ajuda.

E quais foram os argumentos para convencer os cruzados a ajudarem?

Os do Bispo do Porto foram que os cruzados eram escolhidos por Deus e bons cristãos. E que de nada adiantaria irem a Jerusalém se não ajudassem seus irmãos que lutavam contra os infiéis. Seria essa ajuda que os faria alcançar o prêmio da salvação. Um dos líderes cruzados favorável a ajuda se referiu a glória e a honra, deles, de seus antepassados e de sua terra. E também a obrigação da solidariedade. E não podemos esquecer da importância da promessa de pagamento que o Rei português fez aos Cruzados. O pagamento se daria com o produto do saque de Lisboa.

Em 1147 os Almorávidas (grupo que dominava o sul da Península Ibérica) enfrentavam uma séria crise. Um outro grupo islâmico, os Almóadas, estava avançando sobre os territórios dos Almorávidas no norte de África, levando esses últimos a concentrarem os esforços de defesa no extremo sul da Península. Lisboa ficou assim menos protegida e, devido a sua posição, o auxílio das embarcações dos cruzados seria essencial para que se conseguisse efetivar a conquista.

mapa criado a partir da ferramenta Google Earth.

mapa criado a partir da ferramenta Google Earth.

Execução

Guerra de Cerco – Durante muito tempo na Idade Média, a principal forma de combate não era campal, mas o cerco. Nas guerras de cerco o atacante (sitiante) montava acampamento em torno da cidade alvo e fazia o possível para enfraquece-la e invadi-la, o que nem sempre ocorria.
Um elemento que demonstra a importância desse tipo de combates é o hábito de murar as cidades, para se defender de ataques inimigos.
Na tentativa de vencer as resistências eram atacadas as muralhas, cortadas fontes de água e comida e realizados outros movimentos. A defesa também tinha várias estratégias.

Cerco de Jerusalém. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/1099jerusalem.jpg acesso em jul./2014

Cerco de Jerusalém. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/1099jerusalem.jpg acesso em jul./2014

Equipamento

Para levar a cabo uma guerra desse tipo era preciso ter equipamentos específicos para o ataque, a investida contra o sistema de defesa e a proteção dos combatentes.Era comum que os combatentes carregassem consigo bestas, espadas e clavas, além de equipamentos de proteção como elmos, escudos e lorigas.

Efetivação da Conquista

Após a tomada da cidade era preciso efetivar a conquista, dividindo o saque entre os apoiadores e construindo espaços de poder, entre eles o castelo e a igreja.

RELATO DA ENTRADA NA CIDADE:

[…] Confirmado isto por ambas as partes, anuiu-se ao que no dia anterior os mouros tinham perdido relativamente à rendição da cidade. Deciciu-se, pois, entre nós, que 140 homens de armas dos nossos e 160 dos colonienses e flamengos entrariam antes dos outros na cidade e que ocupariam pacificamente a fortaleza do castelo superior, por forma que os inimigos pudessem trazer os dinheiros e todos os seus haveres, comprovados, sob juramento perante os nossos; feita assim a recolha, a cidade seria depois inspeccionada pelos nossos: se algo mais do que o alegado fosse encontrado com alguém, o dono em cuja casa fosse achado pagaria com a vida. Deste modo, depois de espoliados, todos seriam mandados em paz para fora da cidade. […] (A conquista… p. 137)

[…]Os colonienses e os flamengos, ao lobrigarem na cidade tantas tantas oportunidades de se saciarem não respeitam qualquer observância de juramento ou de palavra dada. Correm por aqui e por ali, saqueiam, arrombam portas, espreitam pelos interiores de qualquer casa, assustam os habitantes e, contra o direito divino e humano inflingem-lhes injúrias, dispersam vasilhames e roupas, actuam sem respeito contra as donzelas, põem no mesmo prato da balança o lícito e o ilícito, às escondidas tudo subtraem, mesmo o que deveria ficar em comum para todos. Ao bispo da cidade, um ancião de muitos anos, cortam-lhe o pescoço, contra o direito divino e humano. Aprisionam o próprio alcaide da cidade, depois de lhe terem tirado tudo de casa. A pequena égua, de que falávamos acima, o próprio conde de Aerschot arrebatou com as suas mãos. Tendo ele sido intimado pelo rei e por todos os nossos a entregá-la, reteve-a com tanta obstinação que o próprio alcaide disse que a sua pequena égua ao urinar sangue tinha perdido um potro, exprimindo de maneira astuta a fealdade de uma ação obscena. […] (A conquista… p. 139)

Castelo de São jorge, em Lisboa. Imagem retirada de: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/63/Castle-DuarteGalvao3.jpg acesso em jul. 2014

Castelo de São jorge, em Lisboa. Imagem retirada de: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/63/Castle-DuarteGalvao3.jpg acesso em jul. 2014

Depois de 1147 Lisboa não deixou de ser portuguesa e a cidade se tornou o ponto de onde partiriam os novos ataques aos muçulmanos do sul. Alguns dos cruzados que auxiliaram na tomada da cidade permaneceram em Portugal e receberam benefícios do rei português. Enquanto isso a Cruzada continuou, houveram várias expedições e desvios dos planos iniciais. Os cruzados conquistaram Constantinopla, a perderam, bem como todas as terras que conseguiram na região da Terra Santa. Na Península Ibérica, por outro lado, o avanço sobre terras islâmicas continuou – de forma intermitente – até a conquista de Granada em 1492.

retirada de http://sgaclublectura.blogspot.com.br/2013_09_01_archive.html acesso em nov. 2015

A rendição de Granada. retirada de http://sgaclublectura.blogspot.com.br/2013_09_01_archive.html acesso em nov. 2015

Referências

•A Conquista de Lisboa aos Mouros – Relato de um Cruzado. Aires A. NASCIMENTO, (ed., trad. e notas). Lisboa: Vega, 2001.
•FERNANDES, Fátima Regina. “Cruzadas na Idade Média”. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2009. pp. 98-129.
•LOURINHO, Inês. 1147. Uma conjuntura vista a partir das fontes muçulmanas. Tese de Mestrado. Lisboa: FLUL, 2010.
•MATTOSO, José. História de Portugal, Vol. II, A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa, 1997.
•______. D.Afonso Henriques. 2ª Edição. Lisboa: Temas e Debates, 2011.

 

Apresentação em slides: Movimentos Cruzados Conquista de Lisboa