Clérigos vagantes e cultural medieval

Helena Macedo Ribas

 

INTRODUÇÃO

Os séculos XII e XIII foi um período cheio de transformações na Europa ocidental: há, por exemplo, um crescimento das cidades e atividades comerciais, a criação das primeiras universidades como espaço de ensino fora das catedrais e abadias, que ensinavam principalmente direito e teologia, além da sabedoria redescoberta dos gregos, como a filosofia e matemática. Nestes espaços surgem poetas, que conhecemos como Goliardos, que compõem com propósitos diferentes dos Trovadores e Jograis. já bastante difundidos a essa época.

Os goliardos são clérigos vagantes, estudantes que ainda não fazem parte do corpo eclesiástico, que  andavam de cidade em cidade cantando canções contra a Igreja e seus membros, mas também cantavam sobre o amor e sobre a taberna, lugar que se reuniam para beber vinho e jogar. Muitas vezes sem dinheiro, dependiam das pessoas que os escutavam nas tabernas para poderem comer e se vestir, mas as vezes algum nobre gostava das suas canções e convidava um goliardo para morar na sua casa ou o acompanhar em alguma aventura para outros lugares, e então esse goliardo tinha como se sustentar.

Marcadas em vermelhos estão as principais cidades nas quais temos notícia da presença de goliardos. Retirado de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Europe_mediterranean_1097.jpg acesso em julho/2014.

Marcadas em vermelho estão as principais cidades nas quais temos notícia da presença de goliardos. Retirado de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Europe_mediterranean_1097.jpg
acesso em julho/2014.

o manuscrito no qual se encontram as canções dos goliardos, o Carmina Burana, possui uma divisão temática que consiste em: poemas morais, que  falam principalmente dos desvios cometidos pelos eclesiásticos como a simonia, a não assistência aos pobres, a avareza cobiça. O segundo segmento são os poemas  amorosos, que falam da primavera e da beleza das mulheres, utilizando de temas da mitologia grega em suas poesias. O terceiro segmento são os poemas lúdico-tabernários ,que como o próprio nome já diz,trata do jogo e da vida na taberna e o consumo de vinho.

Nesta ilustração presente no códice do Carmina Burana temos o retrato de alguns homens desfrutando do vinho e da boa mesa, ambos elementos presentes nas canções tabernárias dos goliardos. Retirado de: https://amulherdas10flechas.wordpress.com/2012/06/23/carmina-burana/ acesso em jul./2014.

Nesta ilustração presente no códice do Carmina Burana temos o retrato de alguns homens desfrutando do vinho e da boa mesa, ambos elementos presentes nas canções tabernárias dos goliardos. Retirado de: https://amulherdas10flechas.wordpress.com/2012/06/23/carmina-burana/ acesso em jul./2014.

Nas cidades que hoje conhecemos como Paris, Bologna, entre muitas outras,surgem as primeiras universidades, por volta do século XII.  Os estudantes eram em sua grande maioria clérigos, homens que se preparavam para atuar na igreja,  mas também poderiam ser filhos dos comerciantes que prosperavam na época. Nessas universidades que surgem os primeiros goliardos, pois eram espaços de sociabilidade importantes. Os goliardos vagavam entre as cidades universitárias em busca dos conhecimentos que lhes agradavam, e esse conhecimento era usado para compor as canções, tendo em vista o público “estudantil” que as apreciaria.

Nesta ilustração temos a representação dos estudantes na Universidade de Paris. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Meeting_of_doctors_at_the_university_of_Paris.jpg acesso em jul. /2014.

Nesta ilustração temos a representação dos estudantes na Universidade de Paris. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Meeting_of_doctors_at_the_university_of_Paris.jpg acesso em jul. /2014.

A taberna, além de tema de muitas canções goliárdicas, dentro e fora do segmento citado, é o espaço de sociabilidade por excelência desses clérigos, pois é onde está nítido o seu espírito de transgressão ao compor sobre um lugar tão mal visto pela sociedade da época, mas que é democrático de certa forma, pois qualquer um pode beber e se divertir neste espaço. O jogo e o vinho eram acompanhados pela gula e os poemas báquicos tabernários quase sempre parodiam os ritos e os hinos litúrgicos e marianos, numa inversão dos valores da época, aspecto  muito importante da poesia goliárdica. Podemos  dizer que esse elemento de inversão de valores é fundamental para a poesia goliárdica, sendo a alma de suas sátiras. A seguir, temos um exemplo de uma canção goliárdica tipicamente tabernária:

IN TABERNA QUANDO SUMUS

Quando estamos na taberna,

não pensamos na morte,

corremos a jogar,

o que nos faz sempre suar.

O que se passa na taberna,

onde o dinheiro é hospedeiro,

podeis querer saber,

escutais pois o que eu digo.

 Uns jogam, uns bebem;

uns vivem licenciosamente.

mas dos que jogam,

uns ficam em pelo,

uns ganham aqui suas roupas,

uns se vestem com sacos.

Aqui ninguém teme a morte,

mas todos jogam por Baco.

 Primeiro ao mercador de vinho,

é que bebem os libertinos;

uma vez aos prisioneiros,

depois bebem três vezes aos vivos,

quatro a todos os cristãos,

cinco aos fiéis defuntos,

seis às irmãs perdidas,

sete aos guardas  florestais.

 Oito aos irmãos desgarrados,

nove aos monges errantes,

dez aos navegantes,

onze aos brigões,

doze aos penitentes,

treze aos viajantes.

Tanto ao Papa quanto ao Rei

bebem todos sem lei.

Como podemos notar neste exemplo de canção goliárdica, o vinho é a personagem principal, assim como o jogo. É muito importante o aspecto de “carpe diem” nas poesias lúdico tabernárias, principalmente quando envolvem prazeres mundanos, pois esse sistema faz parte da inversão operada pelos goliardos dos valores da época, que era um mecanismo corrente na sátira medieval. Na poesia goliárdica, o vinho e o jogo são edificantes e os bêbados são abençoados por Deus, indo no caminho oposto do que os valores da época prezavam.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

os goliardos tiveram um impacto considerável nas sociedades medievais ocidentais, e sua influência pode ser notada em obras posteriores, como El Libro de Buen Amor  (sec. XIV), por exemplo.  Além do fato de um manuscrito gigantesco para a época ter sido produzido (o que tinha um alto custo e era necessário muito trabalho), os goliardos chegaram a ser condenados em concílios regionais, num período tardio do movi-mento, pois suas sátiras contra a igreja incomodaram as autoridades eclesiásticas, e isso mostra que os goliardos não passaram despercebidos em sua época.

Nesta ilustração, que abre o códice do Carmina Burana, temos representada a Roda da Fortuna, que é um tema que transpassa toda a lírica goliárdica uma vez que se relaciona com sua maior filosofia de vida, o Carpe Diem. Através de uma ideia de inconstância da fortuna, os goliardos pregavam a necessidade de aproveitar o momento, sem se preocupar com o amanhã. Retirado de https://amulherdas10flechas.wordpress.com/2012/06/23/carmina-burana/ acesso em jul./2014

Nesta ilustração, que abre o códice do Carmina Burana, temos representada a Roda da Fortuna, que é um tema que transpassa toda a lírica goliárdica uma vez que se relaciona com sua maior filosofia de vida, o Carpe Diem. Através de uma ideia de inconstância da fortuna, os goliardos pregavam a necessidade de aproveitar o momento, sem se preocupar com o amanhã.Retirado de https://amulherdas10flechas.wordpress.com/2012/06/23/carmina-burana/ acesso em jul./2014

BIBLIOGRAFIA

BARROS, José d’Assunção. A gaia ciência dos trovadores medievais. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis: EDUFSC, vol. 41, nº. 1 e 2 pp. 83-110, 2007.

BASTOS, Douglas Santos. Os jograis como agentes culturais na Medievalidade Ibérica: séculos XIII-XIV. Roda da Fortuna: Revista eletrônica sobre Antiguidade e Medievo. Disponível em www.revistarodadafortuna.com.

CAMPOS, Luciana de. In Taberna quando sumus: a taberna medieval como espaço de prazer e poder. Revista História, imagem e narrativas, nº 16, abril 2013. Disponível em http://www.historiaimagem.com.br

DUBY, Georges. Idade média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. Trad. Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

MACEDO, J. R. Riso, cultura e sociedade na Idade Média. Porto Alegre/São Paulo:  Ed. Universidade/ EDUSP, 2000.

OLIVEIRA, Terezinha. A universidade medieval: uma memória. IV jornada de estudos antigos e medievais. Maringá: UEM, 2005. Disponível em: http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/2006_05.pdf

SODRÉ, P. R. O Riso no Jogo e O Jogo do Riso na Sátira Galego-Portuguesa. Vitória: Edufes, 2010.

VILLENA, L. A. de. Dados, amor y clérigos: El mundo de los goliardos em la Edad Media europea. Sevilla: Renascimiento, 2010.

 

Apresentação em slides: Clerigos vagantes e cultura medieval