Cavaleiros Templários: Hibridismo social em meio a sociedade medieval Trifuncional

Paloma Pereira Oliveira

 

O século XII trouxe para a medievalidade vários questionamentos importantes além de novos e importantes personagens históricos, responsáveis por sérias e intensas mudanças. Um grupo que representa isso é a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou comumente conhecidos como Templários. Para discutirmos os cavaleiros templários e sua função e importância para a sociedade medieval, para construirmos esse pensamento, precisamos analisar pontos importantes da medievalidade, tendo em evidência o século XII. Para começarmos, porém, trataremos de um tema anterior a ele: a trifuncionalidade.

“Uns dedicam-se particularmente ao serviço de Deus; outros garantem pelas armas a defesa do Estado; outros ainda a alimentá-lo e a mantê-lo pelos exercícios da paz.”

Charles Loyseau, 1610

A teoria da trifuncionalidade previa a organização da sociedade medieval em três grandes ordens: os Oratores, Bellatores e Laboratores, dos quais os oratore dedicavam-se ao serviço de Deus; os bellatores garantiam pelas armas a defesa do Estado e os laboratores trabalhavam para sustentar essa organização social. Essa ideia era dita desde os tempos de Santo Agostinho, em seu  tratado “A Cidade de Deus”. A organização social em três ordens, esse número específico, explica-se pelo fato de que a organização do reino de Deus e a santa trindade é o número que melhor representa a perfeição divina.

Os nobres eram detentores do poder laico, assumindo o papel de líderes e administradores dessa sociedade. Era dever da nobreza pegar em armas para proteger a ordem e a justiça na sociedade. Os problemas que poderiam se ocasionar com ela era ameaçar a ordem medieval em busca de benefício próprio, além da violência desmedida, tópico importante que será tratado a posterior.

“Quando os clérigos da Idade Média exprimem a estrutura da sociedade terrena pela imagem dos dois gládios – o do temporal e o do espiritual, o do poder real e o do poder pontifical – não descrevem a sociedade: impõem-lhe uma imagem destinada a separar nitidamente os clérigos dos leigos e a estabelecer entre eles uma hierarquia, pois o gládio espiritual é superior ao gládio material.”

LE GOFF, Jacques. “O Imaginário Medieval”.

O Clero era responsável por realizar a ligação entre Deus e os homens, composto por muitos intelectuais que também rezavam para a salvação de todos e o perdão dos pecadores. Existia o chamado clero secular, com sacerdotes que desenvolvem o contato com os fiéis e vivem em comunhão com os leigos e o clero regular, os quais seguem as regras, hierarquia e títulos de suas próprias ordens religiosas. Entre esses, muitos prefeririam o afastamento da sociedade, onde os monges viviam em reclusão em abadias e monastérios, seguindo os moldes de São Bento, que introduziu a vida no monastério na cristandade ocidental no século VI, dando origem à ordem beneditina e influenciando outras ordens, com a Ordem de Cluny, a Ordem de Císter e as ordens mendicantes, como franciscanos e dominicanos. Não devemos considerar o clero como unificado, apesar de que, no senso comum, de fato, ele era bem fragmentado e com sérias discussões sobre pontos importantes da religiosidade.

Os camponeses eram a maioria da população feudal. Trabalhadores, súditos do reis da nobreza e do clero. Em sua maioria eram agricultores, trabalhadores da terra, que cultivavam o bastante para os seus senhores, os sacerdotes e para si mesmos. Sua função no sistema trifuncional seria então trabalhar e sustentar as outras duas ordens, enquanto eram protegidos pela nobreza e o clero os ligava a Deus, rezando pelo perdão de seus pecados.

Segundo o historiador Hilário Franco Junior, no livro Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa, o esquema tripartido era uma construção ideológica, uma representação mental. Estas três ordens são fruto da ideologia medieval, orientada pelos conceitos de ordem, temperança, hierarquia, concórdia, ternaridade, mutualidade e funcionalidade. Estes conceitos são importantes para compreender o porquê da sociedade se organizar da forma que fez.

A trifuncionalidade foi uma real organização da sociedade medieval durante quase dez séculos. No entanto, seria presunçoso aceitá-la como completa e imutável. Claro que existiram casos de mobilidade de grupos ou até mesmo a aglutinação ou hibridismo de dois grupos distintos. A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou Cavaleiros Templários é um exemplo dessas exceções, como veremos a seguir. Antes, porém, precisamos discutir rapidamente as raízes  ideológicas e sociais da criação dos Templários. Para entender esse ponto, discutiremos a importância do monastério para a sociedade medieval para entendermos o porquê da necessidade da criação desta Ordem.

Além das organizações em bispados e de centralidade da autoridade religiosa na língua do papa, outras formas de vivência da experiência cristã passaram a tornar-se fundamentais. A vida monástica e a construção dos mosteiros foram uma dessas formas de vivência.

Mais que uma simples vida religiosa, a vida monástica identificava-se pela reclusão e ascetismo, isto é, pela opção de uma vida isolada do convívio comum com outras pessoas, que não outros monges e submetida à austeridade e disciplina. A vida nos mosteiros era, além de plenamente dedicada a orações, meditação e disciplina, também marcada pela divisão de tarefas do cotidiano, como o trabalho na lavoura, o trabalho na cozinha, a limpeza das áreas dos mosteiros, etc; além do trabalho intelectual em si, uma vez que há documentos sobre esse tempo que eles mesmos escreveram, copiaram e preservaram.

Um dos grandes responsáveis pela formulação de normas para a vida no mosteiro foi Bento de Núrsia (região Italiana). Seu conjunto de normas ficou conhecido como Regra de São Bento. Nela, São Bento expunha, pormenorizadamente, como deveria ser o comportamento dos monges, o modo certo e as horas certas de rezar, como manusear e guardar os instrumentos usados na lavoura, e tudo o mais que estivesse relacionado ao dia a dia dos mosteiros. O modelo da vida monástica teve grande impacto na Idade Média, sobretudo por apresentar-se como modelo civilizador e moralizador.

Só o movimento monástico seria passível de uma longa discussão para desenvolver tal tema e entendê-lo. Infelizmente, não temos esse tempo hábil, mas não é possível desenvolver o assunto Cavaleiros Templários sem entender que a vida de seu padrinho, Bernardo de Claraval, esteve intrínseca e absolutamente ligada ao movimento monástico, mais especificamente à Ordem de Císter, que surgiu como uma resposta à congregação monástica de Cluny que se mostrava relaxada e entregue à certas regalias econômicas.
A origem da Ordem Cisterciense remete à fundação da Abadia de Císter, em Borgonha, em 1098, por Roberto de Champagne, abade de Molesme. Este, juntamente com alguns companheiros monges, deixara a congregação monástica de Cluny. Existem diversos relatos e documentos históricos que nos contam o porquê do abandono de Cluny, estando no centro das motivações o afastamento da Ordem das Regras de São Bento e, com o corrompimento a partir de sua independência e luxo, deixou de ser vista com bons olhos, o que despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. O que fez Cluny perder sua força, portanto, foi uma crise de valores – uma crise ética: sua expansão e enriquecimento provocou sua decadência moral.

Um dos críticos da Ordem de Cluny foi o próprio Bernardo de Claraval, que escreveu vigorosa e impetuosa resposta a um monge cluniacense e grande amigo seu, Guilherme de Saint Thierry, porque este queixou-se com Bernardo sobre as calúnias que os cistercienses aparentemente faziam com os cluniacenses:

“Como é que eu poderia ouvir em silêncio a tua queixa acerca de mim, pela qual se diz que nós, os mais miseráveis dos homens, andrajosos e mal vestidos, das cavernas, como diz ele, julgamos o mundo e, o que é mais intolerável ainda, criticamos também a tua gloriosíssima Ordem e, sem vergonha, atacamos os santos que nela vivem tão louvavelmente e, da sombra da nossa ignobilidade, insultamos esses luminares do mundo?

Por acaso é possível que nós, não lobos vorazes sob pele de ovelhas, mas pulgas mordazes e mesmo traças destruidoras, uma vez que não o ousamos fazer às claras, destruamos, às ocultas, a vida dos bons e nem sequer lancemos o clamor da invectiva mas o sussurro da detração?

Na realidade, nenhuma ordem aceita algo de desordenado; o que é desordenado não é ordem. Por consequência, não me devem considerar como disputando contra a Ordem mas pela Ordem, se acaso, repreendo não a Ordem nos homens mas os vícios dos homens (…)

Se, de fato, a alguns desagradar, eles mesmos mostram que não amam a Ordem, já que não querem condenar a corrupção, isto é, os vícios. A esses respondo com aquele dito de Gregório: “É melhor que apareça o escândalo que se deixe a verdade”

Possivelmente por ser uma resposta aos deslizes de Cluny, Císter se mostra como uma ordem mais conectada à disciplina, à pobreza voluntária e à contemplação, seguindo com afinco a regra beneditina. De fato, esses traços da Ordem são identificados em Bernardo de Claraval por seus escritos e pelo que se escreveu sobre ele.

Os mosteiros eram supervisionados pelo mosteiro-sede, em Cîteaux, e pelos quatro mosteiros mais antigos da Ordem. Com a apropriação da Carta da Caridade em 1119, surge propriamente a Ordem Cisterciense, sendo assim a primeira ordem religiosa canonicamente instituída da Igreja.

A Ordem terá um papel importante na história religiosa do século XII, vindo a impor-se em todo o Ocidente por sua organização e autoridade. A ordem exerce grande influência no plano intelectual e econômico, assim como as artes e espiritualidade, devendo seu desenvolvimento a Bernardo de Claraval, homem de excepcional carisma. A Ordem Cisterciense passara de sete abadias em 1118 para 328 abadias até 1152. Sua influência e seu prestígio tornaram-no o mais célebre membro cisterciense.

São Bernardo de Claraval foi um monge cisterciense da medievalidade, abade de Claraval, pequena quando ingressou e que cresceu exponencialmente sob seu comando. Nascido em um pequeno vilarejo de Fontaines em 1090, e sendo o terceiro filho de Tesalino, cavaleiro e súdito do conde de Borgonha e Aleta de Montebarto, foi criado para ser cavaleiro, mas em 1111, com vinte e um anos, decidiu adentrar à ordem religiosa de Císter.

São Bernardo de Claraval foi reconhecido por sua contribuição para diversas ciências: História, Filosofia, Teologia, Pedagogia e Linguística, por servir de fonte para a apreensão dos acontecimentos medievais, do pensamento filosófico medieval, de como o homem medieval enxergava a Deus e – principalmente – de como esse homem fez para convencer outros homens a viverem e morrerem por Cristo.

O que se questiona, no entanto, é como um homem inclinado à contemplação religiosa se envolve tanto nos assuntos do século, ainda que veemente baseado na religião. A intromissão de Bernardo na vida laica nos mostra que o abade não se encontrava contemplativo, somente. Pelo contrário: o mesmo participava ativamente de pontos que por vezes não eram de sua alçada, mas por ser um homem religioso respeitável, sempre era ouvido. Por vezes, em relatos de historiadores, encontramos Bernardo de Claraval definido como o homem do século XII.

Ainda que a teoria da trifuncionalidade nos mostre grupos fechados em si, Bernardo de Claraval nos mostra que a sociedade não era tão completamente fechada e imutável, sendo ele mesmo um dos exemplos de exceção da sociedade trifuncional, já que, sendo um homem de fé, pertencente aos oratore, impôs-se ao seu tempo, em diversos pontos, não só o religioso, mas o social e também político.

Um desses inúmeros exemplos de intervenção é justamente o escrito do tratado “Da Excelência da Nova Milícia” escrito entre 1132 e 1136, formado por treze capítulos que abordam, em resumo, a necessidade dos cavaleiros templários, o problema da laicidade da sociedade medieval e da milícia que a protege e a forma que os cavaleiros devem se comportar e o que irão enfrentar. O tratado, por fim, ainda é possível de abordar diversos temas que reafirmam essa intervenção de Bernardo ao mundo laico, como a convocação de uma nova Cruzada, crítica à milícia secular e um pedido de proteção aos judeus.

A Ordem militar dos Templários nasceu na França em 1118. Sua aprovação definitiva pela Santa Sede no concílio de Troyes em 1128 deveu-se em grande parte à influência de Bernardo. Anos mais tarde, entre 1132 e 1136, Bernardo escreveu a Regra dos Cavaleiros Templários. A necessidade desse documento se dá de acordo com o contexto histórico, dada a necessidade de retomar Jerusalém, a terra sagrada e a necessidade também de um exército que não fosse laico, uma vez que acreditava que os cavaleiros e nobres da época eram pecadores.

A Ordem dos Cavaleiros Templários surgiu para cumprir um objetivo fundamental; foi concebida, gerada, equipada e baseada para essa específica função segundo Edward Burman em Templários: Os cavaleiros de Deus: “Os cavaleiros Templários começaram a existir em resposta às exigências dos peregrinos no recém-constituído Reino de Jerusalém”, ou seja, surgiram para proteger Jerusalém e os cristãos da infidelidade, personificada por seus filhos, os muçulmanos.

Para compreendermos a necessidade da retomada dos cristãos sobre Jerusalém, precisamos entender o fenômeno político, social e religioso que foram as Cruzadas. Segundo a professora e doutora Fátima Regina Fernandes Friguetto, no texto “Cruzadas na Idade Média” esses fenômenos foram um movimento gerado no Ocidente que resultou num longo enfrentamento militar, especialmente nas regiões da Síria e Palestina, entre os séculos XI e XIII, e na Península Ibérica, entre os séculos VIII e XV,  e justificavam-se pela necessidade de os cristãos reconquistarem a Terra Santa.

O que provoca São Bernardo, portanto, é a necessidade de proteger a Terra de Cristo desses considerados infiéis, além da percepção que teve da inutilidade da milícia secular, uma vez que esta sempre lutava combates temporários em busca da fama, ou seja, sempre pautados pela soberba e vaidade na visão do monge. Inclusive, esses combates da nobreza eram de intenso perigo para a superioridade da Igreja Católica, pelo risco iminente do uso de violência desmedida. Cristãos matando cristãos, irmãos matando irmãos, filhos de Deus matando filhos de Deus por motivos pífios e chulos no mais das vezes.

O tratado (ou Regra) dos cavaleiros Templários revela um prólogo e treze capítulos. O Prólogo apresenta explicações a Hugo de Payes pela demora de escrita do tratado e a necessidade imperativa desse documento. Os quatro capítulos seguintes versam sobre cavaleiros, como estes deveriam se vestir, portar, cortar seus cabelos e barbas, o que deveriam almejar. Os capítulos seguintes – do quinto ao décimo-terceiro – tratam sobre os lugares pelos quais os cavaleiros iriam passar ao longo da viagem até Jerusalém e, ainda, sobre os acontecimentos miraculosos neles ocorridos à época de Jesus Cristo e dos primeiros cristãos.

“O Tratado é dirigido aos irmãos e no início os adverte de que o Diabo tentará solapar a resolução deles, impugnando seus motivos para matar o inimigo e levar os espólios da guerra, tentando desviá-los do ofício escolhido com a quimera de um bem maior. Ele reconheceria que eles eram uma inovação na vida da Igreja, completamente diferente da maneira habitual da cavalaria.”

READ, Piers Paul. “Os Templários”.

A contribuição de São Bernardo para se entender a Ordem dos Templários é evidente, uma vez que foi ele que a apadrinhou; além de escrever para esses homens regras e ditames, pondo em relevo o caráter religioso, não descuidou do caráter militar, que permaneceu presente.

“Essa aprovação pelo papa Honório II deveu-se em grande parte ao apoio de Bernardo de Clairvaux, o qual ele reforçou, após seu retorno a Clairvaux, escrevendo o tratado De laude novae militae (“Em louvor da nova ordem de cavalaria”)

READ, Piers Paul. “Os Templários”.

O abade apadrinhou a Milícia dos Cavaleiros Templários, criando para esses homens uma regra que, além de ser uma espécie de caminho a ser seguido do qual não se podiam nem deviam desviar, aproximou-os do monastério – em função do contexto das ordens monásticas e da necessidade de um ordenamento, como aquele escrito por São Bento de Núrsia, formando assim, um traço híbrido da sociedade medieval, que não se encaixa nem nos oratores, nem nos bellatore.

Sobre o conjunto de raciocínio do autor, deve-se levar em consideração que, sendo um monge cisterciense do século XII, Bernardo considerou coerente a necessidade de organizar um exército que não fosse maculado pelo pecado, com o propósito de guardar a Terra Santa. O raciocínio do abade consistiu em construir argumentos para compor a base desse exército, sugestões valiosas para lidar com alguns medos, e, ademais, mostrar o tratado conforme a disposição das cidades no mapa do Reino dos Céus, apontando em certa ordem os perigos que homens iriam enfrentar, somando-se a tudo isso, o uso das Escrituras, a fim de compor o painel de uma argumentação que se mostrasse incontestável. Discorrendo sobre o estilo e o método do monge, é evidente que se percebe um estilo formal – religioso em sua maioria – não obstante racional e incisivo.

Obviamente, por ser um clérigo católico e cisterciense do século XII, ele toma o partido da Igreja Católica, defendendo a terra e os pertences de Cristo. Todavia, ao se posicionar contra a milícia secular, Bernardo se mostra mais profundo e complexo, já que ao longo do texto emprega argumentos religiosos, sim, mas também outros fundamentados no seu ser e estar.

O tratado também é repleto de subtemas e subteses e se percebe como é rico, quando se põe em análise a complexidade do pensamento de Bernardo, um homem medieval e religioso, mas que explicita também: como ele se enxerga –  sendo monge e não podendo ajudar com armas; como vê sua ajuda com a pena, a caneta (já que não pode com a espada); como ele considera a humildade; como enxerga os muçulmanos e judeus; como enxerga a morte; como ele retrata o pecado e como vê os lugares sagrados de Jerusalém.

Houve questões importantes que basearam a necessidade da criação desse grupo social híbrido, indo de encontro com toda a organização da sociedade trifuncional medieval. Uma delas é a crise religiosa do século XII.

“O aumento da população, o crescimento das cidades, o número crescente de ofícios especializados, nomeadamente artesãos, advogados e, em especial, mercadores, a substituição de grupos compactos ligados por parentesco por grupos maiores e mais fluidos, a diminuição da importância de rituais como o Juízo de Deus, que pendia mais para a superstição profana do que para o sobrenatural sagrado, e a mudança crucial da aceitação por consumo para um reconhecimento de uma obediência à autoridade, tudo isso desempenhou a sua parte na formulação da crise religiosa”.

BOLTON, Brenda. “A Reforma da Idade Média”.

De fato, os fatores que contribuíram para o fenômeno conhecido como o Renascimento do século XII estão interligados fortemente ao progresso demográfico e suas consequências. Com as transformações religiosas, não foi diferente. Um senso comum que é importante desconstruirmos é a afirmação de que a Igreja Católica dominou o período medieval. A Igreja teve, obviamente, um importante peso ao longo desse tempo, no entanto, o catolicismo ainda não tinha definido plenamente sua dogmática.

A resposta para a crise supra consistia em um retorno à ecclesia primitiva, à Igreja dos primeiros tempos, conforme haviam preconizado os apóstolos. Porém, temos a noção das diferenças entre tal Igreja Primitiva e a enormidade da Igreja Medieval, que buscava reforçar sua unidade para não se romper em menores núcleos espirituais ou teológicos. Na busca de uma verdade teológica universal indiscutível, a Igreja teve necessidade de se reinventar e se atualizar.

O ponto principal para analisarmos a crise religiosa do século XII é o fato de que a população mudou, principalmente em função de sua maximização demográfica, um intenso crescimento das cidades e o fim da idealização do retorno de Cristo no ano 1000. As mudanças temporais foram o motor das mudanças religiosas, uma vez que elas tiveram como consequência a exigência de um novo protocolo de respostas e soluções, por conta do advento de perguntas outras.

O principal perigo dessas mudanças da sociedade medieval para  a Igreja Católica era o risco de laicização, ou seja, subtrair à influência religiosa a sociedade medieval. Não questionamos a força e o poder que a Igreja tinha nessa época, questionamos a noção unânime imutável que ela possui segundo a historiografia.

“Aparecimento de um novo estado de espírito entre os homens da Igreja, dos quais alguns acabaram considerando que o uso da força era justificável quando fosse utilizado para fins benéficos para a sociedade cristã e sua direção”

VAUCHEZ, Andre. “A Espiritualidade na Idade Média Ocidental”.

A justificativa da necessidade de os cristãos reconquistarem a Terra Santa, fundamentou o uso da violência contra os muçulmanos pela Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Bernardo de Claraval ao redigir o tratado-regra da Ordem, deu-lhes a licença para lutar por um propósito espiritual e não mais século-temporal. E o hibridismo social da Ordem também se justifica por conta desse objetivo.

Ao compreendermos a trifuncionalidade da sociedade medieval, entendemos que os grupos sociais existiam e eram importantes para a organização do medievo europeu, mas de fato notamos que ela não era tão fechada assim: um monge pertencente à Ordem Regular, a quem caberia seguir-se enclausurado, impôs-se ao mundo laico, tendo a liberdade de criar um estrato da sociedade que nem era monástico, nem militar, mas híbrido, em uma tentativa de desafogar seu tempo da violência desmedida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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LE GOFF, Jacques. O Imaginário Medieval. São Paulo: Estampa, 1985.

OBRAS COMPLETAS DE SAN BERNARDO. Biblioteca de autores cristianos (BAC). Madrid, MCMXCIII.

PARKES, Malcom. “Ler, escrever, interpretar o texto: práticas monásticas na Alta Idade Média”. In: CAVALLO, Guglielmo e

READ, Piers Paul. Os Templários. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental: séculos VIII e XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994; 198 p. Tradução: Lucy Magalhães.

SANTOS, Pe. Luis Alberto Ruas, O. Cist. Um monge que se impôs a seu tempo. Pequena introdução como antologia à vida e obra de São Bernardo de Claraval. São Paulo: Musa Editora / Rio de Janeiro: Edições Lumen Christi do Mosteiro de São Bento, 2001.

Apresentação em slides: Cavaleiros Templários Hibridismo social em meio a sociedade medieval Trifuncional