As interpretações da imagem de Joana D’arc

Jonabelle de Andrade

 

Introdução

O objetivo deste trabalho é a analisar a imagem de Joana D’arc a partir do esquecimento após sua morte. Assim, buscamos compreender o porquê dessa figura tão importante na história ter sido completamente esquecida e depois redescoberta, se tornando um símbolo de heroísmo nacional da França e de exaltação por diversos autores no início da modernidade. Desse modo, utilizaremos dois autores que retomam a figura de Joana D’arc: o primeiro é Jean Chapelain, que traz a imagem de Joana D’arc na história e literatura, e o segundo é Voltaire, que escreve um poema heróico-cômico.

A metodologia utilizada neste trabalho está baseada nas leituras bibliográficas e na análise comparativa das obras de Voltaire e Chapelain. Observando a trajetória de vida de Joana D’arc, de camponesa a guerreira, de guerreira a herege e de herege a heroína/santa. Assim, para a compreensão das representações da figura de Joana, utilizaremos como recurso didático as cartas de yu-gi-oh (jogo de mangá), onde cada carta seria uma representação da vida de Joana. Com isso, analisaremos cada uma das cartas, desse modo, buscando propor uma discussão sobre a imagem de Joana D’arc dentro da sala de aula.

De Camponesa a Guerreira

Foi na França, no ano de 1412, em uma aldeia chamada Domrémy, situada às margens do Rio Meuse e próximo da cidade Lorena, onde ocorreu o nascimento de uma menina que se chamava Joana D’arc. Ela pertencia a uma família de camponeses e era a quarta filha; seu pai pertencia à classe dos camponeses ricos e sua mãe era muito religiosa e membra ativa na paróquia que frequentava. De acordo com Beuane, os pais de Joana eram bons lavradores, viviam bem, mas não eram ricos (BEUANE, 2006Foi na França, no ano de 1412, em uma aldeia chamada Domrémy, situada às margens do Rio Meuse e próximo da cidade Lorena, onde ocorreu o nascimento de uma menina que se chamava Joana D’arc. Ela pertencia a uma família de camponeses e era a quarta filha; seu pai pertencia à classe dos camponeses ricos e sua mãe era muito religiosa e membra ativa na paróquia que frequentava. De acordo com Beuane, os pais de Joana eram bons lavradores, viviam bem, mas não eram ricos (BEUANE, 2006, p.42). Segundo Nunes, tanto Beuane
como Duby reforçam a ideia que Joana não era uma pobre camponesa; este conceito vai surgir depois, junto ao contexto do processo inquisitorial (NUNES, 2015, p.22)., p.42). Segundo Nunes, tanto Beuane como Duby reforçam a ideia que Joana não era uma pobre camponesa; este conceito vai surgir depois, junto ao contexto do processo inquisitorial (NUNES, 2015, p.22).

De acordo com o autor Duby, Joana era uma pastorinha e adquiriu seus conhecimentos religiosos através de sua mãe, do pároco e irmãos Mendicantes. Para autor, Joana era piedosa de uma devoção incomum e acreditava no sobrenatural. Ela era muito devota ao Arcanjo Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida, por exemplo (DUBY, 1992, pp.271-271).

A historiadora Régine Pernoud, em seu livro que trata sobre a biografia de Joana D’arc, apresenta a pastorinha como uma moça comum da sua época, que se ocupava com os afazeres da casa, cuidava do rebanho de seu pai, mas que gostava de ir à igreja e frequentar os lugares sagrados (PERNOUD, 1996, pp. 12-13). Desse modo, percebemos que Joana tinha um relacionamento com o poder divino e gostava de admirar a forças da natureza, tendo assim forte ligação com o mundo espiritual. Com isso, podemos deduzir que Joana D’arc teve uma educação voltada aos bons costumes e às práticas religiosas da sua época. Dessa maneira, o cotidiano de Joana foi se adequando em torno dos princípios da fé cristã, como por exemplo ir à igreja, confessar-se, comungar, entre outras práticas típicas do catolicismo (NUNES, 2015, p.22).
Quando Joana atingiu por volta de treze anos de idade, seu misticismo se manifestou pela primeira vez. De acordo com Pernoud, a primeira visão que Joana teve ocorreu entre o ano de 1424 ou 1425. A autora trata que Joana em primeiro momento teve medo de falar sobre sua missão, assim mantendo-a em segredo até o ano de 1428, e quando não consegue mais esconder o contato com o poder místico e logo ouvir a “voz” novamente, fez uma promessa com Deus em manter sua virgindade (PERNOUD, 1996, pp.22-23).

Estas vozes se identificaram como São Miguel Arcanjo, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia, sendo considerados porta-vozes de Deus, em que estavam encarregados de apresentar a missão que Deus tinha escolhido para Joana D’arc. É nesse momento que a vida da Donzela passa por uma mudança histórica dentro do cenário da França. A missão que foi apresentada a Joana D’arc era recuperar a França dos ingleses, tomar as cidades que foram invadidas e por fim consagrar o delfim Carlos VII. É importante notar que o cenário onde a donzela cresceu e viveu estava cercado pelas sangrentas batalhas; onde a França estava sendo marcada por um dos momentos mais frágeis toda a grande violência da Guerra dos Cem Anos. A região nesse momento estava com grande parte do seu território com invasores ingleses e as forças inglesas estava cada vez mais avançando dentro dos territórios franceses.

Atuação na Guerra dos Cem Anos

No momento em que Joana D’arc entendeu a mensagem e o propósito que Deus tinha com ela, partiu em busca de realizar essa missão divina que era ir de encontro do capitão Robert de Baudricourt em Vaucouleurs, um fiel defensor da França e do delfim Carlos VII e que era responsável pela fortaleza de Vaucouleurs. Para isso, ela contou com ajuda de seu primo Durand Laxart, que morava em Burey-le-petit, uma aldeia próxima à cidade fortaleza, para ir de encontro com Baudricourt. Após chegar na cidade, suas primeiras tentativa de convencer capitão Baudricourt sobre a missão não obtiveram sucesso. Foi na terceira tentativa que o capitão Baudricourt aceitou ouvir sobre esta missão que Joana estava disposta a tratar. Em torno da fala da jovem existia uma profecia “segundo a qual a França estaria perdida por uma mulher e seria restaurada por uma virgem lá das bandas de Lorraine” (PERNOUD, 2009, p. 27).

Desta forma, Joana parte em busca de recuperar a França, e para isso contou ajuda de disfarces para seguir a viagem, utilizando roupas masculinas e os seus cabelos curtos. De acordo com Pernoud, foram onze dias de viagem e cerca de 600 quilômetros para enfim chegar em Chinon, lugar que se encontrava o delfim Carlos VII (PERNOUD, 2009, p.40). A chegada de Joana a Chinon juntamente com um grupo de escolta de Baudricourt estava prestes a anunciar a missão para delfim Carlos VII, o qual já estava ciente de sua vinda a Chinon (NUNES, 2015, p.25), e nesse contexto Joana não teve dificuldades para se encontrar com delfim, pois este acreditava também na lenda em torno da virgem que salvaria o povo francês.

Contudo, a profecia não confirmava que Joana era a escolhida e enviada por Deus, de modo que ela deveria mostrar um gesto que lhe atribuísse a verdade em torno da profecia. Desse modo, com a chegada de Joana a Chinon, ela passa por provas para tornar-se líder na guerra. Em vista disso, Joana foi levada ao um conselho real para ser interrogada, no qual os primeiros indícios estavam sendo favoráveis. Dessa maneira, o rei mandou Joana para Poitiers para mais exames e interrogatório. Lá, investigaram a vida de Joana e seus hábitos, constataram que ela era uma boa cristã, que vivia como católica e nunca tinha se entregado à ociosidade (DUBY, 1992, pp.272-273). Os pareceres do arcebispos concluíram que não havia nela nada de contrário da fé, e com isso Joana D’arc obteve a permissão de delfim Carlos VII de assumir como comandante das batalhas liderando trezentos cavaleiros que partiram para recuperar a cidade de Orléans, que estava tomada pelos invasores ingleses (BEAUNE, 2006, pp.82-83).

A donzela, ao se equipar para seguir viagem para Orléans, pediu para que buscassem uma espada na cidade de Fierbois no santuário de Santa Catarina. A espada seria a garantia da vitória sobre os ingleses. De acordo com Nunes, a preparação de Joana antes das batalhas exigia uma preocupação com a moral e a fé, como por exemplo, exigia que os soldados se confessassem, comungassem e participassem das missas. Desse modo, o rei delfim Carlos VII mandou padres para acompanhar a viagem, assim garantindo que as exigências fossem cumpridas (NUNES, 2015, p.28).

Antes de declarar batalha contra os ingleses, Joana tentou negociar enviando-lhes cartas para que o exército fosse retirado e não houvesse derramamento de sangue, porém os ingleses recusaram, pois acreditavam que poderiam vencer um exército que estava sendo liderado por uma jovem. Neste cenário, os ingleses mantiveram resistência e o conflito foi travado. A França obteve a vitória sobre os ingleses e entre outras batalhas foram vencidas, como a tomada de Jorgeau e a de Patay(NUNES, 2015, pp.29-30).

Com a volta de Joana para Paris, foi realizada a coroação de Carlos VII, que ocorreu no ano de 1429, sendo ele consagrado como rei. Com isso, a missão de Joana D’arc ainda não tinha acabado, pois ainda restava tomar Paris e libertar o duque de Orléans. Nesse contexto, a cidade de Paris estava tomada pelos borgonheses, todavia, a tentativa de Joana com seu exército em recuperar Paris foi um fracasso e a Donzela foi feita prisioneira (DUBY, 1992, p. 275).

De Herege ao esquecimento

Após a prisão de Joana D’arc, os arcebispos e os políticos que cercavam o rei Carlos VII propagaram a dúvida em torno da índole cristã da Donzela. De acordo com Duby, a prisão de Joana gerou conflitos dentro da sociedade francesa, pois os pregadores dominicanos não perdoaram em denunciar a Donzela como uma mulher cruel e que exibia-se com roupas de homens em meio de guerreiros. Após dois dias da prisão de Joana, a Universidade de Paris se manifestou solicitando que a jovem fosse apresentada ao  processo inquisitorial para ser julgada com o crime de heresia. Além dos franceses acusarem Joana, os ingleses também a queriam e conseguiram torná-la prisioneira. Dessa maneira, Joana torna-se prisioneira no castelo de Rouen. A intenção dos ingleses era em matá-la, mas não o fariam antes de provar que Joana estava sendo possuída pelos demônios e que o demônio tinha se apresentado como as vozes que ela escutava. Eles afirmavam ainda que todas as ações da Donzela foram obras diabólicas e tinha enfeitiçado delfim Carlos VII para que acreditassem na em suas palavras (DUBY, 1992, p. 275). Joana D’arc passa por um processo de julgamento eclesiástico, onde a Donzela enfrentou com bravura os acusadores. A função desse tribunal era fazer com que o acusado reconhecesse seus erros perante a Igreja e contasse a extrema verdade, assim possuindo como característica a confissão do réu (NUNES, 2015, p.35). No caso de Joana, chegou ao um ponto que a jovem já estava esgotada, mas ela não cedeu.

No entanto, o tribunal eclesiástico considerou a Donzela como culpada, sendo ela excomungada, afasta da comunidade cristã e entregue à justiça secular, a qual condenou a Donzela a morte na fogueira. Joana D’arc foi queimada no dia 30 de maio de 1431, na Praça do Vieux-Marché em Rouen, sendo exposta para a população (DUBY, 1992, p. 276).

Do esquecimento à redescoberta da figura heróica

O processo de condenação da Donzela foi considerado inválido pelo Papa Calisto III, no ano de 1456, e a figura de Joana D’arc volta a ser discutida pelos intelectuais da modernidade. Um exemplo desses intelectuais é o Jules Michelet, que escreveu uma obra dedicada à história da vida de Joana D’arc; entretanto, a obra trata a história de forma literária. De acordo com Amaral, as obras que narram os acontecimentos da vida de Joana D’arc estão ligados à história nacional francesa, e os autores que retomam sobre a figura da Donzela utilizam um entusiasmo em sua escrita (AMARAL, 2011, pp.01-03).

Neste trabalho, como já foi comentado, vamos discutir em torno de duas obras que tratam a figura de Joana de formas diferentes. O primeiro autor é Jean Chapelain, que trata a figura de Joana através da literatura e história, e o segundo autor é Voltaire, que analisa o mito que está em volta da figura de Joana. Ambos autores destacam a importância do sobrenatural na vida da personagem.

De acordo com Eleuthério, a história de Joana reúne fábula (mito) e história. Por isso, Chapelain e Voltaire exploram o sobrenatural em torno da figura, no entanto, quando observamos o século XVIII a imagem de eclesiástica de Joana foi satirizada. Desse modo, analisamos que Joana foi vítima de seu tempo; Eleuthério declara que ela foi vítima da intolerância religiosa em uma época não esclarecida. Cabe a nós responder: a figura de Joana se torna heroína a partir do momento em que a sua memória torna-se viva no imaginário? A partir deste contexto, podemos refletir sobre as questões abordadas nos poemas dos seguintes autores.

Jean Chapelain (1595-1674) era um crítico literário, um dos membros fundadores da Academia Francesa e poeta da corte de Luís XIII a Luís XIV. Sua obra que leva o nome “ La Pucelle ou La France Delivrée” é um poema que é considerado uma das tentativas de uma representação de Joana D’arc na literatura. De acordo com Eleuthério, a obra de Chapelain foi elaborada durante trinta anos, sendo sua publicação dividida em dois momentos: a primeira parte do poema foi escrito em 1625, e no ano seguinte publicada com doze cantos. Contudo, a obra é composta por vinte e quatro cantos, cujos outros doze cantos restantes foram terminados anos mais tarde, em 1670, porém não foram publicados. A primeira parte do poema foi considerada um fracasso e houve muita crítica em torno dele. Por isso, a segunda parte foi publicada depois de muitos anos; somente em 1882 a obra foi publicada por completo. O autor tentou criar em torno da figura de Joana um símbolo eterno da glória nacional. Entretanto, sua obra não foi muito bem vista no momento que foi escrita, mudando esta situação apenas quando sua versão completa foi publicada e em outro momento, na modernidade, ela tornou-se um símbolo de sucesso, onde Voltaire quis ultrapassar esse sucesso.

Voltaire, na obra “ La Pucelle d’ Orléans ”, questiona a relação de Joana com o sobrenatural. O autor não está interessado nos grandes feitos heróicos em que Joana atuou, mas sim na relação da figura e seu espiritual. Assim como a obra de Chapelain, a obra de Voltaire é composta por vinte e um cantos. De acordo com Eleuthério, a obra possui um teor satírico constante presente, sendo épica e cômica. (Eleuthério, 2012, p.142). De acordo com Almeida, na obra de Voltaire só encontramos um verso e meio à glória de Joana D’arc, mas dedicou mais de 20 mil versos para desmoralizá-la em La Pucelle d’Orléans .

A obra de Voltaire consiste de um poema heróico-cômico, composto por vinte e um versos escrito em 1755. A obra em si narra a história da conquista da cidade de Orléans pelo delfim Carlos, mas a história se mistura com vários acontecimentos gerando o surgimento de personagens fictícios. Desse modo, cada personagem tem sua história na obra, assim sendo Joana D’arc apenas mais uma entre eles (ALMEIDA, 2011, pp.57-60). Segundo Eleuthério, diferentemente da obra de Chapelain, que possui apenas quatro edições, a obra de Voltaire foi um dos textos mais lidos, possuindo 135 edições, autorizadas ou ilícitas, durante os anos de 1755 e 1860. Posteriormente, assim que foi reconhecida como obra oficial de Voltaire, a obra foi condenada pela Igreja Católica Romana, passando ao Index Librorum Prohibitorum .

É possível notar que os autores escreveram suas obras em contextos diferentes. Primeiramente, Chapelain, ao escrever “La Pucelle ou La France Délivrée”, nos traz a imagem de Joana D’arc como um símbolo eterno de heroína nacional, ou seja, a obra em si é uma das representações do heroísmo de Joana, possuindo o sentimento de prestígio do brasão francês. Em comparação, a obra “La Pucelle d’Orléans” de Voltaire aborda a imagem de Joana como uma mera personagem que compõe o poema, não sendo a figura principal como na obra de Chapelain.

Podemos analisar um outro aspecto: a obra de Chapelain em primeiro momento não ganha grande destaque, porém, posteriormente ela vai ser bem sucedida e permanecer como sendo um dos principais obras que tratam sobre Joana D’arc. Em vista disso, Voltaire critica a obra de Chapelain, na tentativa de superá-la e assim permanecer na memória da cultura francesa. A crítica de Voltaire está configurada na crítica das lendas que constituíram raízes na intolerância na história da França. De acordo com Eleuthério, Voltaire tenta ridicularizar o ar hagiográfico de Joana, sendo diferente das demais obras que são escritas sobre a Joana, obras que tentam escrever sobre o heroísmo da Donzela (Eleuthério, 2012, p.141).

Chapelain era um crítico literário e sua obra está cheia de exaltação em torno da atuação de Joana como heroína francesa, enquanto Voltaire, um filósofo iluminista, buscava a razão em torno da história de Joana, escrevendo sobre o poder místico ao mesmo tempo em que utilizava Joana em sua obra como uma personagem de ficção. O autor deixa  de lado a atuação da personagem e seus feitos na história para tratar a relação do poder sobrenatural e como Joana lidou com isso. Observamos que a obra de Voltaire não é totalmente dedicada a Joana D’arc, enquanto a obra de Chapelain é totalmente voltada para a figura da Donzela.

Yu-gi-oh: o que tem a ver?

Para compor nossa análise em torno da representações da imagens de Joana D’arc, utilizaremos as cartas de Yu-gi-oh. Delas é possível encontrar as fases da vida de Joana, desde da sua representação como cavaleira até sua canonização. O total de cartas que podemos encontrar na coleção do jogo Yu-gi-oh são oito que tratam sobre a figura da Donzela. Desse modo, para ilustrar as fases da vida de Joana D’arc, analisaremos cinco cartas para compor nossa análise.

Primeiramente, vamos tratar sobre duas cartas: A Donzela do Perdão e a Senhora Obscura Maria . Essas duas cartas representam dois lados da vida de Joana D’arc, o bem e o mal. A Donzela do Perdão é caracterizada como lado do bem, relacionado com o divino/sagrado. Podemos interpretá-la como sendo a imagem que Joana tinha com o poder divino, até mesmo quando analisamos a imagem podemos notar essa relação. Observando essa carta, percebemos a tonalidades das cores no dourado e branco, a personagem ao centro possuindo um manto ao seu redor, uma imagem tipicamente semelhante a imagens dos santos. Já a Senhora Obscura Maria é caracteriza como sendo lado do mal, relacionado com o pacto com o diabo, feitiçaria, entre outros. Diferentemente da carta da Donzela do Perdão , a Senhora Obscura Maria é possível notar as cores em tons escuros, a posição que a personagem está sentada e com uma risada sarcástica, essas características relacionadas o mundo diabólico. Entretanto, a fusão dessas duas cartas resultam na carta St. Joan , que pode ser a representação de como Joana D’arc via o mundo. Há, assim, duas concepções da Donzela: a primeira como alguém abençoado pelo mundo divino, e o segundo como alguém que possuía pacto com o diabo, sendo considerada como feiticeira.

Ao analisarmos a carta St. Joan , podemos notar a imagem de Joana quando se torna Comandante Militar, usando trajes de guerreira e com sua espada que daria a vitória sobre os ingleses. Desse ponto, podemos notar as tonalidades das cores em torno da imagem de Joana que nos traz grandes interpretações. Observando os tons que estão em verde e com uma iluminação, nos traz a interpretação do símbolo da cruz sagrada, identificando o bem em torno da personagem. Jás as cores em roxo e preto que estão nos cantos da carta, seriam o mal tentando intervir na vida de Joana, travando uma batalha entre o bem e o mal em sua vida. E ao centro vemos a imagem de Joana como símbolo da fusão das cartas Donzela do Perdão e Senhora Obscura Maria , sobre a qual podemos concluir a interpretação que temos sobre a carta St. Joan é do bem vencendo o mal. Notamos isso através da cruz sagrada iluminando Joana e trazendo a vitória sobre o mal.

As próximas cartas analisadas são duas representações de Joana D’arc enquanto estava lutando na guerra. A carta Nobre Cavaleira Joana é a representação de Joana sendo uma jovem guerreira que manteve seu voto com o sagrado, que seria não perder sua virgindade. Nessa carta observamos as cores ao redor da personagem, como se colocassem Joana em torno de uma proteção, sendo identificada com um contorno dourado em volta da personagem central. Outro aspecto importante essa carta são os tons em verdes, como se estivesse atrelado com as energias divinas.

Já a carta D⁄D⁄D, O Rei Oráculo , é a representação do sobrenatural que Joana D’arc possuía. Desse modo, identificamos que seriam as visões e o misticismo de Joana, a qual a ajudou a vencer na guerra. Diferentemente da carta Nobre Cavaleira Joana , as tonalidades das cores são em tons mais escuros, mudando do azul para preto ou do preto para o azul. A personagem nesta carta está ao centro possuindo em suas mãos uma espada. A carta Joana, O Anjo da Guarda representa quando Joana obteve sua canonização e tornando Santa Joana D’arc. Ao analisar essa carta temos a interpretação de Joana como uma anjo, possuindo asas, possuindo trajes em tons de branco e dourado e um manto em dourado. A tonalidade da cor branco azulado em volta da personagem, podemos interpretar como uma figura subindo ao céu. Um aspecto importante destacar que essas tonalidades de cores em branco com dourado nos lembram muito as imagens de santos que
estão representados pelo Cristianismo.

Analisaremos mais a fundo a próxima carta Para nossos sonhos . Essa carta tem a representação de Joana D’arc guiando seu povo para a salvação. Contudo, podemos afirmar que a criação dessa carta foi inspirada na pintura de Eugène Delacroix, com a obra A Liberdade guiando o povo (1831). Primeiramente, ao observamos tanto a carta quanto a pintura é possível notar suas semelhanças e diferenças.

Observamos que tanto na carta como na pintura, os cenários são muito semelhantes. Ambas as personagens estão centralizadas e com a posição da mão direita levantada, e é possível notar a fumaça atrás delas. Além desses aspectos temos também os demais personagens que estão compondo o cenário; por exemplo, os três que estão atrás das figuras centrais, os corpos entrando em decomposição ao chão e até mesmo as construções ao fundo.

Outro aspecto importante são as tonalidades, ambas possuem tons escuros, como o marrom. Entretanto, a pintura possui o céu em tons em azul e branco, associando as cores da bandeira francesa. Já na carta o céu possui tons em marrom, desse modo, é possível interpretar que Joana D’arc estaria recebendo ajuda do divino para libertar seu povo do mal que estava próximo. Podemos observar esse mal através das criaturas que estão voando aos céus, simbolizando um poder místico que Joana possuía.

De acordo com Marina Franconeti, no blog Artrianon, a obra A Liberdade guiando o povo de Eugène Delacroix, pode ser considerada como ícone e possui uma grandiosa significação ao heroísmo entre o marrom do campo de batalha e a imponente bandeira francesa, ilustrando capas de obras do século XIX. Dessa maneira, podemos comparar que a carta tem a mesma ideologia da pintura, ou seja, tratar sobre o heroísmo dentro do campo de batalha. No caso da carta, aborda o heroísmo de Joana em meio da Guerra dos Cem Anos, mostrando que Joana recebia ajuda do poder divino para salvar seu povo.

Joana D’arc um debate em sala de aula

Até agora compreendemos sobre as fases da vida de Joana D’arc, entendemos como ela foi esquecida e como houve sua redescoberta no contexto histórico; e como sua imagem foi representada pelos intelectuais na modernidade. Para compor esse debate trouxemos as cartas de Yu-gi-oh que nos apresentam as imagens de Joana em suas fases. A partir dessas questões trazidas neste trabalho, podemos aplicá-las em sala de aula. Essa discussão pode ser dividida em duas aulas, ou seja, na primeira aula pode ser abordada a trajetória de vida de Joana D’arc e o contexto histórico; e na segunda aula, expor a comparação dos poemas de Chapelain e Voltaire, finalizando com a análise das cartas do Yu-gi-oh.

Em um primeiro momento, podemos trazer ao imaginário dos alunos questionamentos de quem foi Joana D’arc e a partir disso expor as ideias trazidas neste trabalho sobre a vida da Donzela, sua atuação da Guerra dos Cem Anos, etc. Feito isso, pedir aos alunos que busquem características em torno da imagem de Joana D’arc que marcam sua trajetória.

Em um segundo momento, é possível também analisar com os alunos sobre o heroísmo que está em torno da figura da Donzela, trazendo questões como: por que a figura de Joana foi somente considerada como heroína após sua morte? Por que autores da modernidade retomam e escrevem sobre Joana D’arc? Desse modo, utilizando como exemplo os poemas de Chapelain e de Voltaire, é possível mostrar que apesar da redescoberta e que a maioria dos autores propõem a escrever sobre o heroísmo de Joana, o caso de Voltaire foi diferente, pois ele não escreveu sobre o heroísmo e sim sobre o poder místico. Assim, já foi possível construir uma base teórica e histórica para os alunos compreenderem a figura de Joana D’arc.

A seguir, para ilustrar todo esse conhecimento adquirido sobre Joana D’arc podemos partir para a análise das cartas, gerando um debate como atividade em sala de aula. Assim, apresentando que até mesmo hoje a figura de Joana D’arc é retomada; ou seja, as cartas do Yu-gi-oh vão aproximar o conteúdo estudado com a realidade dos alunos, como por exemplo, essa cultura pop e cosplay que estão presentes na vida de muitos alunos. Dessa maneira, ao expor as cartas aos alunos, é possível utilizar as imagens para compor um debate, ou seja, buscar elementos que caracterizam a imagem de Joana em cada carta, a posição da personagem, as tonalidades das cores, a apresentação delas, a fim de relacionar o que cada carta aborda com o contexto que Joana estava vivendo, entre outros elementos que podem ser levantados em sala.

Considerações Finais

É importante destacar que a maioria dos historiadores, ao escrever sobre a vida de Joana, parte do momento em que a jovem vai ao encontro de Delfim Carlos, não dando importância sobre a vida antes dela torna-se guerreira. Neste trabalho, tivemos a oportunidade de entender a vida de antes de torna-se guerreira, a sua atuação na guerra e seu processo de condenação.

Entretanto, o foco deste trabalho era analisar a imagens que foram construídas após a morte da Donzela. Desse modo, partimos da análise comparativa dos poemas dos autores Chapelain e Voltaire, buscando destacar que mesmo depois da redescoberta da figura de Joana, nem todos os autores da modernidade estão escrevendo em torno da imagem da Donzela como uma heroína do brasão francês como, por exemplo, Voltaire que vem tratar sobre o poder místico.

E para ilustrar a imagem de Joana D’arc utilizamos as cartas de Yu-gi-oh; para compreender as fases da vida da Donzela. Dessa forma, analisando as características sobre Joana que cada carta nos apresenta, buscando elementos que compõem as cartas, como as tonalidades das cores, as vestimentas, as características de Joana apresentadas, entre outros. E outro aspecto importante nesse trabalho foi a análise comparativa da pintura de Eugène Delacroix: A Liberdade guiando o povo (1831) e a carta do Yu-gi-oh Para nossos sonhos, em que fica claro que a carta foi inspirada na pintura, porém, a carta apresenta elementos que compõem o mundo em que Joana vivia, entrelaçando o poder místico em meio da batalha.

E por fim, foi proposto aos professores um debate com seus alunos sobre a figura de Joana D’arc, porém distinta da que estamos acostumados a ouvir: que a Donzela foi uma feiticeira por isso condenada à morte; tal concepção está no imaginário de muitos alunos, pois nunca tiveram o interesse em estudar sobre Joana ou podem até mesmo estar reproduzindo um conhecimento que lhe foi transmitido de maneira errônea.

Fontes:

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Referências Bibliográficas :

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NUNES, Wanessa Lopes. Processo Inquisitorial de Joana D’arc: Conflitos Políticos e Religiosos. Brasília: União Pioneira de Integração Social (Trabalho de Conclusão de Curso); 2015.
PERNOUD, Régine. Joana D’arc: a mulher forte. Tradução Jairo Veloso Vargas. São Paulo: Paulinas, 1996.
Blog Artrianon: Acessado em 10 de junho de 2018. Disponível em: <https://artrianon.com/2016/09/20/obra-de-arte-da-semana-o-heroismo-de-a-liberdade-guian
do-o-povo/>

Links das cartas de Yu-gi-oh:

http://yugioh.wikia.com/wiki/The_Forgiving_Maiden
http://yugioh.wikia.com/wiki/Darklord_Marie
http://yugioh.wikia.com/wiki/St._Joan
http://yugioh.wikia.com/wiki/Noble_Knight_Joan
http://yugioh.wikia.com/wiki/D/D/D_Oracle_King_d%27Arc
http://yugioh.wikia.com/wiki/Guardian_Angel_Joan
http://yugioh.wikia.com/wiki/For_Our_Dreams
http://yugioh.wikia.com/wiki/Shining_Rebirth

Sugestões de Filme:

– Joana D’Arc, de Victor Fleming (1948);
– O Processo de Joana D’Arc, de Robert Bresson (1963);
– Santa Joana D’arc, de Luc Besson (1999)

 

Apresentação em slides: As interpretações da imagem de Joana Darc