Al-Qahirah: O Cairo

Ingrid Requi Jakubiak

 

A cidade do Cairo é hoje um destino turístico muito procurado por aproximar as pessoas das Grandes Pirâmides de Gizé, na cidade que leva o mesmo nome do complexo. Nosso imaginário do Egito remete muito aos tempos antigos, porém, é como se ele morresse na história a partir do momento em que a Dinastia Ptolomaica desaparece. No entanto, a capital egípcia hoje é um dos mais importantes centros políticos, culturais e intelectuais do Mundo Islâmico, e pouco se fala sobre como isso veio a acontecer. Nesta breve discussão, pretendemos abordar um pouco da chegada do Islã ao Egito, a construção de um novo centro de poder que viria a se tornar o Cairo e observar a importância que a cidade tomou algo longo do tempo até sua configuração medieval final no século XIV.

A propagação do Islã para além da Arábia teve início pouco depois da morte do Profeta. O primeiro califa, Abu Bakr, consolidou o Islã em terras árabes, mas governou por apenas dois anos, sendo sucedido por Omar. Foi este que iniciou a expansão, avançando sobre vastos territórios. Até sua morte em 644, haviam sido conquistadas a Síria, a Mesopotâmia, parte da Pérsia e o Egito. Hoje, temos um estereótipo de um Islã violento que impõe a conversão ou condena à morte, destrói as construções de outras confissões religiosas e busca expansão ilimitada. No entanto, esta é uma imagem construída especialmente após o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 e que muitas vezes acaba sendo reforçada por grupos terroristas como o autodenominado Estado Islâmico. A maior parte da história do Islã passa bem longe disso. Apesar do que esta imagem recente pode nos levar a pensar, as expedições realizadas por Omar não tinham como objetivo converter as populações conquistadas. Para Karen Armstrong, por exemplo, o objetivo do califa seria puramente pragmático: realizar butins e possuir uma atividade comum que mantivesse a unidade da ummah, a comunidade muçulmana. Já para Mohammed El Fasi e Ivan Hrbek, a conversão dos povos locais era menos importante do que estabelecer ali a ordem social e política do Islã e que o culto muçulmano fosse religião pública, ou seja, o que importava era a garantia de que todos estivessem cumprindo a sharī’a, a lei de Deus.

Mapa da expansão islâmica até 732. Disponível em: < http://professormksf7ano.blogspot.com/2014/03/maome-expansao-islamica.html> Acesso em 08 de junho de 2018.

Outro fator que é bastante importante é o fato de que a maioria das regiões conquistadas neste período professavam as chamadas Religiões do Livro, que seriam versões anteriores do Islã transmitidas por Deus por meio de outros profetas – Abraão, Moisés e Jesus – mas que os seres humanos haviam desviado da mensagem original. Em outras palavras, tanto os judeus quanto os cristãos eram considerados, de certa forma, fieis, ainda que incompletos. A única coisa que eles deveriam fazer enquanto vivessem em território muçulmano seria o pagamento de alguns impostos específicos. O mesmo valia inclusive para os zoroastristas da Pérsia, cuja crença em muito se assemelhava às Religiões do Livro e ao Islã. Quanto às demais religiões, o Islã não pregava a conversão forçada, embora ainda considerasse seus adeptos como infiéis, pois “são a existência e a exemplaridade da verdade última encarnada na comunidade islâmica que devem converter os não-muçulmanos” (El Fasi; Hrbek, 2010, p.70). De qualquer forma, a partir do século IX, com o califado fragmentado, estabeleceu‑se uma relação de tolerância entre o mundo muçulmano e o não-muçulmano, de modo que a conquista deste último foi colocada em um tempo messiânico futuro.

O Egito era um dos lugares conquistados pelos muçulmanos que professavam uma Religião do Livro. Os coptas viviam há bastante tempo sob o jugo bizantino, cuja religião oficial era o Cristianismo Ortodoxo Melquita, e sofriam perseguições por parte do Estado Bizantino por serem cristãos monofisitas, uma vertente do cristianismo considerada herética pela Igreja Ortodoxa. No momento em que os árabes chegaram à região, em 639, a situação se encontrava bastante instável. Bizantinos e persas haviam disputado a região por meio das armas, saindo os persas vencedores em 619. Porém, eles passaram apenas dez anos ali, tempo em que os coptas monofisitas deixaram de ser perseguidos. Assim, com o retorno do jugo bizantino, os egípcios já não aceitavam mais as imposições de Bizâncio, e quando os árabes chegaram foram recebidos pelas populações locais sem resistência. O que lhes importava era a segurança e a paz, as quais os muçulmanos lhes garantiam muito mais que os bizantinos (El Fasi; Hrbek, 2010, p.69-73).

Quando o general árabe ‘Amr ibn al‑‘As levou os árabes ao Egito, ele já havia conquistado a Síria, até então bizantina, assegurando uma barreira contra possíveis ofensivas terrestre por parte de Bizâncio. Em 640, um ano após o início de sua investida, ele chegou ao que conhecemos hoje como Cairo. Lá, ele montou um acampamento permanente e estabeleceu a primeira mesquita do Egito e também da África. Este acampamento formou um novo núcleo que foi se transformando em uma cidade que receberia o nome de Fustat.

A documentação pouco contribui para a reconstituição desta Fustat inicial. O que sabemos é que ela ficava próxima de Babilônia, uma cidade-fortaleza (que apenas leva o mesmo nome da Babilônia mesopotâmica) situada na margem leste do Delta do Nilo, e das fundações de Mênfis, capital do Baixo Egito na Antiguidade (Bianquis, 2010, p.199-200). Contudo, na medida em que avançamos no tempo e Fustat foi crescendo e se tornando propriamente uma cidade, podemos chamar atenção para alguns momentos que se destacam e que alteram a dinâmica local. Para compreender estes momentos, precisamos contextualizá-los dentro da história geral do mundo muçulmano.

Esquema da cidade islâmica tradicional. A mesquita é o centro físico e simbólico da cidade, e sua fundação marca a fundação de um poder islâmico quando se conquista um local. Disponível em: BISSIO, Beatriz. O mundo falava árabe: a civilização árabe-islâmica clássica através da obra de Ibn Khaldun e Ibn Battuta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, figura 13.

Quando o califa Omar morreu, em 644, sendo sucedido por Uthman, algumas tensões antigas da comunidade islâmica foram reforçadas. Os primeiros companheiros de Maomé tinham receio dos convertidos posteriores que haviam adquirido poder, alguns dos quais vinham tentando puxar o poder para o norte, a Síria e o Iraque, mais ricos e populosos. A ummah tinha esperança de que Uthman, sendo um convertido antigo, pudesse reconciliar as facções. No entanto, sua política foi a de nomear como governadores provinciais membros de seu próprio clã, suscitando oposição em Medina e das pessoas mais próximas do profeta, além de Kufa (Iraque) e na própria Fustat. Apoiado então por soldados egípcios, um movimento de revolta levou ao assassinato de Uthman em 656. Ele seria sucedido por Ali, primo de Maomé e casado com Fátima, filha do Profeta, que enfrentaria uma força próxima de Uthman vinda do governador da província da Síria, Muawiyah. Eles entraram em um acordo de escolher delegados para ambos os lados, porém, muitos apoiadores de Ali o abandonaram, pois não estavam dispostos a submeter o que entendiam como a Vontade de Deus a julgamento humano. Ali acabou assassinado, e Muawiyah proclamou-se califa, dando início à chamada Dinastia Omíada. Era o fim da era dos chamados Califas Bem Guiados e o início de uma nova forma de poder dentro do Islã, mais próximo daquele praticado pelo Império Bizantino e pelos persas.

Os omíadas foram acusados de abandonarem os assuntos da religião e governarem com objetivos mundanos. Albert Hourani, porém, afirma que “seria mais justo dizer que os omíadas se viram diante do problema de administrar um grande Império, e, portanto, não puderam escapar aos compromissos do poder” (Hourani, 2004, p.40). E estas mudanças certamente tiveram efeito sobre o Egito. A capital do califado foi transferida de Medina para Damasco, na Síria, o que gerou alterações na administração, no comércio e em vários aspectos da vida cotidiana dos coptas. A língua do poder até então era o grego dos bizantinos, sendo escritos papiros bilíngues em grego e em árabe até cerca do ano 720, e desaparecendo somente no final do século VIII os documentos escritos em grego. Se outras culturas costumavam manter as estruturas administrativas e a cultura dos povos que conquistavam, os muçulmanos impunham sua língua, uma vez que o árabe seria a língua falada por Deus e nela está redigido o Corão. A Igreja Monofisita copta também permaneceu existindo, e as conversões de cristãos ao Islã tinham razões diversas, algumas sendo até mesmo por conta exclusivamente da isenção de tributos, o que chegou a gerar hesitação por parte do Estado, ávido por arrecadação, mas também receoso da falta de sinceridade dos novos devotos. Medidas que dificultavam que especialmente os camponeses burlassem os pagamentos chegaram a ser tomadas, mas eram constantemente violadas. Estes camponeses, inclusive, foram diminuindo substancialmente em número. A presença do Islã, religião extremamente ligada ao espaço urbano, contribuiu fortemente para que a urbanização do Egito, onde antes as cidades ainda eram um espaço reservado àqueles ligados a Bizâncio.

Durante a década de 740, o califado omíada viu a maior parte de seu poder desmoronar. Diversos movimentos muito diferentes entre si, porém com o interesse em comum de fazer oposição aos omíadas, vinham ganhando força. Em meio a eles, encontrava-se uma tendência xiita (os omíadas eram sunitas) liderada pelos auto-afirmados descendentes de Abbas, tio de Maomé, e centrada em Kufa. Unindo então as dissidências, os abássidas conseguiram derrotar o califa omíada e assumiram o poder. Seu governo não conseguiria administrar todo o território muçulmano, e neste momento o Egito já se encontrava em meio a uma instabilidade política e social. Uma série de revoltas com motivações variadas que se estenderiam por mais de um século atravessavam a região. Em uma delas, em 809, uma rebelião militar eclodiu em Fustat e, no ano seguinte, o governador construiu para si uma residência fora da cidade, em uma colina. Seria lá que, no futuro, se edificaria o Cairo.

Os abássidas levaram a capital de Damasco para Bagdá, longe do Egito e um afastamento simbólico de Meca e Medina, modificando o equilíbrio geopolítico do Mundo Islâmico. Isso abriu espaço para Fustat ter sua função regional valorizada e expandida (ainda que entre 750 e 868 a capital tenha sido transferida para Al-Aksar), intermediária de um poder distante e separada dele por quase dois mil quilômetros. É, portanto, no período dos abássidas que começam a surgir as primeiras tentativas de um Egito independente do califado, ambição na qual se destaca o governador Ibn Tulun.

Ibn Tulun chegou ao Egito em 868, em um período em que o califado abássida passava por um vácuo de poder, uma vez que as tropas da Mesopotâmia estavam tão cheias de escravos turcos que estes haviam conseguido tomar o controle e praticamente anulado o poder do califa. O novo dirigente conseguiu garantir as ligações entre o norte e o sul do Egito; regiões que ainda não haviam sido islamizadas o foram e também se estabeleceram novas redes de comércio. Ibn Tulun tinha, por fim, domínio sobre o trigo do Egito, de um tributo essencial para o soldo das tropas de Bagdá e dos escravos da Núbia. Assim, duas tentações o rondavam: tornar‑se independente do califa e conservar o tributo para financiar o seu próprio exército ou, ainda, intervir nos assuntos internos de Bagdá.

O califado não deixou de desconfiar das ambições e dos modos de agir de Ibn Tulun e de sucessores, assim como as populações de cidades como Damasco e mesmo Fustat, o que foi um grande fator para sua queda. Particularmente no caso dos califas, a proeminência econômica que o Egito atingiu sob os chamados tulunidas foi vista como uma ameaça à preponderância de Bagdá, e teve como retaliação a pilhagem de Fustat pelo exército abássida, na qual foram destruídos todos os monumentos construídos pelos tulunidas, com exceção da Grande Mesquita, a qual permanece de pé ainda hoje.

A Mesquita de Ibn Tulun, construída em 879 no Nordeste de Fustat. Encontra-se muito bem preservada e pouco transformada em relação a outros edifícios do medievo muçulmano, pois nunca foi totalmente utilizada pela população, e contrasta com os arredores ruidosos e urbanos com seu ambiente de devoção e silêncio.  Disponível em: <https://i.pinimg.com/originals/84/ac/7a/84ac7a83f6d22bdf56bde5d87a69fcd7.jpg> Acesso em 16 de abril de 2018.

Ao fim dos governos tulunidas, a situação política já estavam bastante volátil no Egito. Uma nova linha teológica, os fatímidas, vinha realizando tentativas de conquistar a província. Eles eram xiitas ismaelitas que criam na existência de imames (líderes religiosos) visíveis que guiariam os muçulmanos para a verdadeira fé, enquanto outros ismaelitas acreditavam que os imames estariam escondidos e invisíveis. Os fatímidas alegavam serem eles próprios descendentes de Ali e de Fátima, de onde vem o nome fatímidas, ou seja, eles seriam os imames e deveriam guiar a ummah. Além de revigorar a fé islâmica, eles baseavam seu apelo na reforma e na justiça social, seduzindo muitas camadas da sociedade muçulmana insatisfeitas com o califado abássida, como os berberes, povos oriundos do Magreb que ressentiam a dominação política islâmica, mas que eram fervorosos defensores da religião e forneceram apoio militar às conquistas dos fatímidas (Bianquis, 2010, p. 208-214).

A ideia imperial era inerente à doutrina ismaelita e o Egito era essencial para a construção de um império. Como escreve Hrbek: “A dominação por ela [a dinastia fatímida] exercida sobre uma porção da África do Norte não representava para si senão uma primeira etapa rumo à criação de um império universal que seria dirigido pelos descendentes do Profeta, em conformidade com a doutrina esotérica do ismaelismo. Para acelerar a realização deste projeto, era necessário que os fatímidas, dominantes somente em uma região periférica, a Ifrīkiya e o Magreb, estendessem o seu poder sobre o que representava o coração do mundo muçulmano, em outros termos, a região compreendida entre o Egito e o Irã, esses inclusive” (Hrbek, 2010, p.385). Tomar o Egito era, portanto, o primeiro passo para alcançar Badgá. Entretanto, este processo não foi nada fácil para os fatímidas: da primeira vez que tentaram conquistar o Egito, entre 913 e 915, até a sua conquista efetiva, passaram-se mais de 50 anos. Foi só em meados de 969 que o general Djawhar conseguiu tomar Fustat, planejada para ser a nova capital fatímida.

Djawhar, ex-escravo de origem siciliana, assumiu a administração da região, iniciando a construção de uma nova cidade especialmente para abrigar o califa e a alta administração, uma vez que o Egito devia ser agora um novo centro de poder muçulmano, que ele chamou de al-Mansuriyya, tal como a até então capital fatímida na Tunísia. Ele também construiu a mesquita de al-Azhar, que se tornou um centro de estudos xiitas de enorme importância e que permanece até hoje, transformada na chamada Universidade de Al-Azhar, agora de confissão sunita. Estas construções levariam cerca de dois anos, e, em 973, o califa al-Mu’izz tomaria posse da cidade e ela seria renomeada como Al-Qahirah, “a cidade vitoriosa”, conhecida por nós como Cairo.

Após 300 anos de um Egito provincial, relegado a celeiro do mundo muçulmano, a região se tornava ela mesma um centro de poder. Havia, agora, três califados ao mesmo tempo no mundo islâmico: o abássida, no Oriente Próximo, os remanescentes omíadas da Andaluzia e, fazendo frente a estes dois, os fatímidas no Norte de África centrados no Cairo.

Pátio da Mesquita e Universidade de Al-Azhar. Disponível em: <http://www.alazhartrust.org.uk/about-us/ > Acesso em 08 de junho de 2018.

Este primeiro Cairo era, acima de tudo, uma cidade luxuosa reservada às elites da nova dinastia, enquanto a vida comercial e popular acontecia em Fustat. O afastamento dos dois mundos era grande, tanto no que tangia a política quanto a questão social, pois as reformas e a igualdade prometidas pelos pregadores fatímidas nunca aconteceram. No tocante à religião, as relações eram bastante complexas. Os fatímidas eram governantes xiitas em uma terra de sunitas, mas ainda assim havia muita tolerância religiosa. Djawhar garantiu a manutenção da dinâmica religiosa da região e havia até mesmos algumas semelhanças entre os ritos fatímidas e aos costumes particulares coptas e principalmente os de Fustat, que tinham uma ligação forte com a devoção da Família do Profeta. Esta é uma questão que, inclusive, se destaca nas pretensões religiosas dos fatímidas, que por se dizerem descendentes de Ali e Fátima buscaram colocar Fustat e o Cairo na rota de peregrinações. Para isso, chegaram até a construir tumbas e santuários para personalidades religiosas, os quais não sobreviveram ao tempo ou sofreram muitas transformações.

Os fatímidas se tornaram uma potência marítima e comercial no Mediterrâneo graças a suas posses na Sicília, onde conseguiam desenvolver a produção de gêneros que eram escassos nas regiões desérticas, como a madeira, que era essencial para a obtenção de uma frota naval. Isso transformou o Egito em um centro econômico também muito poderoso, com enorme fluxo de mercadorias e acúmulo de metais preciosos. Seu raio de influência estendeu‑se no Mediterrâneo meridional, no Norte de África, na Península Arábica e em grande parte da Síria, tornando Fustat e o Cairo a dupla capital do mais poderoso império da época (Bianquis, 2010, p.219-220).

Se a proeminência do Egito na economia era inegável, sua estabilidade política não tinha o mesmo mérito. Os governos dos dois primeiros califas, al-Mu’izz e al-Aziz, viram a paz e a prosperidade. O filho de al-Aziz, al-Hakim, por outro lado, era extremamente impopular. Sua política religiosa era contraditória, chegando a obrigar cristãos e judeus a se converterem e substituindo seus locais de culto por mesquitas, além de que por vezes ele trocava de ideia sobre incentivar o proselitismo fatímida ou permitir o desenvolvimento livre dos ritos sunitas. Durante seu período, também, a dupla capital teve um enorme desenvolvimento demográfico, estando agora inseridos na região soldados berberes, turcos, negros (provavelmente sudaneses, dado que em árabe Sudão significa “Terra dos Negros”), comerciantes iraquianos e sírios e, claro, árabes. Esta diversidade de povos, que não se limitava à cidade, integrando também o exército, incomodava o califa. Al-Hakim teve de enfrentar uma série de problemas políticos com estas diferentes etnias, tendo como ápice um incêndio que tomou Fustat em 1020, destruindo praticamente toda a cidade (Beeson, 1969).

Nos dois séculos em que os fatímidas estiveram no poder, praticamente só com al-Mu’izz e al-Aziz o Egito teve paz; após Al-Hakim, haveria grande instabilidade política e vazios de poder muito frequentes. A dinastia seria destronada de uma vez por todas em 1169, quando Saladino, grande líder muçulmano que fez frente aos cristãos na Segunda Cruzada, venceu a ofensiva cruzada e assumiu o controle do Egito sem o povo do Cairo manifestar qualquer comoção. Começava uma nova dinastia, dos aiúbidas, mas acima de tudo, uma nova fase para o Cairo.

Os fatímidas deixaram um legado que sobreviveu a eles: à época de sua queda definitiva, o Egito já era a região mais rica do Oriente. A própria destruição de Fustat, não só com al-Hakim, mas também em mais um incêndio em 1168, fizera com que o Cairo necessitasse se desenvolver. A cidade já não seria mais reservada às elites e teria um desenvolvimento próprio, agora não mais havendo uma dupla-capital. Durante a maior parte do período aiúbida, o Egito viu um período de paz e prosperidade econômica que muito aproveitou do comércio anteriormente desenvolvido pelos fatímidas, o qual manteria seu vigor por vários séculos. O país comerciava intensamente no Mar Vermelho e no Índico, e mantinha relações inclusive com mercadores ocidentais, ainda que de forma um tanto limitada: seu ponto de encontro era Alexandria, pois a entrada no Cairo não era permitida aos ocidentais por conta das cruzadas.

O esplendor que a capital egípcia havia constituído permaneceria forte ao longo do tempo. Ibn Khaldun, historiador magrebino que se estabeleceu no Cairo no ano de 1386, se impressionou com a grandiosidade da cidade. Para ele, a capital egípcia era um ótimo exemplo de prosperidade e se encaixava em sua análise de que quanto maior a população de uma cidade, mais rica e luxuosa ela é. O Cairo chegou a ter quase meio milhão de habitantes e era de fato uma cidade muito rica, sendo quase inigualável em sua época. Isso fazia com que muitos magrebinos mais pobres, como observa Khaldun, fossem ao Cairo em busca de uma vida melhor, pois dizia-se à época que as pessoas da cidade eram muito generosas.

Outro aspecto que atraía pessoas ao Cairo era a religião em si. O viajante Ibn Battuta, também magrebino, passou pela cidade em meio a sua peregrinação para Meca em 1325. Assim como Ibn Khaldun, Battuta admira o tamanho e a beleza do Cairo, notando que ela é uma cidade que acolhe a todos, ricos e pobres, sábios e ignorantes, fortes e fracos. A cidade chega a ser comparada com o Éden, e o viajante destaca que o Nilo é um dos quatro rios do Paraíso. Há também sua menção aos mausoléus e aos locais ligados à família do Profeta Maomé, algo que nos indica a possibilidade de que a tentativa dos fatímidas de transformar o Cairo em um local sagrado teve certo êxito que perdurou ao longo dos séculos.

É notável também a relação tanto de Ibn Khaldun quanto de Ibn Battuta com outros momentos do Egito e do Cairo. Ibn Khaldun ressalta a importância da região como uma referência para o conhecimento e a ciência deste os tempos antigos, quando a região ainda guardava a antiga capital copta Mênfis, e como isso se manteve, trazendo pessoas de todo o mundo islâmico para aprender nas mesquitas e escolas do Cairo. Ibn Battuta também menciona Mênfis, além de ter nos deixado um interessante relato sobre sua visão acerca das pirâmides. Em nenhum momento o viajante as descreve como monumentos pagãos, não dignos do Islã; muito pelo contrário, ele apresenta um fascínio por elas, contando do dito popular que supunha que um Faraó teria decidido construir uma pirâmide para guardar seu corpo e o conhecimento do Egito porque teria tido visões de um grande dilúvio, e que até sua época ninguém sabia como elas haviam sido construídas.

A função social de uma cidade é oferecer um espaço propício para o desenvolvimento da civilização. Isso inclui prosperidade econômica, cultural e intelectual. O Cairo continha todos os elementos necessários desde antes de sua fundação oficial, quando Fustat era a capital o Egito. Em 700 anos, de um acampamento base para os árabes muçulmanos recém-chegados, a cidade se tornou uma das regiões mais ricas e desenvolvidas do planeta. Hoje, o Cairo compete com outras grandes cidades pelo mundo, mas com seus quase 8,5 milhões de habitantes – que unidos à sua região metropolitana somam 24 milhões – é hoje a maior metrópole da África e também do Mundo Muçulmano. Praticamente todo o comércio do Egito é gerado ou passa por ela, e a principal atividade econômica é o turismo. Ainda assim, não somente os grandes monumentos atraem as pessoas à cidade, havendo nela uma variedade de grandes universidades, muitas delas públicas. Apesar das transformações em suas riquezas e de suas desigualdades, a capital egípcia conseguiu manter ao longo de sua história a sua importância cultural e intelectual mesmo após deixar de ser um grande centro de poder.

E este é o Cairo que permanece existindo até hoje.

O Cairo atual, às margens do Nilo. Disponível em: < https://savoirs.rfi.fr/br/comprendre-enrichir/societe/les-villes-du-moyen-orient-le-caire> Acesso em 15 de junho de 2018.

REFERÊNCIAS

  • ARMSTRONG, Karen. Islam: A Short History. New York: Modern Library, 2002.
  • BATTUTA, Ibn. A través del Islam. Traducción de Serafín Fanjul e Fredecido Arbós. Madrid: Allianza Editorial, 1993, p.105-149.
  • BEESON, Irene. Cairo: “A Millenial” In Saudi Aramco World, vol. 20, No. 5, 4, Setembro/Outubro de 1969, p. 26-30.
  • BISSIO, Beatriz. O mundo falava árabe: a civilização árabe-islâmica clássica através da obra de Ibn Khaldun e Ibn Battuta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
  • HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA, III: ÁFRICA DO SÉCULO VII AO XI / editado por Mohammed El Fasi – Brasília : UNESCO, 2010.
  • HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA, IV: ÁFRICA DO SÉCULO XII AO XVI / editado por Djibril Tamsir Niane. – 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010.
  • HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • KHALDUN, Ibn. Muqaddimah. Translation by Franz Rosenthal. New Jersey: Princeton University Press, 1967.
  • SENKO, Elaine Cristina. A concepção de cidade para o historiador medieval Ibn Khaldun (1332-1406) no século XIV. In: JORNADA DE ESTUDOS ANTIGOS E MEDIEVAIS/II JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS ANTIGOS E MEDIEVAIS, 10, 2011, Maringá. Anais da Jornada de Estudos Antigos e Medievais. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2011, p. 1-9.