A última faraó do Egito: Cleópatra VII e o Egito Ptolomaico

Jéssica Kotrik Reis Franco

 

Quando falamos sobre o Egito Antigo, é muito comum vir a mente das pessoas o conhecimento dessa civilização adquirido através de filmes, documentários, games e literatura romântica por exemplo. Contudo, apesar de hoje haver uma preocupação maior com a fidelidade histórica por parte de tais produções, por se tratarem de produtos para o lazer, o propósito principal é o entretenimento, e não a fidelidade histórica. A história do Egito Antigo é longa e complexa, e apesar de terem sido uma civilização que ficou conhecida por caraterísticas impares, os egípcios não eram um povo homogêneo, nem a história do Egito Antigo foi estática, a ponto de não sofrer mudanças ao longo de 4.500 anos. Um exemplo disso, é o período Ptolomaico. Pouco explorado em materiais didáticos e no campo da pesquisa cientifica no Brasil, o período dos faraós Ptolomeus no Egito fica às margens dos estudos egiptológicos e as sombras do conhecimento popular. Exemplo mais claro disso, é o da rainha Cleópatra VII. Ela foi a última monarca Lágida, como também eram conhecidos os Ptolomeus, e governou por vinte e um anos, até a conquista e anexação do território egípcio pelo Império Romano. Contudo, quase tudo que sabemos sobre ela, foi formatado através da cultura pop. Filmes, romances, games, e até mesmo alguns documentários de cunho sensacionalista, nos deram uma noção errônea sobre a última faraó do Egito. Tal formatação se deve também, ao fato de que, as fontes egípcias históricas que falam a respeito de Cleópatra e seu governo, foram destruídas pelos romanos depois da derrota dela e de Marco Antônio para o Imperador Otávio Augusto.  Restando para o mundo, apenas as fontes e as versões de seus inimigos políticos.

Fruto da propaganda negativa empreendia por Otavio, e da apropriação da imagem lendária de Cleópatra pelo meio de entretenimento, temos hoje, no imaginário coletivo, a figura de uma rainha ambiciosa, bela e sedutora, que utilizou esses artifícios para conseguir o que queria, entretanto, as discrepâncias entre sua história e os fatos conhecidos da sua vida não podem ser atribuídos simplesmente à pouca clareza da verdade. Sua lenda não apenas cresceu. Foi rapidamente fabricada, enquanto os episódios nos quais foi baseada ainda estavam acontecendo, e foi construída com um proposito preciso- o de denegrir a sua heroína (HALLET, 2005, pg. 57). Portanto, o que me proponho a fazer neste trabalho é desconstruir e desmistificar um pouco desse imaginário, através da análise histórica do reinado de Cleópatra VII, para tentar compreender, que suas atitudes políticas e até mesmo pessoais, pois a vida pública e privada eram interligadas no mundo antigo, estavam de acordo com os parâmetros de sua própria dinastia, a monarquia helênica, além de mostrar que, Cleópatra, foi acima de tudo, uma governante, e não fez nada além do que muitos homens e mulheres que ocuparam postos de poder, fizeram ao longo da história.

Imagem: Estela de Cleópatra vestida de homem, à direita fazendo oferendas à deusa Ísis, que amamenta um bebê. Lavrada nos primeiros meses de Cleópatra no poder, essa estela é a prova mais antiga de seu reinado. Na época, ela repartia o trono com o irmão, Ptolomeu XIII, cujo nome é notavelmente ausente. O nome de Cleópatra aparece na segunda linha no texto escrito em grego. (SCHIFF, 2011).

  1. A origem dos Ptolomeus

1.1 Alexandre, o Grande

Inseparável de seu cavalo Bucéfalo, Alexandre III da Macedônia, ou Alexandre o Grande como ficou conhecido, nasceu no ano de 356 a.C na cidade de Pela. Filho de Filipe II (359 a.C-336 a.C), rei da Macedônia, e de Olímpia do Epiro (376- 316 a.C), devota do deus Dionisio. Alexandre era tido naquela época, desde seu nascimento, como descendente de Hércules, como sempre fez questão de afirmar sua mãe. Essa sua conotação de deus, digamos assim, sempre lhe forneceu a confiança para exercer suas ambições, além disso, o legitimou como o grande monarca que foi perante os povos que conquistava, mesmo após sua morte “É opinião corrente que, do lado paterno, Alexandre descendia de Hércules (…)” (PLUTARCO, 2016, p. 19). Ele assumiu o trono aos vinte anos de idade, quando seu pai foi assassinado. Sendo ele um exímio chefe militar, culto, pois seu preceptor foi o próprio filósofo Aristóteles, idealista e ambicioso, passou a maior parte de seu governo em campanhas militares. Além de vingar a morte de seu pai, matando os traidores, ele fez de seu maior sonho realidade. Alexandre empreendeu o pan-helenismo, iniciado com um antigo projeto de Filipe, de conquistar a Pérsia. Assim, Alexandre derrotou o rei Dario III, em batalhas decisivas como a batalha de Isso, ocorrida no ano de 333 a.C e conquistou definitivamente os persas por volta de 331 a.C.

Além de expandir o domínio macedônio e difundir a cultura grega, Alexandre fundou um dos maiores impérios em extensão do mundo antigo, que ia dos Balcãs à Índia, incluindo o Egito. Contudo, sua proposta não se reduzia apenas a questão militar, pois com suas conquistas, ele fundou um Império multicultural. Seu Império, deveria ser uma fusão de culturas, e deveria representar a união do Oriente e do Ocidente. E de fato, Alexandre conseguiu isto, através de alianças com governantes os quais derrotava, casando suas filhas com seus próprios generais, por exemplo, e respeitando a cultura local dos povos conquistados, que junto a cultura grega-macedônia, poderiam manter sua língua, religião e costumes, mesmo após o domínio grego. Pois, para Alexandre, a manutenção de diferentes culturas e do conhecimento adquirido através destas, era o embasamento por detrás do mundo helênico, um mundo que deveria ser erudito.

Para representar seu ideal, e concretizar sua proposta de fusão de culturas, Alexandre fundou as Alexandrias, cidades que seriam os polos de seu Império. A mais famosa e que melhor representou o helenismo, sem dúvida alguma, foi a Alexandria do Egito, localizada no extremo do Delta do Rio Nilo. Ela foi o maior centro cultural e intelectual da Antiguidade durante séculos. Sobre ela, falaremos melhor adiante, quando abordarmos o reinado da última herdeira de Alexandre em território egípcio, Cleópatra VII, a qual utilizou o poder que a cidade possuía, para exercer sua diplomacia durante seu reinado.

1.2 Alexandre no Egito

Quando Alexandre o Grande chega ao Egito em 332 a.C, não sofre nenhuma resistência por parte do povo egípcio. Pois naquele período, o Egito estava sob domínio Persa, e os egípcios, inimigos históricos dos persas, consideraram Alexandre um libertador. Em 331 a.C ele funda a mítica cidade de Alexandria egípcia, a nova capital do Egito, aos arredores de um pequeno vilarejo no Delta do Nilo, mais do que isso, demonstra uma grande admiração pela cultura e história dos lendários faraós, a ponto de ele mesmo querer se tornar um. Por conseguinte, visita o oráculo do respeitado e temido deus egípcio Amom, localizado no Oásis de Siwa, deserto líbio, lá Alexandre foi nomeado pelo oráculo como filho do próprio deus, portanto, legítimo Faraó do Egito. Atravessando o deserto e chegando à cidade onde estava o templo, Alexandre foi saudado pelo profeta de Amon com o título de filho de Júpiter – versão grega do deus egípcio Amon (PLUTARCO, 2016, p. 56).

Alexandre dá continuidade ao seu projeto expansionista, porém, seu plano de invadir a Índia em 326 a.C, fracassou. Voltando para a Babilônia e morrendo em 323 a.C, não nomeou herdeiros para governar seu vasto Império. Seu corpo foi interceptado por Ptolomeu e Alexandre foi enterrado no Egito. Seu túmulo até hoje não foi encontrado. Após sua morte, ocorrem acirradas disputas entre seus generais para dividir o governo do poderoso Império conquistado por Alexandre, a ponto de sua esposa Roxana e seu filho Alexandre IV, serem assassinados por Cassandro, um de seus generais. Assim, ainda em 323 a.C, ocorre a partilha, divisão do Império em províncias, chamadas satrapias, entre os generais macedônicos. Ptolomeu, um dos generais de maior confiança e experiência de Alexandre, ficou com o Egito, e ali se tornou Ptolomeu I Sóter (305- 282 a.C), dando origem a dinastia Ptolomaica.

Imagem: Mapa Império de Alexandre por volta de 323 a.C

fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Helenizacao acesso em: 20/06/2018

Período de grande intercâmbio cultural, o período Ptolomaico no Egito foi marcado pelas características mais plenas do helenismo, intelectualizado, financeiramente próspero, mas também cenário de disputas, conspirações e intrigas pela sucessão do trono, que o levou a um período de decadência, a monarquia Lágida começou a dar sinais de fraqueza no reinado de Ptolomeu IV Filopator (221-203 a.C). Apesar de uma vitória militar obtida em Raphia, no ano 217, o rei, que Políbio nos apresenta como um pândego indolente, se desinteressou totalmente pelos assuntos do reino, entregues a seus ministros. A partir de 216, o país conheceu numerosos levantes de egípcios exasperados com as prevaricações dos funcionários reais. Ao morrer, Filopator deixava a seu sucessor um reino em plena guerra civil (SCHWENTZEL, 2009, p. 19).  Um Egito tumultuado, com invasões, levantes, e cheio de disputas internas, mas com muita riqueza. Foi nesse contexto que nasceu, viveu e governou Cleópatra VII, a última Faraó do Egito. Da qual, enfim, falaremos.

  1. A última faraó do Egito

2.1 Cleópatra VII

Cleópatra VII nasceu na cidade de Alexandria em 69 a.C, seu pai era Ptolomeu XII Aulete (80- 51 a.C), e supostamente, sua mãe, Cleópatra VI. Ela era a segunda filha de cinco irmãos. Com a morte de Ptolomeu, em 51 a.C, Cleópatra então com dezoito anos, casou-se e subiu ao trono como rainha regente com seu irmão Ptolomeu XIII (51- 47 a.C) que então tinha apenas dez anos de idade. A partir desse momento, a rainha passou a usar as eclipeses, título, Cleópatra VII théa philopator, que em grego significa “deusa que ama seu pai”. Os governantes Lágidas eram divinizados, descendentes de Alexandre o Grande (356- 323 a.C) deveriam ser cultuados assim como tal. Contudo, apesar da riqueza do Egito e da suntuosidade dos Ptolomaicos, o Egito sofria constante ameaça de domínio por parte do Império Romano, que estava em expansão sobre diversos territórios e que mantinha o próprio Egito sob sua tutela. Ptolomeu XII (80- 51 a.C), pai de Cleópatra, realizou em seu governo diversos acordos com os romanos a fim de manter um reino autônomo. E foi nesse contexto de acordos políticos para manter um Egito independente, que Cleópatra aprendeu a governar, dona de uma notória inteligência, ela falava em média dez idiomas diferentes, entre eles, latim, grego, árabe e o egípcio antigo. Além disso, estudou história, filosofia, matemática, química e astronomia.

Imagem: Tetradracma de prata com a efígie de Cleópatra com o diadema heleno.

Cunhado em Áscalon -Palestina-50-49-a.C.

2.3 Diplomacia, alianças e romance

Apesar de um desafeto longínquo entre alexandrinos e romanos, foi a dois deles que a vida da rainha Cleópatra esteve intimamente ligada. O general romano Julio César (100- 44 a.C) conheceu a jovem quando ela foi exilada de Alexandria acusada pelo séquito de seu irmão de conspirar para governar sozinha. Cleópatra fugiu para a fronteira oriental do Egito, ao sul da Palestina, e lá montou um exército mercenário. O romano chegou à cidade alexandrina em 47 a.C e foi surpreendido com a ousadia da jovem, Cleópatra queria falar com César, para que ele intercedesse pela sua volta ao trono. Plutarco, na obra Vida de César, conta-nos que a rainha recorreu a uma artimanha. Conseguiu entrar à noite em Alexandria, numa pequena embarcação, acompanhada apenas de um de seus fiéis servidores, Apolodoro de Sicília. Restava ainda penetrar no palácio sem fazer-se reconhecer. Como não havia meio algum de entrar sem ser reconhecida, escreveu Plutarco, ela se enrolou dentro de um saco que Apolodoro atou com uma correia, fazendo-o chegar até César, pela própria porta do palácio (SCHWENTZEL, 2009, p. 32). Este fato ficou tão famoso e repercutiu tanto ao longo da história, que mais tarde foi dito que a rainha se enrolará em um tapete, para assim, dar uma pitada de glamour a história. Cleópatra sabia que esse encontro seria decisivo para se tornar aliada política de Julio César. Mas mais do que isso, os dois se tornaram amantes.

O fruto desta relação se chamaria Cesário, ou pequeno César, como os egípcios carinhosamente o chamavam. Contudo, essa união nunca foi formalizada e ficou apenas no âmbito palaciano e político. César já era casado, além disso, pelas leis romanas não era permitido casamento com uma mulher estrangeira. De outubro de 46 a março de 44 a.C, Cleópatra esteve em Roma com Cesário. Apesar de não assumi-lo como seu filho em público, todos sabiam que aquele menino junto a Cleópatra era filho de César. Além disso, durante a sua chegada e estadia, Cleópatra ostentou toda a sua riqueza como demonstração de poder ao povo romano, César por sua vez, a tratou como uma importante rainha que era, dedicando a ela todas as honrarias do mais nobre hóspede.

Temendo o enorme poder e influência que o romano obtinha em suas mãos, como ditador, e mais ainda, as suas perigosas alianças com Cleópatra, Julio César foi vítima de um complô de membros do Senado Romano. Depois de seu assassinato, em 44 a.C, Cleópatra se viu sozinha, e então resolve voltar ao Egito. Contudo, foi nesse momento que houve a aproximação entre ela e Marco Antônio, cônsul romano que lutou ao lado de Julio César na guerra civil, e um dos homens de sua inteira confiança. Após a morte de César, ele se tornou o senhor do Oriente na partilha do Império Romano, Otávio, sobrinho de César, ficou com o Ocidente. Marco Antônio rendeu-se aos encantos da rainha egípcia, a sua astúcia, inteligência e ambições, principalmente. Os dois se tornariam amantes e teriam três filhos, Alexandre-Hélio, Cleópatra-Selene e Ptolomeu Filadelfo. Por quanto, deram continuidade aos planos ambiciosos de manter a independência egípcia. Quando Marco Antônio se une a ela, ele o nomeia “a rainha dos reis” em 34 a.C na cerimônia do Ginásio, como ficou conhecida, em Alexandria. Com isso, ambos acabam deixando bem clara suas pretensões. Havia, portanto, uma guerra declarada, Marco Antônio também era casado e estava subordinado às leis romanas. Além disso, Cleópatra representava uma ameaça muito grande a autonomia de Roma, por conseguinte, ao governo de Otávio, uma vez que, seu filho Cesário, cuja paternidade ela atribuía a Júlio César, representava o herdeiro legítimo dos dois mundos, ocidente e oriente, Roma e Egito. Assim, Cleópatra estava decidida a manter a independência do Egito perante Roma. Sendo uma das batalhas mais emblemáticas da história, a batalha do Áccio em 2 de setembro de 31 a.C, foi o desfecho desta história e o início do fim para o casal. Sabe-se que, em certo ponto da batalha, vendo a derrota acontecer, Cleópatra abandona a batalha e bate em retirada com sua frota naval, Marco Antônio vai atrás da rainha. Hoje, são levantadas muitas hipóteses sobre esse fato na historiografia, entre elas, a de que Cleópatra carregava, como de costume, todas as suas riquezas com ela no barco, portanto, decidiu voltar ao Egito para proteger seu tesouro e armar um contra-ataque talvez. O fato é que, acuados pelas tropas de Otávio que os perseguiram, ambos acabam se suicidando. Marco Antônio com uma espada que cravou no próprio peito, morreu nos braços de sua amada.

Já o suicídio de Cleópatra se tornaria lenda, segundo a hipótese mais aceita, ela teria se suicidado em 12 de agosto de 30 a.C, pela picada de uma serpente, já que Suetônio conta que Otávio chegou mesmo a chamar psilos (homens da Líbia que, dizia-se, sabiam curar picadas de répteis) para segurar o veneno da ferida (SCHWENTZEL, 2009. p. 66). Cleópatra optou por esse fim, pois conhecia o poder dos venenos- Plutarco a descreve como especialista em, pois andava sempre com um camafeu com substância venenosa dentro, o que condiz com sua formação erudita e seus conhecimentos de química- assim, ela foi vítima de uma morte rápida e digna, pois não sofreria a humilhação de ser prisioneira de seu inimigo Otávio. Cleópatra morreu, mas não o seu nome. Ela ansiava por imortalidade e obteve, pelo menos, a imortalidade do tipo que a fama proporciona (HUGHES-HALLETT, 2005, p. 167). Seu filho Cesário foi assassinado pelos soldados a mando de Otávio, e seus três filhos com Marco Antônio, teriam sidos enviados a Roma e criados por Otávia, meia-irmã de Otávio e quarta esposa do próprio Antônio.

Imagem: Morte de Cleópatra-1874 por Jean-André Rixens

2.4 A cidade de Alexandria

Sendo ela, uma cidade portuária, Alexandria tornara-se a mais importante fundação de Alexandre no Mediterrâneo, fundada em 331 a.C, tinha trezentos anos quando foi incorporada por Otávio Augusto e transformada na Capital da província romana do Egito. Antes da conquista era a segunda metrópole do mundo habitado (em população e tamanho). Era também a capital do antigo reino do Egito, um território rico e intrigante para os romanos há séculos, além de importante fornecedor de trigo para Roma (CLÍMACO, 2013, P. 149). Alexandre fundou a cidade onde já havia um povoado de pescadores egípcios, chamado Rakotis, o local era estratégico, longe das enchentes do Nilo, mas perto o suficiente para que pudessem ser escoadas mercadorias entre ele o mar Mediterrâneo através do lago Mareotis, além disso, como a cidade localizava-se no centro norte do Egito, era possível ter o controle de todo o triângulo do Delta e se beneficiar do encontro com o Mar Vermelho.

Duas descrições nos dão a noção do esplendor da cidade, primeiro, a do historiador Diodoro de Sicília, que visitou Alexandria em 59 a.C, no reinado de Ptolomeu XII Aulete, pai de Cleópatra, e a segunda é a do geógrafo Estrabão, que esteve no Egito em 25-24 a.C. Nos textos deixados por ambos, vemos referências a “edificações suntuosas”, principalmente o Farol de Alexandria, considerado símbolo da cidade. O Farol era obra do arquiteto Sostrato de Cnido, iniciada durante o governo de Ptolomeu I, mas concluída apenas no reinado de Ptolomeu II. Segundo Estrabão, a torre media 120 metros de altura, e foi construída em calcário, mármore e bronze, além disso, tinha um fogo no topo que era visível a cem milhas de distância, durante seu governo, Cleópatra VII ordenou obras de restauro na edificação. Havia também, um grande número de templos, muitos deles consagrados a Ísis. Na ilha de Faros, havia um santuário dedicado a Isis Pharia, ou seja, indicando-a como a divindade protetora do Farol, o templo de Serápis, era o maior templo helenístico, e o Templo de Philae, também dedicado a Ísis, era o mais frequentado por Cleópatra ao longo de sua vida. Durante seu reinado, ela mandou construir o Kaisareion, área onde devia ser honrado o nome de Julio Cesar e Marco Antônio, os dois obeliscos que ordenavam os arredores do local, ficaram conhecidos como “as agulhas de Cleópatra”. A quantidade e magnificência dos palácios helenísticos serviram como fortificações a Cesar  durante o Cerco de Alexandria em 47 a.C, nas batalhas travadas contra Arsínoe IV e Ptolomeu XIII. Entre tais construções, impossível não citar a Biblioteca de Alexandria, a menina dos olhos de Cleópatra. Oriunda de uma dinastia erudita, que cultivava a filosofia grega, ela pediu a Marco Antônio que lhe enviasse muitos livros de Pérgamo para aumentar o acervo da biblioteca alexandrina. Antes disso, imediatamente após o incêndio que a biblioteca sofreu durante a Guerra Alexandrina, Cleópatra ordena seu restauro, sem economizar recursos. Havia também um Museu, ao lado da Biblioteca, em Neápolis, uma espécie de centro de pesquisa onde sábios e intelectuais podiam hospedar-se às custas da monarquia para fazerem seus estudos.

O Ginásio, uma das maiores construções de Alexandria, serviu de palco para ocasiões importantes durante o reinado de Cleópatra. Foi lá que Marco Antônio a nomeou como a “rainha dos reis” em 34 a.C, e foi lá também, onde Otávio fez seu discurso de perdão aos alexandrinos depois de sua vitória contra o casal.  Portanto, a rainha não só financiou a manutenção de tais obras, como também estimulou a ampliação de tais edificações e soube as usar de modo a legitimar sua figura como referencial de poder. Além disso, Cleópatra sabia da influência econômica, cultural, e social que Alexandria exercia no mundo de sua época. Pois além de rivalizar com Roma em termos de tamanho, número de habitante e economia, a cidade era o reflexo da suntuosidade, da erudição e da riqueza de sua dinastia, dinastia herdeira de Alexandre, seu fundador, algo que ela sempre fez questão de ressaltar. O local onde foi enterrado o corpo de Cleópatra junto ao de Marco Antônio, ainda não foi encontrado, assim como, a maioria dessas construções citadas acima. Engolidas pelo mar, hoje, elas fazem parte de sítios arqueológicos aquáticos no mar Mediterrâneo. Por isso, sobre a cidade de Alexandria, nos restam essas importantes descrições, Plutarco, por exemplo, descreve o local exato do mausoléu da rainha e de Marco Antônio, como sendo anexo a um templo de Ísis, de elevação e suntuosidades espantosas, demonstrando assim, mais uma vez, a mítica da monarca, mesmo após sua morte (SCWENTZEL, 2009, pp. 94-98).

Imagem: Reconstituição da cidade e do Farol de Alexandria

fonte: Assassin’s Creed Origins 2017

2.5 A Deusa de várias religiões

Cleópatra sabia do poder de legitimação que a religião exercia sobre seu povo, além disso, ela vinha de uma dinastia, cujo fundador, Alexandre o Grande, foi considerado um deus desde o seu nascimento. O culto a Alexandre permaneceu após a sua morte. Por conseguinte, estendeu-se para seus descendentes, os faraós Ptolomeus. Nesse sentido, a figura divinizada do Faraó do Egito Antigo, não só continuou existindo no período Ptolomaico, como ganhou força e características próprias.

Portanto, sua relação com a religiosidade egípcia e romana se tornou uma de suas principais estratégias para se legitimar no trono como descendente e herdeira de Alexandre, além de ganhar a aprovação e simpatia do povo e do sacerdócio. Cleópatra associava a sua figura perante o povo egípcio a deusa Ísis, que corresponderia a deusa Afrodite romana. Tais divindades, nos trazem elementos importantes para compreender tal estratagema. Como divindade da maternidade, fertilidade e magia, a figura de Ísis aproximava a figura de Cleópatra como a da grande mãe do Egito, responsável por trazer prosperidade e poder ao reino. Assim, os relevos de imagem e hieróglifos do templo de Hathor em Dendera no Alto Egito mostram Cleópatra e seu filho Cesário, ela como Ísis e ele como Hórus. (…) ao reforçar a posição de Cesário como seu herdeiro divino Cleópatra concede a ele um papel importante em torno de sua mítica (HUGHES-HALLETT, 2005, p.271). Além disso, Marco Antônio, era associado ao deus Dioniso, Diodoro de Sicília explicitamente declara: Osíris traduzido é Dioniso. Plutarco concorda, citando muitos autores e estudiosos gregos (HUGHES-HALLETT, 2005, p. 136). Assim sendo, ela se ligou a esse aspecto da imagem pública de Antônio e o incorporou ao mito religioso-político que vinha elaborando, e ao qual deu expressão no maravilhoso espetáculo sobre Cidno. Antônio, como Dioniso/Osíris, poderia bem ter sido indicado pelos Céus como o conquistador da Ásia- e não era ela mesma, Ísis/Afrodite, a divindade sua companheira, de igual para igual, sua irmã e esposa? (HUGHES-HALLETT, 2005, p. 137). Tais associações unidas a mítica de sua morte, eternizaram a imagem de Cleópatra ainda naquela época e contribuíram para a perpetuação de sua divinização.

Imagem: Relevos de imagem e hieróglifos do Templo de Hathor em Denderah, Alto Egito. Os relevos, anacrosticamente em estilo arcaico, mostram Cleópatra e seu filho Cesário como Ísis e Hórus. Ao reforçar a posição de Cesário como seu herdeiro divino Cleópatra concede a ele um papel importante em torno de sua mítica. (HUGHES-HALLETT, 2005).

Entre o mito e a realidade

Símbolo feminino na história, depois de dois mil anos a figura de Cleópatra ainda desperta o interesse e a imaginação do mundo. A repercussão que essa personagem histórica teve nas artes, na literatura, no cinema e no teatro foi imensa, o célebre dramaturgo Shakespeare escreveu uma peça enunciada Antônio e Cleópatra. Tal obra inspirou a produção de diversos filmes hollywoodianos, entre um dos mais conhecidos Cleópatra de 1963, estrelado por Elizabeth Taylor que interpretou a rainha.

Contudo, as fontes sobre a verdadeira Cleópatra são escassas, além da propaganda negativa sobre ela empreendida por Otávio durante sua disputa com a rainha, grande parte das fontes utilizadas para formatar a imagem dela foram fontes romanas, são escritos posteriores a sua morte e de partidários ao próprio Otávio, inimigo político de Cleópatra. Portanto, apesar de toda a sua fama, a rainha ainda continua sendo um enigma na história, e estudar sua biografia e seu reinado é um desafio. O que sabemos sobre ela, através das poucas fontes egípcias que resistiram ao tempo e a fúria de seus inimigos, como foi demonstrado em parte aqui, é que ela conquistou a simpatia do povo egípcio, através da sua estreita ligação com a religiosidade, principalmente associando-se a deusa Ísis e para os romanos, era tida como a Afrodite. Em seu governo, ela também enfrentou crises econômicas e fome, mas estabilizou a economia (troca da moeda), aumentou significativamente o acervo da biblioteca de Alexandria, estimulou as artes, a filosofia e o conhecimento. Além de ser uma estrategista e diplomata, ela manteve o Egito independente por mais de vinte anos até que ele se tornasse uma província romana em 30 a.C.

Ainda, o discurso de Cleópatra VII, como herdeira de Alexandre o Grande, legitimou suas pretensões políticas mediante a aliança com os romanos, o que levou ao seu suicídio e a derrota para Otávio Augusto. Tal acontecimento foi de demasiada importância, uma vez que, a derrota egípcia para Roma, consolidou o domínio romano no Mediterrâneo e formatou o mundo da antiguidade. Suas alianças com os romanos, para que assim, o Egito pudesse manter-se independente, já eram premissa básica desde o governo de seu pai e de seus ancestrais. Além disso, não tendo muitas opções, as ambições de se tornar a rainha do Oriente e do Ocidente, Egito e Roma, legitimada pela figura de um herdeiro, Cesário, estava de acordo com a ideologia de monarquia universal das dinastias Lágidas, oriundas do Império Helênico, fundado por Alexandre, o monarca universal por excelência.

Cleópatra foi criada, educada e preparada para ocupar um cargo de poder. Assim, se analisarmos a história, e não precisamos ir muito longe, o próprio pai de Alexandre, citado aqui, Felipe II, rei da Macedônia e Julio César, ambos assassinados, vemos que o mundo político nessa época, é imbricado de complôs, estratégias e alianças. Por conseguinte, Cleópatra não fez nada que não estivesse de acordo com seu contexto, com o mundo em que viveu e governou. Foi uma política, uma diplomata, uma erudita e uma rainha, acima de tudo. Portanto, a perpetuação de seu mito, fica por conta do próprio impacto que suas decisões tiveram na história e da mítica que ela mesma formatou em torno de sua imagem. Por isso, falar de Cleópatra é um desafio e ao mesmo tempo, um sucesso.

 

 

Imagem: Reconstituição feita com base nas moedas cunhadas com a efígie de Cleópatra e no seu busto, que atualmente encontra-se exposto no Museu de Berlim.

 Para saber mais…

Livro: Cleópatra uma biografia

Autora: Stacy Schiff

Editora: Zahar

Ano: 2011

  Link:https://exame.abril.com.br/ciencia/arqueologa-afirma-estar-a-um-passo-de-encontrar-tumba-de-cleopatra-no-egito

Bibliografia:

CLÍMACO, Joana Campos. A Alexandria Antiga refletida pelo olhar romano. Romanitas: Revista de Estudos Grecolatinos, USP, 2013, São Paulo.

HUGHES-HALLETT, Lucy. Cleópatra, histórias, sonhos e distorções. Tradução: Luiz Antonio Aguiar. Editora Record, Rio de Janeiro, 2005.

PLUTARCO. Alexandre e César: as vidas comparadas dos maiores guerreiros da antiguidade. Tradução Hélio Vega. Prefácio de Mário da Gama Kury. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006.

SCHIFF, Stacy. Cleópatra: uma biografia. Tradução: José Rubens Siqueira. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2011.

SCHWENTZEL, Christian-Georges. Cleópatra. Tradução: Paulo Neves. Editora L&PM, Porto Alegre, 2009.

VELILLA, Arminda Lozano. El Mundo Helenístico. Editora Sintesis, Madrid, 1992.