O Ocidente romano no século V

Camila Martinatto

Apresentação em slides: O Ocidente romano no século V

Roteiro de discussão em sala:

Pretendemos neste trabalho mostrar aos alunos o significado de mito histórico e como eles são utilizados para a criação de versões da história que sejam favoráveis àqueles que as criam e propagam. Para tal, utilizaremos os estereótipos mais conhecidos de romanos, bárbaros e hunos que, por serem muito repetidos em várias mídias, são mais conhecidos daqueles a quem o projeto é destinado, os alunos.

O principal objetivo do trabalho será mostrar para os alunos que os estereótipos desses povos não passam de mitos que, muitas vezes, não condizem com a realidade, desconstruindo estas imagens e com um embasamento teórico e das fontes construir uma nova imagem que seja mais próxima ao que a pesquisa nos mostra como mais próximo da realidade. Sempre deixando claro que não tratamos de verdades absolutas, mas apenas nos apoiamos no que as fontes nos mostram, podendo sempre ser revisto.

1° slide: “O Ocidente Romano no século V”

Slide destinado a apresentação do título e criadores.

2° slide: “Império Romano”

O objetivo deste slide é apresentar aos alunos o período em que a questão a ser tratada está inserida: o período do Império. Algumas datas são destacadas no slide, a ideia foi apresentar datas que os alunos conheçam, por serem de senso comum, além de algumas datas importantes no decorrer do Império.

Essas datas são:

27 a.C – A fundação do Império por Augusto[1];

64 d.C – O grande incêndio de Roma, conhecido popularmente pela imagem do Imperador Nero cantando enquanto a cidade ardia[2];

212 d.C – O Édito de Caracala, o qual concedia a todo homem e mulher livres dos territórios romanos a cidadania[3];

380 d.C – Data do Édito de Tessalônica, o qual convertia todo o Império ao cristianismo[4];

476 d.C – A deposição do Imperador Rômulo Augusto decretando o fim do Império Romano do Ocidente, popularmente conhecida como “queda de Roma”[5].

3° Slide: “Século V”

Este slide serve como “um recorte do anterior”, há nele uma linha do tempo do século V, no qual boa parte do conteúdo da aula se passa; estando nele destacadas algumas datas que serão utilizadas no transcorrer da mesma. A ideia era colocar pelo menos uma data importante para cada povo que será tratado, além de datas a serem utilizadas na aula. Este slide pode ser empregado em uma possível revisão dos conteúdos.

As datas são:

410 – Saque de Roma por Alarico I, que foi destacado por se tratar da primeira vez que Roma foi saqueada e também por Alarico I ser um importante rei Visigodo, povo bárbaro que terá certa importância para a aula[6];

449 – Visita de Prisco à corte de Átila, que está no slide porque a obra de Prisco será utilizada na construção de uma nova imagem dos povos tratados na aula[7];

451 – Batalha dos Campos Catalaúnicos, que será utilizada como exemplo concreto do exposto sobre as imagens dos povos tratados[8];

453 – Morte de Átila e fim da hegemonia huna sobre os povos Ocidentais[9];

476 – Deposição do Imperador Rômulo Augusto, utilizado como ligação com o slide anterior e como exemplo da relativa fraqueza romana, que será comentada em aula[10].

4° slide: “Estereótipo”.

Este slide contém uma definição da palavra estereótipo retirada de um dicionário online. A finalidade do slide é a apresentação do termo aos alunos e uma pequena discussão sobre seu significado tanto na realidade do mesmo como na História.

5° slides: “Romanos”

Estes slides contém um gif animado de uma cena retirada do filme “Gladiador” que representa a chegada em triunfo do Imperador Cômodo a Roma. A ideia é utilizar o filme para apresentar aos alunos  o estereótipo de Roma que é amplamente propagado pela mídia, e que apresenta Roma sempre como o grande império que um dia foi, ignorando a sua decadência política e institucional, lembrando apenas da “queda” de 476.

Construção de uma nova imagem: Segundo o historiador Renan Frighetto, foi justamente no reinado de Cômodo que os problemas institucionais e políticos que já existiam no reinado do seu pai, e antecessor Marco Aurélio, se intensificaram[11]. O príncipe teria uma tendência a se colocar em uma posição superior ao Senado e ao exército, o que tornava a relação entre essas instituições mais complicada e maior a chance de um atentado contra a vida do príncipe, o que ocorreu de fato em 192. Segundo o historiador, a ascensão de Cômodo foi entendida pelos historiadores greco-romanos como o primeiro sinal de grandes mudanças no mundo, como o início de uma era de ferro que substituiria a era dourada que havia acabado com a morte de Marco Aurélio[12]. Então, pode-se dizer que, em alguns aspectos, os acontecimentos do reinado de Cômodo demonstram o início de uma crise política e institucional que seguiram até 476, no fim do Império no Ocidente. Dessa forma, podemos dizer que a imagem de Roma que se encontra, predominantemente na mídia, de um Império poderoso, começa a ruir logo no fim do século II, ou seja, o tempo de hegemonia política de Roma que se iniciou em 27 a.C corresponde a apenas metade do período denominado “Império”.

6° e 7° slides: “Hunos”

Estes slides contém dois gifs animados de cenas do filme “Uma noite no Museu”, nas quais o boneco magicamente animado de Átila e alguns soldados perseguem o protagonista e tentam matá-lo. A ideia é apresentar aos alunos, com cenas que eles provavelmente conhecem o estereótipo dos hunos como um povo extremamente brutal e sem noção de civilidade.

Construção de uma nova imagem: Lendo alguns relatos do Diplomata romano Prisco, que fez uma visita a um quartel-general de Átila no ano de 449, podemos notar que, diferente do que comumente é exposto sobre os hunos na mídia, entre estes existiam costumes que indicam que havia um tratamento de respeito com os representantes de outros povos e até mesmo com estrangeiros que lutassem junto às suas hordas. Um exemplo do exposto é que ao encontrar o líder huno, Prisco descreve que foi oferecido um grande banquete aos presentes e, enquanto Átila utilizava pratos e taças de madeira, os convidados eram servidos em utensílios de ouro e prata. Outro exemplo é descrito pelo historiador Andrea Giardina, segundo ele, Prisco descreve um encontro com um homem grego, durante essa mesma viagem, que vivia junto aos hunos e que garantiu ao diplomata que ali vivia melhor do que quando estava vivendo nos territórios romanos. Um dos motivos para tal afirmação diz respeito à vida civil, já que o homem ainda garantiu que “entre os romanos, as leis não se aplicam a todos; se o transgressor é rico, não sofre as consequências; se é pobre, é castigado, a não ser que morra antes do julgamento, entre as demoras e as enormes despesas do processo”. Assim, vemos que existia entre os hunos certa civilidade e que a imagem propagada dos mesmo não é exatamente real, e provavelmente se deve à forma como eles batalhavam, muito diferente da romana.

8° slide: “Bárbaros”

Neste slide está presente uma imagem que circulou na internet de um par de pichações contendo os dizeres “cansei de ser vândalo” e “agora sou Visigodo”. O objetivo da imagem é fazer alguns paralelos:  um entre o conceito contemporâneo de vândalo, muito provavelmente conhecido pelos alunos, e o povo bárbaro para mostrar que a conotação negativa que o termo tem hoje veio da imagem negativa desses povos propagada pela história; então será feito um paralelo entre os dois povos citados, os vândalos e os visigodos, para mostrar aos alunos que várias etnias eram englobadas pelos maus estereótipos presentes na palavra “bárbaro”.

Construção de uma nova imagem: Procópio de Cesaréia, historiador bizantino do século VI, usa as seguintes palavras para falar do rei ostrogodo Teodorico: “embora Teodorico não teve mais que o título de rei, não deixou de alcançar a glória dos mais ilustres imperadores que ocuparam o trono dos Césares”. Nessa passagem nota-se que um historiador imperial coloca um rei bárbaro como merecedor da glória atribuída aos Césares. Igualmente, em um outro momento, Procópio descreve que Teodorico havia governado com todas as virtudes de um grande Imperador, ou seja, o rei bárbaro era capaz de ter as virtudes dos líderes romanos, eles não eram apenas homens que lideravam seus povos na busca de locais para invadir e saquear.

9° slide: “Batalha dos Campos Catalaúnicos”

Este é um slide introdutório para a batalha dos campos catalaúnicos, a primeira vitória de visigodos e romanos contra os hunos, que será destrinchada nos próximos slides. A batalha foi escolhida para ser apresentada por se tratar de um evento no qual a maioria das informações passadas aos alunos nos slides anteriores se confirmam.

10° slide: “As alianças”

Neste slide está presente uma pequena representação da disposição dos exércitos na batalha, pretende-se aqui explicar melhor quais foram as alianças feitas para a batalha e reforçar a ideia de que neste momento vários dos estereótipos dos povos citados anteriormente na aula se desfazem. Os romanos não tinham tanta força a ponto de fazer frente sozinhos aos hunos; os “bárbaros” visigodos e francos se aliam aos romanos, cujos territórios outrora invadiram; e os vândalos e outros povos “bárbaros” se aliam aos hunos mostrando que ambos não eram tão incivilizados como se pensa, firmando várias alianças e não só destruindo e saqueando tudo por onde passavam[13].

11° slide: “Localização da batalha”

Este é um slide contendo uma curiosidade sobre a batalha, que pode ser uma dúvida dos alunos e que serve para mostrar a estes que a batalha não aconteceu em um mundo distante do nosso, apenas em um tempo muito diferente. Nele está presente um mapa da Europa, e marcado em marrom o local aproximado no qual a batalha se sucedeu. O local de trata das proximidades da atual Paris[14].

12° slide: “Referências”

Neste slide estão presentes as referências das informações contidas na apresentação, bem como as referências das imagens foram utilizadas.

ATIVIDADES SUGERIDAS

  1. O que você entende por estereótipo? Cite no mínimo dois exemplos que tenham sido usados em aula.
  2. Escolha um dos exemplos citados na questão anterior e responda às seguintes questões:

2a. Explique porque ele é considerado um estereótipo.

2b. Quais informações utilizadas em aula podem ser usadas para desconstruir esse estereótipo?

FONTES

Priscus, Fragmenta, 58-60: “Quando voltamos a nossa tenda, o pai de Oreste, Tatulo, trouxe um convite para um banquete as três horas em ponto. Quando chegou a hora fomos ao palácio, junto com a embaixada dos romanos ocidentais e nos deparamos no umbral do salão na presença de Átila. Os escançarios nos deram um cálice e antes de bebermos o vinho nele contido deviamos, segundo o costume huno, formular alguma saudação. Feito isso e sorvendo um pouco do vinho contido no cálice, nos dirigimos aos lugares a nós destinados no banquete. Todos os lugares estavam alinhados ao longo das paredes do salão em ambos os lados e em lados opostos e Átila se sentava no meio sobre uma poltrona; logo atrás dele havia outra poltrona e dela poucos passos levavam até o seu leito de dormir que estava coberto por lençóis de linho e cobertores ricamente bordados, da mesma forma que gregos e romanos costumam decorar os leitos das noivas. Os lugares à direita de Átila eram primeiros em honra, os da esquerda, onde nós estavamos sentados, eram somente segundos. Berico, um nobre entre os citas, se sentava no nosso lado mas próximo a Átila, estando a frente de nós Onegesio se sentou numa cadeira a direita de Átila e do outro lado, diante dele, se sentaram dois dos filhos de Átila; seu filho mais velho se sentava na poltrona mas não próximo a Átila e estava com seus olhos fixados no solo em tímido respeito seu pai. Quando todos estavam acomodados. Ele o pegou e saudou os saudou aos primeiros em importancia que, honrados pela saudação, pararam e não se sentaram até que o rei, tendo bebido o vinho, devolvesse o cálice ao escançario. Então, todos os convidados honraram a Atila da mesma forma, saudando-o e provando seus cálices; mas ele não parou de beber.
Cada um de nós tinha um escançario especial que vinha para servir-nos mais vinho quando o escançario de Átila se tivesse retirado (…). Quando este brinde terminou, os escançarios se retiraram e se colocaram mesas, suficientemente largas para três ou quatro comensais, ou até mais, junto a mesa de Átila para que cada um pudesse colocar a comida em seus pratos (…). O escançario de Atila entrou primeiro com um prato cheio de carnes e atrás dele vinham outros serviçais com pão e outros manjares, colocando-os sobre as mesas. Uma comida luxuosa, servida em vasilhas de prata, havia sido preparada para nós e para os convidados bárbaros, mas Átila não comeu outra coisa que carne num prato de madeira. Em tudo se mostrava moderado: seu cálice de madeira, enquanto que aos convidados eram dados cálices de ouro e prata. Sua roupa também era simples, mostrando apenas estar limpo…”. (In: Prisci Pinitae. Fragmenta. Ed. Fritz Bornmman. Firenze: Le Monnier, 1979)

Procopius Caesarisensis, Bella Gothica, I: “É necessário reconhecer que governou a seus súditos com todas as virtudes de um grande imperador. Manteve a justiça e estabeleceu boas leis. Defendeu seu reino da invasão dos seus vizinhos e deu a todos provas de uma prudência e de um valor extraordinários. Não cometeu nenhuma injustiça contra os seus sidiros, nem permitiu que se cometessem, exceto que permitiu que os godos se repartissem as terras que, no passado, Odoacro havia distribuido entre os seus. Enfim, embora Teodorico não teve mais que o título de rei, não deixou de alcançar a glória dos mais ilustres imperadores que ocuparam o trono dos Césares. Foi igualmente querido por godos e romanos, o que não acontece habitualmente entre os homens, que não estão acostumados a aprovar no governo aquele que não está de acordo com os seus interesses e que condenam tudo o que lhes é contrário. Depois de ter governado por trinta e sete anos e de apresentar-se como temível para seus inimigos, morreu desta maneira…”. (In: Procopius. History of the wars, books VII, ed. H. B. Dewing London: William Heineman LTD, 1962 The Loeb Classical Library IV)

 

 REFERÊNCIAS

FRIGHETTO, R. A Antiguidade Tardia: Roma e as monarquias romano-bárbaras numa época de transformações (séculos II-VIII). Curitiba: Juruá, 2012.

GIARDINA, A., comp. O Homem Romano. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

NOTAS:

[1] FRIGHETTO, R. A Antiguidade Tardia: Roma e as monarquias romano-bárbaras numa época de transformações (séculos II-VIII). Curitiba: Juruá, 2012. p. 36.

[2] Quo Vadis. Directed by Mervyn LeRoy. Performed by Robert Taylor and Deborah Kerr. USA: Metro-Goldwyn-Mayer, 1951.

[3] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 64.

[4] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 127.

[5] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 195.

[6] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 141.

[7] GIARDINA, A., comp. O Homem Romano. Lisboa: Editorial Presença, 1991. p. 12.

[8] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 148.

[9] op. cit. FRIGHETTO, R. pp.148-149.

[10] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 195.

[11] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 53.

[12] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 55.

[13] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 148.

[14] op. cit. FRIGHETTO, R. p. 148.