Mercadores: do surgimento à cultura

Fabiane Hadas

Apresentação em slides: Mercadores: do surgimento à cultura

Roteiro de discussão em sala:

A formação da burguesia medieval é negligenciada pelos materiais didáticos, ou tratada como a “mesma” burguesia que se torna industrial. Nesse material, o objetivo é fornecer o cenário de formação e suas ligações iniciais com os outros setores na sociedade, tendo como foco a Itália dos séculos XI ao XIII. O recorte escolhido corresponde a obra Mercadores e banqueiros de Jacques Le Goff, referencial para a construção do presente trabalho. Como o comércio se expandiu? Como a moeda voltou a circular? Qual a relação entre Igreja e burguesia? Qual a relação entre nobres e burguesia? E a relação deles com as artes? São perguntas que são respondidas na presente pesquisa.

O número faz referência ao número do slide, para que o professor tenha acesso de onde foi retirada a informação, e como implementá-la.

Guia para os slides

 1.Apresentação sobre o projeto: apresentar que o recorte geográfico é a Itália, e o temporal o período do século XI ao XIII.

2. Renascimento das cidades: Esse slide exige a retomada do conteúdo sobre o modo de vida baseado na economia de subsistência. Para isso, o orientação é que consulte no “Capítulo 6 – A vida material” da obra A civilização do ocidente medieval de Jacques Le Goff o subcapítulo “Uma economia de subsistência” (p. 218-223). Nele o autor apresenta que primeiro, a massa precisa suprir a necessidade de alimentação, em seguida vestimenta e por último a casa. O aumento do rendimento das atividades agrícolas está relacionado com o aumento demográfico, e não o contrário. Com novas mãos-de-obra, se ampliam as culturas agrícolas, e novas técnicas são desenvolvidas, mas o objetivo era fornecer a subsistência para todos e evitar a ociosidade. Quanto aos nobres, eram movidos pelo ideal do cristiano a caridade a esbanjar seus excedentes em doações e festas. Para tratar a transição para a economia monetária, utilizar Mercadores e Banqueiros, do mesmo autor. Na “Introdução” (p. 1-6) é desenvolvido esse aspecto, e no “Capítulo I – A revolução comercial”, o subcapítulo “A revolução industrial” (p. 7-9) aborda sobre como o comércio retornou as cidades e as suas redes de negociação.

3. O que possibilitou o crescimento das cidades: o desenvolvimento dos tópicos do slide estão no subcapítulo “A revolução industrial” (p. 7-9) da obra Mercadores e Banqueiros. Nem todos os locais conheceram os efeitos da revolução comercial com a mesma intensidade, portanto é importante relembrar o aluno sobre o recorte geográfico ser a atual Itália. Isso ocorre porque as regiões são mais/menos afetadas pelos fatores de modificação da economia, algumas estavam diretamente inseridas nas rotas comerciais, outras não se beneficiaram com o fim das invasões bárbaras, ou continuavam em guerra, limitando a mão de obra e consumidores.

4. Feiras: relacionadas com a baixa idade média, surgiram em torno dos burgos. O desenvolvimento delas está ligado com o aumento de poder dos Condes, eles promoviam as feiras, realizavam fiscalização e segurança em troca de taxas. Apontar que esse mercador era o itinerante, e que as feiras entram de declínio a partir do século XIV, por causa da insegurança causada pela Guerra dos 100 anos, e pelo surgimento do mercador sedentário. Consultar o subtópico “as feiras” em Mercadores e banqueiros (p. 14-16), nele o autor faz considerações sobre a política envolvida entre Condes e comerciantes, e o motivo do sucesso e declínio delas.

5. Principais feiras: o mapa é interessante para desenvolver sobre as rotas terrestres, fluviais e marítimas. A terrestre era precária, o transporte era difícil por causa do volume das mercadorias, a insegurança tanto por parte de bandidos como de senhores de terra, alguns chegavam a apreender todo o produto que seria comercializado, além das taxas cobradas. Portanto, eram preferíveis as fluviais e marítimas quando possível. A Itália se beneficiava por conter a maior rede de navegação interior do mundo mediterrâneo, e estar em contato com o mar. O medo no mar era a pirataria e naufrágios. Consultar Mercadores e Banqueiros no subtópico “mercador itinerante” (p. 9-16).

6/7. Analisando: é significativo introduzir o aluno a análise de fontes, ainda mais de um período tão distante do presente. A imagem em questão possui os seguintes elementos a serem tratados: o comércio, a presença de diferentes personagens e sua identificação, e por fim o cenário portuário.

8. Mercadores: espaço para desenvolver a diferença entre mercador itinerante e o sedentário. O primeiro já terá sido, de certa forma, abordado no slide 5, mas para complementar as informações é possível consultar o subtópico “II. Mercadores itinerantes” (p. 9-17) em Mercadores e banqueiros, os aspectos desenvolvidos em torno dele são as vias de transporte e as feiras. Enquanto o sedentário abre espaço para abordar o sistema de contratos e associações, e o poder político que passam a conseguir nas cidades. Mercadores chegaram a emprestar dinheiro à soberanos e para as cidades, a pagarem dívidas do Estado, constituindo papel fundamental para o desenvolvimento das cidades. Em Gênova e Veneza eles se aproximam até do papado, através de operações financeiras e comerciais.

9. Banqueiros: para a desenvoltura desse tema consultar o subtópico “IV. Progressos dos métodos nos séculos XIV e XV” em Mercadores e banqueiros (p. 26-34). Os termos mercadores e banqueiros estão associados, já que o banqueiro deriva do mercador. Apresentar sobre as Letras de câmbio, que a princípio funcionam com o “doador” fornecendo uma quantia ao “tomador”, recebia então um compromisso a ser pagado a prazo em outro lugar com outra moeda.

10/11. Analisando: mais uma proposta de análise de fonte.

12/13/14. Burguesia medieval: utilizando o conceito de Noberto Bobbio, com algumas modificações nos termos, há a descrição de quem seria a burguesia medieval. É interessante realizar o desenho da pirâmide social na louça, para sistematizar a hierarquia, e debater que com a aproximação da burguesia pelo poder econômico, eles almejam o político, e vão alcançando aos poucos se associando com os nobres. Outro conceito é apresentado, baseado no de Le Goff em Mercadores e Banqueiros.

15/16. É necessário realizar uma diferenciação entre os setores burguesia medieval e industrial. De certa forma a primeira irá originar a segunda, mas as questões em jogo são diferentes. A medieval entrou em cena “conquistando” o espaço dos nobres, pelo menos o econômico e de prestígio, seu objetivo é atingir o político também. Outro ponto que difere as duas é a relação com o povo. Pelo viés marxista, a característica mais marcante do burguês industrial é a exploração.

17. Discussão: a burguesia ainda existe no Brasil, Nobbio discute sobre isso quando aborda o termo. Sugiro levar a discussão para um sentido de que é difícil estabelecer quem é a burguesia nos dias de hoje, a que se tem mais informações é a média burguesia.

18/19. Mercadores e Nobreza: um dos modos de ingressarem na política é através da nobreza, detentora do poder. No subcapítulo “papel social dos grandes mercadores” (p. 41-46) do capítulo segundo capítulo de Mercadores e Banqueiros, Le Goff se dedica a esmiuçar essa relação. Ele trás as formas como o mercador se aproxima do nobre. O enfraquecimento deles está relacionado ao declínio da economia rural em face a economia monetária, dominada pelo burguês.

20. Mercador e Camponês: o mercador depende do produto primário camponês para a venda direta ou transformação em secundário. Portanto, essa constitui uma relação essencial para que o mercador realize suas operações. Na baixa idade média as inovações agrícolas começavam a florear, melhorando o rendimento das produções.

21. Papel social e político: o desenvolvimento da cidade está atrelado ao desenvolvimento do comércio, segundo Le goff. Como já apresentado, o patriciado buscava poder político para atingir o prestígio social.

22. A mentalidade do mercador: são quatro os pilares da mentalidade do mercador: o dinheiro, a ética mercantil, a influência social e a dignidade. O amor ao primeiro é fundamental, já que o objetivo é atingir a fortuna. A ética é pautada por questões mundanas, laicas. O mercador precisa ser prudente, ter senso dos seus interesses, desconfiar do outro, precisa se organizar, ser metodológico, em resumo, deve ser calculista. A influência social está relacionada a querer prosperar nos negócios. E por fim, devem orgulhar-se da sua dignidade, não serem brutos, mas não tão doces, a postura deve ser séria. Conferir Mercadores e banqueiros, subcapítulo “III. A mentalidade do mercador” (p. 84-88).

23/24. Mercadores e Igreja: existem dois movimentos da Igreja perante os mercadores, o de reprovar e o de se associar. No “Capítulo 3: A atitude religiosa e moral” Le Goff apresenta esses dois movimentos. Como consta no slide, eles eram julgados por praticarem o lucro, a usura, e se associarem com os infiéis muçulmanos (p. 71-76). É interessante apontar que parte dos banqueiros e mercadores eram muçulmanos, um dos motivos é que a religião deles não condena esse tipo de prática. Por outro lado, desde a Alta Idade Média alguns Papas protegem os comerciantes, como o Gregório VII que ordena Felipe I a devolver as mercadorias apreendidas, sob risco de excomunhão (p. 77-84)

25. O mercador e o Renascimento: Consultar o subtópico “O mercador e o Renascimento” (p. 100-101). Le Goff aponta o Renascimento como um espaço de fuga da Igrejas Católica, já que a individualidade é compatível com o momento.

26/27. Educação: Antes limitada a Igreja e aos nobres, o mercador tem sede de conhecimento. Os pontos colocados sobre a laicização da cultura foram propostos por Le Goff, em Mercadores e banqueiros no “Capítulo IV: o papel cultural” (p. 103-110). O primeiro é a criação de escolas laicas, com a obtenção do direito de abrir escolas, os mercadores criam para que os filhos recebessem as noções básicas para o futuro da profissão. Em seguida, a escrita é fundamental para registrar as ações, sendo o seu ensino o papel principal nas escolas primárias. O mesmo com o cálculo, os alunos aprendiam com instrumentos práticos, como o xadrez. A geografia, além de fornecer suporte para localização, algumas escolas produziam portulanos, cadernos com descrições e ilustrações de navegação, e instruções sobre o modo de vida do local. As línguas vulgares permita o vendedor entrar em contato com os clientes, já que a língua oscilava conforme os centro de troca. Em Champagne o francês era de extrema importância, depois o italiano assume essa posição. A história servia não somente para enaltecer o papel dos mercadores na cidade, mas compreender o contexto em que viviam e seus personagens. Os manuais de comércio possuíam “descrições sobre mercadorias, os pesos e as medidas, as moedas, as tarifas aduaneias, os itinerários, calendários, fórmulas de cálculo, […]”, os mais famosos são italianos. Uma das formas de racionalização que se difunde é contagem do tempo. Nas regras do jogo anterior, o religioso, a Igreja era eterna, mas o novo ritmo de existência não pertence mais a ela. Medir o tempo se torna fundamental para o controle dos negócios. E por fim, a cultura mercantil é uma cultura de classe, já que nem todos eram beneficiados com ela. As escolas eram voltadas para filhos de banqueiros e mercadores, para que aprendessem a conservar os segredos do controle e prosperidade econômica.

28. Mecenato: inicialmente a encomenda ou compra de uma obra era vista como uma fonte de lucro. Era também “uma manifestação tradicional de riqueza e de posição social o costume de proteger os artistas, comprar suas obras, contratá-los para trabalhar em igrejas ou edifícios públicos”. Com a educação e o acesso a cultura artísticas, os mercadores não apenas queriam pelo seu luxo, mas por apreciarem coisas belas. Outro ponto é que a arte era um meio de diversão para o povo, controlar ela era um modo de exercer influência sobre o povo. Consultar Le Goff, o subcapítulo “O mecenato dos mercadores” (p. 111-114).

29. A Arquitetura: Segundo Le Goff, duas esferas se desenvolvem: a arquitetura civil pública e a casa patrícia. Antes, era limitada a residência senhorial, o castelo, edifícios religiosos e a igreja. No começo o estilo militar da Alta Idade Média é empregado, em seguida desenvolvem um modelo próprio, mais artístico e destinado a manter o segredo dos ofícios. Na Itália a arquitetura militar se manteve, por causa do medo constante de invasões. Consultar Mercadores e banqueiros, subtópico “A cultura burguesa” (pg 117-118). A imagem é o Pazzo dos Medicis em Florença, que demonstra o estilo de arquitetura militar.

30. A pintura: empregadas em capelas privadas, nas Igrejas, as paredes eram repletas de afrescos. Outro modelo é o retrato, assim como os nobres e clérigos, o negociados quer imortalizar sua imagem, de modo realista, para ser reconhecido. Consultar subtópico “A cultura burguesa” (pg 118-120). O quadro é do artista Van Eryck, nele está Arnolfini e sua mulher, o burguês representado era um importante comerciante. A imagem pode ser trabalhada no questionamento para os estudantes de quais elementos denunciam se ele é burguês.

31/32. O luxo: uma das características que marcam o comerciante. Ele estava nas pequenas coisas, mobiliários, tecidos, tapeçarias, e foi duramente criticado pela Igreja. Até a alimentação se difere: incrementam frutos mediterrâneos na dieta, buscam receitas e pratos estrangeiros, consomem o caríssimo açúcar. O vestimento das mulheres era soberbo, incrementado por pérolas e ouro nos vestidos e cintas. Consultar subtópico “A cultura burguesa” (p. 120-124).

33. Mulheres: nesse último tópico, utilizando trechos do verbete “mulheres” da obra Dicionário da Idade Média de H. R. Loyn, é o espaço para trazer as mulheres como sujeitas da história. Na Alta Idade Média, a maioria das mulheres viviam e morriam sem história, e a expectativa de vida era muito inferior à dos homens. A partir do século XI ganham prospecção nas possibilidades de emancipação.

Materiais auxiliares:

<https://concretoemcurva.com/2016/06/29/palacios-do-renascimento/>

<http://www.vivatoscana.com.br/2016/09/visita-uma-casa-torre-em-san-gimignano.html>

<http://www.vivatoscana.com.br/2014/03/as-obras-primas-do-palazzo-medici.html>

<http://www.museusdeflorenca.com/capela-dos-medici/>

<http://www.wikiwand.com/pt/Bas%C3%ADlica_de_S%C3%A3o_Louren%C3%A7o>

 

Bibliografia:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. Brasília : Editora Universidade de Brasília, 11a ed., 1998.

LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1995. 2v., il. (Nova historia, 14/15). ISBN 9723309904

LE GOFF, Jacques. Mercadores e Banqueiros. 1. ed.São Paulo: Martins Fontes, 1991.

LOYN, H. R. (Henry Royston). Dicionario da Idade Media. Rio de Janeiro: J. Zahar, c1990.