Universidades Medievais

O NASCIMENTO DAS UNIVERSIDADES MEDIEVAIS: ASPECTOS SOBRE A CULTURA DE SABER NA BAIXA IDADE MÉDIA OCIDENTAL.

Eliane Veríssimo de Santana

(PGHIS/UFPR/NEMED)

“No imaginário produzido pela cultura de massa atual a Idade Média é percebida
como um refúgio frágil e infantil”

(Michel ZINK)

Se a simples invocação da palavra traz, em nossa subjetividade, um mundo amplo, qual a imagem que invocamos quando nos referimos ao medievo? Essas imagens trazem, por vezes, elementos proveitosos para o ensino da História. Em alguns casos porém, observamos a necessidade de ampliar esse imagético construído, confrontando alguns padrões preestabelecidos que dificultam a compreensão da disciplina.

Como professores escutamos reverberar desde a terminologia errônea de “Idade das Trevas” até representações carregadas de grande apelo midiático e ficcional, influenciado por romances fantasiosos e séries televisivas. Ambos os casos propõe facetas que divergem consideravelmente das apresentadas nas fontes conhecidas e analisadas pelos especialistas. A discussão do conceito – e do “pré” conceito – sobre o medievo perpassa também pelo conteúdo apresentado nos livros didáticos de história, e pela forma como estes abordam o período aqui citado.

É portanto na tentativa de por em discussão a interpretação e o conceito do período medieval que pretendemos, ao longo do texto, analisar aspectos periféricos dessa sociedade, abordando a existência de uma rica escolaridade. Nas páginas seguintes, o leitor encontrará aspectos da cultura de saber existente na Idade Média. Obviamente, considerando o amplo período que compõe o medievo, e o espaço que aqui dispomos, que impede de analisar de maneira detalhada todos os pontos existentes sobre o tema, escolhemos abordar as principais características do cultura intelectual da Baixa Idade Média, focando portanto no nascimento das Universidades Medievais.

Encontramos no Dicionário Temático do Ocidente Medieval, a definição do citado período:

“A Idade Média não existe. Este período de quase mil anos, que se
estende da conquista da Gália por Clóvis até o fim da Guerra dos Cem
Anos, é uma fabricação, uma construção, um mito, quer dizer, um
conjunto de representações e de imagens em perpétuo movimento,
amplamente difundidas nas sociedades, de geração em geração (…)”

AMALVI, Christian. “Idade Média”.

Antes da tentativa de afirmar a inexistência da Idade Média, o verbete acima citado pretende demonstrar a construção histórica da ideia do medievo. Esta foi inicialmente criada e repetida, até inicio do século XX, tendo como base concepções distantes do período em si, ou seja, concepções elaboradas por estudiosos não necessariamente especializados no citado contexto, anexando assim, conceitos preestabelecidos, criando mesmo na historiografia, a representação de uma época histórica ligada ao mito e a obscuridade. Em outras palavras, a inicial conceituação da Idade Média contém perspectivas relacionadas à contemporaneidade de seus iniciais definidores.

Jacques Le Goff afirma, em seu livro O Imaginário Medieval, que após o século XV, a cultura humanista constrói uma periodização histórica na qual o chamado Renascimento sucede cronologicamente a Idade Média. Esse período renascentista é elaborado de forma a contrastar positivamente com o período anterior. O termo Idade Média tem portanto, inicialmente um caráter pejorativo, culturalmente inferior ao período posterior – a Idade Média\ ausência de cultura\ Idade das Trevas em comparação com o Renascimento\ Cultura\ Luzes.

Assim, o conceito de medievalidade tem seu inicio ligado a uma inferiorização da “cultura da humanidade” produzida nesse período. Essa ideia ainda sobrevive, mesmo com o auxilio da História Social, e pode ser observada quando a terminologia “medieval” é utilizada como sinônimo de regresso ou falta de cultura. Equivoco.

Renascimento das cidades medievais

O termo Renascimento, mesmo sendo utilizado para descrever o processo de crescimento dos centros urbanos medievais, não é porém a melhor terminologia para designar essa questão, uma vez que “renascimento” implica renascer, uma nova existência de algo que havia desaparecido anteriormente, o que não pode ser afirmado quando nos referimos a cidade medieval. Feito esse parêntese explicativo, afirmamos que a utilização do termo será mantido apenas para caráter didático.

No século XII, os principais centros urbanos da Europa Ocidental sofrem uma série de transformações em suas estruturas econômica, social, política e cultural que modificam sua dinâmica de funcionamento. A esse conjunto de alterações que permeiam esse século, e que estão intimamente ligadas ao processo de desenvolvimento material no qual a cristandade latina encontra-se, recebe a denominação de Renascimento das Cidades Medievais. Essas emergem-se como fortes centros de produção econômica e cultural que influenciará na formação de novas instituições medievais.

Esse movimento engloba mudanças significativas nos aspectos religiosos, culturais e artísticos, que passam a adquirir um caráter eminentemente urbano, além de aspectos físicos, uma vez que a cidade passa a estabilizar-se fisicamente, optando em sua maioria, pela proteção de muralhas. Esse aspecto físico, contribui para uma institucionalização de seu espaço político e social, constituindo na cidade uma comunidade produtiva e organizada, com características corporativas, culturais e intelectuais. Concomitante com essas organizações, surgem aspectos identitários que irão caracterizar e diferenciar essa ou aquela cidade. Assim, se inicialmente esses centros urbanos são definidos principalmente pelos seus perímetros e perspectivas físicas, que o separam do exterior não-urbano, no decorrer do século XII essas cidades irão desenvolver uma identidade que as diferenciam dos demais centros em crescimento, elaborando estruturas físicas e culturais, criando uma forma de consciência urbana particular para cada localidade.

Cabe salientar que embora os fatores de cunho econômico e demográfico tenham sido essenciais no desenvolvimento desse fenômeno, pretendemos dar maior atenção a seus aspectos culturais,  pois consideramos cruciais na formação do pensamento que, no século XIV, constituirá um dos principais elementos que levam a crise da cristandade latina.

É nesse sentido que pretendemos analisar as instituições educacionais que surgiram durante esse processo de renascimento citadino, assim como a peculiaridade do pensamento resultante dessas instituições, que permearam vários aspectos desses espaços em ascensão. Em meio a esse contexto de efervescência, destacamos o nascimento e a institucionalização das Universidades Medievais, que eram apoiadas financiadas por autoridades eclesiásticas e laicas, e que constituíram um dos grandes legados da sociedade medieval para os tempos posteriores.

As Universidades Medievais

Concomitante a mudança nos centros urbanos, a forma de escolarização medieval também sofre transformações. Até o século XI a prática educacional estava relegada as escolas monásticas. No século XII, porém, esse cenário muda, e as escolas capitulares, canônicas e episcopais passam a constituir os núcleos deformação de saber, desenvolvendo suas atividades no espaço citadino. A Catedral era seu local de funcionamento, sendo também conhecidas como escolas catedralícias. Importa salientar que essa mudança trás também uma certa diversificação no corpo discente, uma vez que desvincula a escolarização da obediência monástica. Desse período, a Escola de Chartres pode ser citado como uma das mais notáveis, sendo o filosofo Pedro Abelardo um dos nomes mais expressivos, seja pelo seu pensamento filosófico ou por sua história. O método de ensino utilizado nessas escolas baseava-se em exercícios – lectio, a quaestio e disputatio – e sessões públicas, que objetivavam o pensamento prático constante, além de um processo educativo ligado ao espírito.

Abelardo e Heloísa no manuscrito Roman de la Rose, século XIV. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Helo%C3%ADsa_de_Argenteuil#/media/File:Abelard_and_Heloise.jpeg

Abelardo e Heloísa no manuscrito Roman de la Rose, século XIV. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Helo%C3%ADsa_de_Argenteuil#/media/File:Abelard_and_Heloise.jpeg

As Universidades Medievais derivam portanto, da multiplicação e desenvolvimento dessas escolas urbanas, concomitante a efervescência cultural, intelectual e citadina. Além disso, encontramos no final do século XII e início do XIII uma crise escolar, causada pelo aumento da população estudantil e pela necessidade de adaptação dessas instituições aos novos métodos de ensino e conteúdos que surgiam na Cristandade Latina.

Essas instituições recebem apoio tanto das autoridades religiosas – o Papado – quanto das autoridades laicas – reis e Imperadores, e ao longo do século passam a ser, assim como as Catedrais, símbolos de orgulho das cidades em expansão. Nessas instituições, o método de aprendizagem permanece baseado no modelo utilizado anteriormente nas escolas, recebendo porém especificações. Mais tarde analisaremos com maior cuidado este método, denominado Escolástico. Por ora, ressaltamos que esse modelo transcende ao espaço de discussão das universidades e alcança formas de expressão junto a diversas manifestações culturais da sociedade do medievo.

Mas como funcionavam essas Universidades?

O especialista em história da filosofia medieval Etienne Gilson define essa instituição como:

Universitas, Universidades, não designa, na Idade Média, o conjunto
das faculdades estabelecidas numa mesma cidade, mas o conjunto das
pessoas, mestres e alunos, que participam do ensino dado nessa
mesma cidade”

GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média.

Representação do professor e seus alunos em Paris. Grandes Chroniques de France. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Medieval_university#/media/File:Philo_mediev.jpg

Representação do professor e seus alunos em Paris. Grandes Chroniques de France. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Medieval_university#/media/File:Philo_mediev.jpg

 

Portanto, diferente do espaço centralizado e dotado de espaços físicos, como observamos hoje, a universidade medieval constituía-se, antes de tudo, pelo conjunto de indivíduos – professores e estudantes – que se reuniam e participavam de atividades educacionais nas cidades, que atuavam como centro receptores desse corpo docente e discente proveniente de vários locais da Cristandade Latina.

Vale lembrar que o termo Universitas designa, nos séculos XII e XIII, corporações, sejam elas de professores, estudantes, comerciantes, etc. Esses se associavam com o intuito de exercer uma ocupação em comum e proteger os direitos e benefícios dessa ocupação. No caso das Universidades, a designação utilizada no medievo era: Universidade de Mestres e Estudantes; Universidade de Estudos, etc.

Com o aumento do número de mestres e estudantes ligados as universidades, estes observam a necessidade da criação de ofícios que protegessem os interesses desses grupos. Como afirmamos anteriormente, a atitude de união de determinado grupo, para a sua defesa e proteção, não é exclusiva aos homens de saber, porém, relacionada com o sistema educacional era a primeira vez que esse fenômeno acontecia nessa sociedade. Essas corporações estudantis auxiliavam no desenvolvimento de hábitos e métodos do trabalho intelectual, assim como na proteção dos discentes e mestres frente a incidentes que ocasionalmente ocorriam nas cidades.

Ao longo do século XIII, essas corporações de estudantes irão obter maior autonomia, contribuindo para a organização de greves e exílios universitários (como as de 1219 e 1231 em Paris), assim como o direito de conceder a licentia docendi a professores escolhidos pelos mestres das Universidades. Essas atividades auxiliam na formação da consciência unitária desses homens, que se identificam não apenas como pertencentes a mesma instituição educacional, mas também ao grupo urbano de detentores de cultura erudita.

Em razão da escassez de documentos, é difícil datar precisamente quando e qual o local de nascimento da primeira Universidade medieval, mas podemos elaborar algumas considerações.

Para a instituição de ensino ser considerada como uma Universidade, era necessário possuir pelo menos um curso de caráter superior – faculdade – que poderia ser Medicina, Teologia ou Direito – inicialmente apenas Direito Canônico, depois sendo oferecido também o Direito Romano.

A historiografia costuma dividir o aparecimento das universidades em três modalidades: as consuetudinárias, que surgem a partir de uma cultura ou costume de estudos já existentes nas cidades, como a Universidade de Paris (1170) e Bolonha (1088); as criadas por governantes ou pontífices como as de Nápoles (1224) e Toulouse (1229) ou por migração como a de Oxford (1096) e Cambridge (1231), os modelos mais referenciados foram o parisiense e o bolonhês.

A Universidade de Bolonha foi a primeira a se formar tendo como base a existência de um corpo de alunos e professores regularmente organizado, porém esta só criou um curso de caráter superior em 1352, sendo antes um centro de estudos jurídicos. Além disso, não havia um reconhecimento por parte das autoridades, sejam espirituais ou temporais, como escola de curso superior. A Universidade de Paris é considerada pela historiografia como a primeira instituição medieval com caráter de ensino superior. Importa salientar a rápida difusão dessas instituições: entre 1200 e 1400, constituíram-se no Ocidente Medieval aproximadamente 52 universidades.

Mapa das Universidades medievais. In: SHEPHERD. William R. Historical Atlas, New York, Henry Holt and Company, 1923. (Domínio Público). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_medieval#/media/File:Map_of_Medieval_Universities.jpg

Mapa das Universidades medievais. In: SHEPHERD. William R. Historical Atlas, New York, Henry Holt and Company, 1923. (Domínio Público). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_medieval#/media/File:Map_of_Medieval_Universities.jpg

 

A vida do universitário medieval

Discorreremos aqui sobre um pouco da trajetória de um estudante universitário medieval.

Inicialmente, destacamos que não havia uma homogeneidade em relação à idade necessária para iniciar o estudo universitário. O que sabemos é que os estudantes que cursavam a Faculdade de Artes eram em sua maioria muito jovens. Outra lacuna enfrentada pelos historiadores refere-se a bagagem intelectual que esses estudantes possuíam no momento de entrada na Universidade. No medievo, não encontramos a estratificação educacional tal qual observamos hoje em dia em nosso sistema de ensino. Embora boa parte dos estudantes universitários medievais possuíssem qualquer bagagem de leitura e escrita, os quatro primeiros anos dentro da instituição universitária possuía um caráter semelhante a nosso ensino fundamental e médio.

A primeira etapa necessária para o discente universitário do medievo era adentrar na Faculdade de Artes. Tendo em média 14 a 20 anos, nesse espaço os alunos recebiam lições de gramática e lógica aristotélica. Essa Faculdade era herdeira das escolas dialéticas do século XII, e a duração do curso era de aproximadamente seis anos, sendo que os primeiros três anos o estudante apenas escutava as lições dos mestres, tornando-se ais ativos depois desses primeiros anos de estudo.

Para receber o título de bacharel em artes o estudante dessa faculdade, por exemplo, deveria submeter-se a vários exames. Em dezembro o estudante passavam pelas responsiones, onde o aluno deveria sustentar um debate com o mestre. Passando esse estágio, se aprovado, o estudante era admitido no examen determinantium ou baccalariandorum. Neste o aluno deveria provar para uma série de mestres que estava de acordo com as prescrições exigidas pelo estatuto da universidade. Apenas após esses dois exames, durante a Quaresma era realizada a determinatio, na qual o futuro bacharel deveria ministrar cursos para demonstrar sua aptidão para continuar a carreira universitária.

Após essa etapa, o estudante que recebia o título de bacharel, poderia escolher, dentre dos cursos oferecidos pela Universidade, a areá que pretenda seguir. Nos cursos de Medicina e Direito, o estudante possuía, geralmente de 20 a 25 anos. A duração desses cursos era de aproximadamente seis anos.

Para se tornar um Teólogo, a carreira universitária era um pouco mais longa. Também para este, havia o pré requisito de cursar a Faculdade de Artes. Após os seis anos nessa faculdade, o estudante era submetido a um teste oratório e, obtendo exito, recebia o título de bacharel em artes. Na sequência da formação, o estudante passava a ministrar lições cursivas sobre a lógica aristotélica, recebendo lições sobre demais obras do estagirita. Apenas após a conclusão dessa segunda fase de estudo é que o universitário obtinha a licenciatura, que permitia que ele inciasse uma série específica de disputas que possibilitariam, após a aprovação, cursar a Faculdade de Teologia.

Após ser aceito por um mestre, a quem o estudante deveria acompanhar até o término dos seus estudos, o universitário medieval iniciava o curso superior de Teologia, que possuía a duração aproximada de quinze anos. A idade mínima necessária para iniciar os estudos em teologia era de 35 anos. A primeira etapa desses estudos consistia em receber lições sobre a bíblia durante quatro anos, além de estar presente em todas as disputas realizadas na Faculdade. Em seguida, durante dois anos, o aluno recebia lições sobre as Sentenças de Pedro Lombardo. Além dessas obrigações, o estudante deveria assistir aos atos solenes e religiosos da universidade e ministrar, pelo menos uma vez ao ano, sermões. A conclusão do curso era marcada por uma série de questões e comentários realizada por quatro mestres. Se aprovado, o aluno receberia a licença, pronunciava uma aula inaugural na faculdade e recebia as insignias de sua graduação.

As disciplinas e os textos utilizados nessas instituições de ensino dependiam da Universidade e do curso pretendido. A Universidade de Paris possuía como estrela a faculdade de Teologia. Nesta, os estudos eram concentrados em Aristóteles, além da Bíblia. Em Bolonha estudava-se Cícero e Ptolomeu, além das decretais de Gregório IX, uma vez que essa Universidade se destacava pelo curso de Direito. Para os cursos de Medicina os textos fundamentais eram os referentes as Ars medicinae, que se constituía de obras reunidas no século XI. Assim como os conteúdos, os exames de conclusão também dependiam da Universidade e do curso.

Ressaltamos que todo o estudo desses homens de saber medievais era baseado em um método que facilitava a esquematização do aprendizado: o Método escolástico. Falemos um pouco mais sobre esse método.

O Método.

O método escolástico – a expressão escolástica deriva de schola – constitui- se de uma técnica argumentativa de ensino que propõe expor de forma objetiva temas de cunho científico, teológico ou filosófico, baseando-se na compilação do conhecimento já existente. Elementos ligados à gramática e a conceituação precisa das palavras, a dialética e a utilização de autoridades bíblicas e históricas, formam o núcleo de seu desenvolvimento no ambiente universitário medieval.

A aplicação desse método nas universidades medievais desenvolve-se inicialmente com a lectio, já utilizado nas escolas anteriores, que constituía na leitura e comentário da obra de forma sistematizada e atrelada à análise conceitual das palavras, e a expositio. Essa essas duas ficavam a cargo do mestre. Desses exercícios derivaram os comentários das obras estudadas, de Aristóteles aos Padres da Igreja.

Logo iniciava-se a quaestio, caracterizada por discussões e debates; em seguida, a disputatio, em que os alunos expunham seus pontos de vista para o mestre. Desse método, derivam o gênero literário das quaestiones, as questões medievais. A Suma Teológica de Tomas de Aquino, professor da Universidade de Paris, talvez seja a expressão mais famosa dessas questões medievais.

Representação de Tomás de Aquino. O triunfo de Tomás de Aquino de Andrea di Bonaiuto. Século XIV. Santa Maria Novella, Firenze. Arquivo pessoal

Representação de Tomás de Aquino. O triunfo de Tomás de Aquino de Andrea di Bonaiuto. Século XIV. Santa Maria Novella, Firenze. Arquivo pessoal

Prima pars secunde partis Summe Theologie beati Thome de Aquino. Nápoles, 1484. Disponível em: http://weblioteca.uv.es/cgi/view.pl?source=uv_ms_0395

Prima pars secunde partis Summe Theologie beati Thome de Aquino. Nápoles, 1484. Disponível em: http://weblioteca.uv.es/cgi/view.pl?source=uv_ms_0395

Esse modelo de ensino não demorou a ser difundido para a maioria das instituições de ensino medievais. Por ser um método que ultrapassa o simples aprendizado mecânico, visando a construção de um caráter reflexivo e autônomo nos estudantes, tanto os exercícios que constituem esse método, assim como a utilização da dialética e da análise conceitual da gramática influenciam na formação dos universitários, tornando-os ativos e independentes em suas reflexões. No século XIII esse método encontra seu ápice de utilização, sendo considerado como a primeira forma sistematizada de compêndio do pensamento cristã.

A função do conhecimento.

Por fim, após conhecermos alguns aspectos da cultura universitária medieval, podemos nos questionar de que forma esses saberes reverberavam na sociedade em questão. De inicio, ressaltamos que a cultura de caráter erudito, como as existentes nessas instituições, era um privilégio de poucos. Aqueles que estudavam, no século XIII pertenciam, em sua maioria, a ordens religiosas, ou a famílias nobres. Mas o conhecimento produzido por esses homens, difundia-se de várias formas nas sociedade.

Para entender esse aspecto, ressaltamos que a sociedade Medieval Ocidental condenava a obtenção de saberes que não possuísse aplicação prática na sociedade. A ideia de uma cultura desinteressada, na qual a única finalidade do estudo fosse o conhecimento por si só, ou o prazer na obtenção dos saberes, e não o exercício prático era inconcebível para os homens do Medievo Latino.

O conhecimento produzido nessa instituição expandia-se mesclando-se em vários aspectos da vida do homem medieval. Mas, considerando que boa parte da população não tinha acesso à essa cultura letrada universitária, como esse conhecimento chegava aos homens iletrados? A resposta pode ser encontrada em várias formas de expressão cultural e artística que atinge o grande público. Sermões, estátuas, prédios. O conhecimento produzido no interior da universidade era perpassado por meio de uma arte propedêutica, tencionando atingir a parcela da população que não tinha acesso a cultura letrada. A Catedral medieval, por exemplo, é uma construção física planejada de acordo com o conhecimento filosófico escolástico. A grandeza divina é representada
através desses edifícios. Uma Suma em forma de monumento.

Além desse aspecto, o pensamento universitário auxiliava na construção de teorias políticas que defendiam a superioridade do Papado ou dos poderes temporais. Esses dois poderes – espiritual e temporal – buscavam argumentações teóricas que auxiliassem em sua legitimação: o poder temporal buscava no direito romano a contribuição para seu fortalecimento, enquanto a Instituição Eclesiástica fomentava-se inicialmente no desenvolvimento do direito canônico e da teologia, e posteriormente também no direito romano. Para tanto, esses dois poderes – eclesiástico e laico – esforçam-se para a construção de estatutos jurídicos à instituição universitária, visando a proteção dos direitos desses estudantes e, consequentemente, o desenvolvimento dessas argumentações. Bulas papais, escritos teóricos, documentos régios e imperiais são exemplos de textos oficiais fundamentados no conhecimento produzido nas universidades.

Considerações finais.

“Se há que restaurar algo da Idade Média, é a ambição universitária,
suas liturgias, sua independência e seus rituais. É preciso restabelecer
seus privilégios devolvendo-as à sua vocação primeira, a abertura
universal, a discussão argumentada, a crítica dos falsos prestígios e
dos verdadeiros poderes.”

 LIBERA, Alain de. Pensar na Idade Média.

Ainda hoje, o estudo da Idade Média não esta totalmente desvinculado das concepções depreciativas ligadas a estagnação e ao obscurantismo, mas quando analisamos o rico aspecto cultural desse período, percebemos a preocupação dos homens de saber com a educação, relegando aos séculos posteriores sumas, filosofia, eologia e, sobretudo, a instituição universitária. Ecos existentes na nossa instituição contemporânea: o grêmio universitário, os privilégios estudantis, os rituais que acompanham a formação universitária, tem sua origem naquela sociedade.

Por fim, afirmamos que para a escrita dessas linhas tomamos como inspiração uma característica existente da universidade medieval: a de compartilhar com os ambientes externos de nossa instituição de formação o conhecimento obtido em nossas pesquisas. Por tanto, vemos a importância de por em discussão esse caráter periférico da cultura do medievo, na intenção de desconstruir uma imagem erroneamente disseminada.

Referências:

AMALVI, Christian. Idade Média. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. Vol. I. Bauru/São Paulo: EDUSC/Imprensa Oficial, 2002.
DE BONI, L. Razão e mística na Idade Média. Rio de Janeiro: Universita, 1988.
DE BONI, Luis Alberto. O Surgimento das universidades e a questão do poder. In: Uma História da Filosofia: Verdade, Conhecimento e Poder. Rio de Janeiro 1988 v II.
DUBY, Georges. Idade média, idade dos homens. São Paulo : Companhia das Letras, 1998.
DUBY, Georges e LACLOTTE, Michel (coord.). História Artística da Europa. A Idade Média. Tomo II. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1998.
GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
JANOTTI, Aldo. Origem das Universidades: singularidade do caso português. São Paulo: Edusp, 1992.
LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. Trad. Antonio de Padua Danesi. SP: Martins Fontes, l993.
LE GOFF, Jacques. O Imaginário Medieval. Lisboa: Estampa, 1994.
LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Lisboa: Gradiva , 1983.
LIBERA Alain de. Pensar na Idade Média. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1999.
SANTANA, Eliane Veríssimo. Ca insegna quali virtù ei príncipi debbiano avere: a contenção régia por meio das virtudes no tratado De Regimine Principum de Egídio Romano / Dissertação de Mestrado – Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2013.
SANTANA, Eliane Veríssimo. ZLATIC, Carlos Eduardo; Homens de cultura na Baixa Idade Média ocidental: aspectos da formação erudita. In: Vozes, Pretérito & Devir:
Dossiê Temático: Intelectuais, historiografia e literatura . Ano II, Vol. III, Num.I Teresina:
2014. pp. 132-149.
ULLMANN, Reinholdo Aloysio. A Universidade Medieval. 2 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2000.
VERGER, J. Cultura, ensino e sociedade no Ocidente nos séculos XII e XIII. Bauru: Edusc, 2001
VERGER, J. Homens e saber na Idade Média. Bauru: Edusc, 1999.
ZINK, Michel . Projection dans l’enfance, projection de l’enfance: le Moyen Age au cinema. Cahiers de la cinematheque, nº 42-43, 1985, p. 6.