Castelos

Carlos Eduardo Zlatic.

(PGHIS/UFPR/NEMED)

Quais as primeiras imagens que lhe saltem a mente ao ouvir as palavras: Idade Média? Dentre um amplo conjunto de possibilidades cabíveis para essa proposta – guerra, cavaleiros, Cruzadas, peste negra, etc. –, castelo seria, certamente, uma presença naquele quadro imaginado.

Na imagem, o Castelo de São Jorge, atração turística de Lisboa – Portugal – e sua posição elevada no horizonte da cidade. Ainda que o castelo tenha perdido muito de sua materialidade medieval após as obras de restauração de 1938-40, ele continua sendo o símbolo de que a imagem dos castelos continuam mantendo sua aura de poder e despertando o interesse dos turistas. Fotografia: Carlos Eduardo Zlatic.

Na imagem, o Castelo de São Jorge, atração turística de Lisboa – Portugal – e sua posição elevada no horizonte da cidade. Ainda que o castelo tenha perdido muito de sua materialidade medieval após as obras de restauração de 1938-40, ele continua sendo o símbolo de que a imagem dos castelos continuam mantendo sua aura de poder e despertando o interesse dos turistas.
Fotografia: Carlos Eduardo Zlatic.

As robustas e impenetráveis fortalezas são inseridas em nossa mentalidade desde a infância até a fase adulta: nos contos de fadas, os desenhos animados, os jogos virtuais, as aclamadas séries de TV, os grandes épicos do cinema hollywoodiano. Todo esse conjunto de referências nos leva a ter o castelo em nossos horizontes imaginário sobre o período medieval, e realmente não é um engano assim faze-lo, já que essas construções foram sim um importante símbolo do poder de reis e nobres ao longo da Idade Média.

Faz-se importante frisar que nem o interesse, nem mesmo a aura de poder dessas grandes fortalezas, desapareceram com o fim do período medieval e se arrastam até os nossos dias. Essa curiosidade e encanto em torno dessas construções fazem delas importantes pontos turísticos em cidades como Lisboa, Toledo ou Paris – onde o próprio Museu do Louvre mantem uma ala com as ruinas de seu período medieval. E mesmo no Brasil, onde sequer tivemos Idade Média ou feudalismo, podemos constatar a presença de castelos construídos na contemporaneidade, a exemplo do Castelo Di Bivair (Carnaúba dos Dantas – RN) ou o Castelo do Batel (Curitiba – PR), demonstrando que a atração por esses edifício transpassou a barreira do tempo e as fronteiras da Europa.

Esse conjunto de imagens que a contemporaneidade forma em nossa mentalidade acerca dos castelos e da própria Idade Média não deve ser menosprezado ou tomado como aspecto pouco relevante para o entendimento do passado. As visões fantasiosas acerca dos tempos medievais não são um problema em si – tendo em vista que a imaginação se constitui como aspecto importante de nosso desenvolvimento humano –, mas sim o desconhecimento acerca da realidade histórica que precedeu nossos dias, ignorância essa que incapacita qualquer possibilidade de oferecer um contraponto historicamente embasado a um quadro ficcional. Constatado esse problema, e retornando ao nosso objetivo, surgem as perguntas: O que foi o castelo medieval? Que funções ele possuía naquele contexto? Vejamos:

“O castelo é primeiramente uma casa, uma residência aristocrática que abriga um homem que é um senhor, um dominus, com sua família, com as pessoas de sua domus, parentes, oficiais, familiares, criados. É necessariamente, portanto, uma grande morada: isso já a distingue de outras. Mas o castelo tem, além disso, o papel de um signo, ele deve materializar, tornar sensíveis, o lugar e a categoria ocupados por quem o habita e do qual é o senhor. Este papel é materializado por suas dimensões, mas também por sua situação geralmente elevada, dominante, e pela demonstração de poder contida nas fortificações, torres, portas e ameias” (PESEZ, 2006, p. 153).

Portanto o castelo não era o local de uma longa aventura entre corredores com armadilhas, tesouros, seres mágicos e indivíduos presos em masmorras. Eram habitações, locais onde residiam os nobres e a partir de onde emanava seu poder sobre as terras dominadas por ele. Pautando-se dessa realidade histórica, esse edifício será abordado em três características centrais para seu entendimento: importância militar; sua função residencial; e o aspecto simbólico sustentado por seus muros.

O aspecto militar e suas transformações

O primeiro ponto importante a ser abordado quando falamos dos castelos é acerca da sua inserção na Idade Média. Ora, o castelo não surge pronto, tão pouco permaneceu o mesmo durante os mil anos do medievo; possuiu edifícios que o precederam e foram a base para seu nascimento e, mesmo depois de surgir, o castelo experimentou profundas alterações arquitetônico-militares.

Antes do ano mil ainda era pouco usual o conceito de residência fortificada. Os aristocratas, até mesmo os imperadores, se resguardavam em locais que se constituíam como refúgios, muitos dos quais aproveitavam condições naturais – grandes lagos, falésias, montanhas, e demais irregularidades do terreno –, mas que não possuíam a característica de habitação permanente. Assim sendo, e como apontado por Pesez:

Não é correto falar em castelo na Alta Idade Média. Os anais e as crônicas evocam locais fortificados com os nomes de castella, castra oppida, munitiones, roccae, petrae, speluncae. Mas trata-se ou de cidades que conservaram suas muralhas do Baixo Império, ou então fortalezas rurais, raras e mal caracterizadas. A função residencial não está associada ainda à fortificação. (2005, p. 154).

Foi o século XI que assistiu a emergência do castelo – ou seja, um edifício que une tanto o caráter de habitação quanto o de fortificação. Para entendermos as causas que levaram ao surgimento do castelo, é imprescindível que abordemos o contexto vivido pelo Ocidente Medieval naqueles tempos. Recuemos um pouco, ao ano de 814, quando morreu Carlos Magno, governante do Império Carolíngio. Sua morte também marcou o principio da dissipação da autoridade imperial sobre os governantes regionais que, se aproveitando as crises sucessórias que se abateram sobre seus herdeiros, tomaram para si parcelas cada vez mais amplas de poder – econômico, político, militar e jurídico –, até então centrado na figura do imperador.

A continuação desse processo culminou na queda do Império Carolíngio e marcou a emergência do sistema feudal, caracterizado pelas relações homem a homem e centradas na posse da terra. O senhorio – parcela territorial dominada por um senhor – se consolidou como a base da exploração rural e sustentáculo da organização social feudal. Inserido nessa realidade social que emergiu com o ano mil, o castelo ocupou posição central no feudo, era o local por excelência de onde emanava o poder dos senhores territoriais. Nas palavras do medievalista francês Jacques Le Goff: “[…] o castelo tornou-se o centro de um senhorio que absorveu pouco a pouco todos os poderes: econômico, judiciário, político” (LE GOFF, 2005, p. 86).

Ao lado da emergência dos senhorios e do papel central da habitação fortificada nesses domínios, outros dois elementos foram importantes para a disseminação desses edifícios: aumento da produção de matéria-prima e o avanço das técnicas de construção. A produção de pedra, madeira e ferro foram ampliadas, graças ao desenvolvimento de novas ferramentas que tornaram possível uma maior extração desses materiais. Ao mesmo tempo, essa era uma exigência dos tempos inaugurados pelo ano mil, quando as descobertas relativas a edificação foram materializados em novas catedrais, igrejas, pontes, celeiros, mercados e também castelos (LE GOFF, 2005).

Se até frisamos o surgimento do castelo a partir do século XI, é igualmente importante salientar que o modelo de habitação fortificada não surgiu pronto e acabado, ao contrário, experimentou uma variedade de modificações ao longo do tempo. O primeiro modelo dessas nascentes fortificações foi o castelo de mota, assim chamado por ser erigido por sobre uma colina – a qual poderia ter origem natural ou ser moldada pelo trabalho humano.

O homem medieval desenvolveu habilidades de transformar o meio ambiente e molda-lo às suas necessidades, o que põe em cheque as interpretações que colocam a Idade Média como período de trevas, tempo em que nada de novo foi produzido ou desenvolvido. Ora, aqueles homens desenvolveram técnicas de elevar colina mesmo em áreas pantanosas, empilhando camadas de pedra, turfa, argila, calcário, cascalho, mato e areia, obtendo uma estrutura seca e adequada a construção em seu topo (LEPAGE, 2002, p. 30). A cada novo esforço o homem medieval produziu conhecimento acerca de técnicas de construção que respondesse às suas necessidades.

Todo o esforço depositado na elevação de uma mota para a construção de um castelo contrasta com a solidez do material usado na maioria deles: a madeira, de fácil obtenção e manuseio simples, dominado pela ampla maioria dos construtores daquela época. O arredor do castelo contava também com um fosso – de onde poderia ser retirado parte do material a ser usado para elevar a colina – e uma paliçada.

No detalhe da Tapeçaria de Bayeux – um extenso bordado em linho datado do século XI e que registra fatos históricos daquele século – pode ser visto mais nitidamente a esquerda um castelo construído sobre um monte, demonstrando a existência da construção em mota naquele período histórico. Original: Bayeux Museum – França. Imagem e maiores comentários sobre a obra em: http://www.ricardocosta.com/tapecaria-de-bayeux-c-1070-1080

No detalhe da Tapeçaria de Bayeux – um extenso bordado em linho datado do século XI e que registra fatos históricos daquele século – pode ser visto mais nitidamente a esquerda um castelo construído sobre um monte, demonstrando a existência da construção em mota naquele período histórico. Original: Bayeux Museum – França.
Imagem e maiores comentários sobre a obra em: http://www.ricardocosta.com/tapecaria-de-bayeux-c-1070-1080

Marcadamente a partir do século XII os castelos passaram a ser construídos em pedra, em um ritmo heterogêneo por todo o Ocidente Medieval e demarcado pela possibilidade de obter material rochoso para a edificação. Pensemos em nossas cidades. Ainda hoje podemos nos deparar com casas de madeira, certamente nossos pais e avós as viam com mais frequência que nós, o que demonstra que as habitações convivem com as de alvenaria, ainda que sejam minoria e cada vez mais raras. O mesmo pode ser dito sobre os castelos na Idade Média: houve a coexistência de materiais, até que as construções em pedra se tornaram preponderantes, o que não ocorreu de maneira rápida.

O abandono da madeira – fácil de ser queimada ou transpassada – e a adoção da pedra foi apenas o primeiro elemento de alteração arquitetônico-defensiva dos castelos naquela centúria, muitas outras viriam a seguir. As fortificações ganharam aberturas para o posicionamento e ataque dos arqueiros; surgiram as torres paralelas com espaços laterais, que diminuíam a existências de pontos cegos; apareceram os mata-cães, pequenas sacadas com espaços inferiores que possibilitavam atingir os inimigos na base dos muros com flechas, pedras ou mesmo líquidos ferventes.

Todas essas alterações foram acompanhadas também pela mudança no formato dos castelos. As torres passaram a contar com ângulos retos – o que as tornava mais resistentes ao assédio inimigo – e, no caso do torreão ser o edifício habitacional, sua posição poderia estar em um ponto central cercado por uma muralha, ou inserido como parte de um muro fortificado e defendido por torres menores que o circundavam.

Pouco a pouco os castelos foram ganhando estruturas cada vez mais complexas, possibilitadas pelo desenvolvimento de técnicas de construção – incentivadas pela troca de saberes entre arquitetos, mestres-construtores e pedreiros –, mas também pela disposição dos nobres em depositar quantias crescentes de suas riquezas para elevar suas habitações fortificadas. Os castelos passaram a contar com pontes levadiças, muralhas mais espessas, fossos maiores e barbacãs – muro de menor altura em relação a muralha e que servia como primeira barreira aos inimigos.

O desenvolvimento dessas estruturas defensivas respondia às mudanças apresentadas pela arte da guerra no medievo e os novos equipamentos empreendidos nos ataques e cercos aos castelos, sendo que devemos entender essas modificações como parte de um contexto em que os movimentos bélicos entre reis e nobres, todos eles inseridos em um processo de disputa e ampliação de seu domínio sobre parcelas cada vez mais vastas de terra.

Residência de reis e nobres

 Como foi apontado e reiterado nas linhas anteriores: uma das funções do castelo era a residencial. Diante disso, esse edifício possuía uma configuração de cômodos que atendia ao conjunto de necessidades habitacionais do período medieval. Diferentemente do que vivenciamos nos dias atuais em nossas casas, aquelas fortificações eram morada e centro administrativo dos domínios de um senhor feudal e abrigo de seus consanguíneos e serviçais, além de vassalos e demais nobres que por ali passavam. Portanto, seus espaços deveriam atender não apenas as necessidades da vida humana – alimentação, descanso, abrigo contra intemperes, necessidades fisiológicas –, mas também as exigências da posição política, social e administrativa ocupada pelo senhor territorial residente naquele local.

No espaço exterior ao edifício fechado, podiam ser constatados três elementos castelãos. O paço era o espaço onde o senhor se apresentava de maneira mais ampla para a sociedade, sejam nas ocasiões de torneios e jogos da fidalguia, sejam em cerimonias de maior grandeza. O horto, espaço utilitário, era a fonte de abastecimento da cozinha da casa – frutas, temperos, hortaliças, legumes, entre outros –, mas também fornecia plantas medicinais. Finalmente, a capela, que não possuía as dimensões de uma igreja, mas que oferecia ao nobre um local de espiritualidade dentro de seu domínio e ao alcance de seus olhos.

Adentradas as paredes do edifício habitacional, no piso inferior, estava a cozinha, local central da vida doméstica no castelo e onde eram preparados os alimentos servidos não apenas ao senhor, seus filhos e esposa, mas também a nobres vinculados aquele local de poder. Era esse o espaço em que domina a senhora, organizando o a função de cada um dos serviçais e o continuo trabalho exigido daquele ambiente.

Exemplos de cenas da vida castelã trazidas pelo Horae ad usum Parisiensem: a cerimonia de maior amplitude social e à refeição a mesa. Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Biblioteca Nacional da França. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510/f1.image

Exemplos de cenas da vida castelã trazidas pelo Horae ad usum Parisiensem: a cerimonia de maior amplitude social e à refeição a mesa. Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Biblioteca Nacional da França. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510/f1.image

 Vejamos a imagem que Iria Gonçalves, medievalista portuguesa, nos deixa sobre a cozinha na Idade Média portuguesa:

Nas cozinhas dos grandes senhores – nas cozinhas do rei – tudo se superlativava […] o lume ascendia-se bem cedo pela manhã e ardia até que à noite, preparada a ceia, ele deixasse de ser necessário. As chaminés eram monumentais, para permitirem acolher toda a casta de preparações culinárias, inclusive os animais assados inteiros, para regalo dos comensais. A baixela da cozinha era imensa e variadíssima, toda em metal, alguma em latão, sobretudo em cobre, por vezes em estanho. Os utensílios do fogo, em ferro. As peças multiplicavam-se nos mais variados tamanhos […] E depois toalhas, muitas toalhas de cozinha, muitos panos de loiça. Ambientes preparados para o maior requinte culinário, para a maior abundância, para a maior higiene (GONÇALVES, 2011, p. 242)

Além da cozinha, outros cômodos e elementos importantes para a vida no interior os castelos: celeiro, adega e armazéns – que abasteciam a cozinha e cuja organização e provisão também eram de responsabilidade da mulher do senhor feudal –; lareiras; latrinas – as quais contavam com sistema de escoamento, elemento sujo aparecimento variou de local para local no medievo ocidental. As escadas eram outro importante elemento, demarcando a passagem entre o piso inferior e o superior, onde ficavam os quartos dos criados e filhos, mas principalmente os locais onde a presença do senhor se fazia constante.

A abordagem do ambiente interno castelão não estaria completa sem que fossem tratados aqueles espaços ligados diretamente à vivência e ao exercício das prerrogativas nobiliárquicas do senhor feudal. Nesse tocante, é interessante chamar o testemunho de alguém que viveu no próprio Palácio Real, ou seja, o rei português D. Duarte, governante entre os anos de 1433 e 1438, e que, por meio de sua obra Leal Conselheiro, nos deixou a seguinte sequência descritiva de cômodos:

Primeira, a sala em que entram todos os do seu senhorio, que homiziados não são, e assim os estrangeiros a que a ela querem vir. Segunda, câmara de paramento, ou antecâmara, em que costumam estar seus moradores, e alguns outros notáveis do reino. Terceira, câmara de dormir, que os maiores e mais chegados de casa devem haver entrada. Quarta, tráscamara, onde se costumam vestir, que para mais especiais pessoas, para ele pertencentes, se devem apropriar. Quinta, oratório, em que os senhores sós vão algumas vezes cada dia por bem de se apararem para rezar, ler bons livros, e pensar em virtuosos cuidados (D. Duarte, 1854, p.390).

O que D. Duarte nos demonstra nesse excerto é uma sequência de ambientes que vai desde o espaço mais aberto aos membros da sociedade na qual o senhor feudal se inseria até aquele em que o nobre se recolhia de maneira mais reservada. Seguindo o mesmo percurso indicado pelas palavras do rei, examinaremos esses cômodos.

A sala era o local onde o senhor desempenhava suas relações políticas, sendo o espaço mais aberto à recepção dos que com ele iriam se reunir, nas palavras de D. Duarte este espaço estava vedada aos perseguidos pela justiça e estrangeiros desconhecidos. É também nesse espaço onde eram realizadas as grandes cerimônias – como casamentos ou mesmo a recepção aos embaixadores de outros reinos –, os jantares familiares em ocasiões festivas, e ainda, no caso dos reis, para a realização de Cortes (SILVA, 2011).

Em sequência, na antecâmara – chamada por D. Duarte de câmara do paramento –, eram recebidas as pessoas que mereciam atenção individualizada ou onde assuntos de maior importância eram tratados. Depois, na câmara de dormir, local onde repousava o senhor e sinônimo de sua habitação, podiam adentrar apenas os mais próximos do monarca ou nobre. A seguinte, a trascâmara, era o local de realização das trocas de roupa, sendo frequentada apenas por aqueles designados diretamente pelo poder senhorial – a entrada nesse espaço era terminantemente vedada aos não designados. Por fim, o oratório – espaço que não deve ser confundido com a capela – estava dedicado à particularidade e a reflexão do suserano (SILVA, 2011).

Apontadas algumas das configurações gerais dos castelos na Idade Média, faz-se importante evidenciar o caráter generalizante das informações ate aqui apresentadas nesse item. Ora, seria impossível em um reduzido número de páginas abordar toda a multiplicidade de configurações que o castelo experimentou no decurso temporal desde a Alta a Baixa Idade Média, além de suas características regionais. Ao lado dessas variantes, ainda deve ser levado em conta o uso que os próprios habitantes desses locais deram para cada um de seus cômodos, tamanha multiplicidade de atitudes escaparia a qualquer esquema explicativo que se pretenda abrangente.

A fim de exemplificar essa condição, vejamos as palavras de Dominique Barthélemy, medievalista francês, que, tratando das possibilidades de confusão entre quarto e sala nos castelos, expõe:

[…] percebe-se também que em cada um dos andares do torreão a grande peça pode ser ao mesmo tempo sala e quarto, dividir-se ao menos em duas partes. A literatura do século XIII apresenta exatamente as coisas: em Kamaalot, em La mort le roi Artu, dois banquetes distintos transcorrem no mesmo momento: o do rei, na grande sala, e o da rainha Guenièvre no quarto […] sem que as funções do “quarto” se distingam muito da “sala” de seu real esposo, sede da corte em formação completa. (BARTHÉLEMY, 1990, p. 417).

Além desse difícil enquadramento no uso dos cômodos, cada castelo variava em suas dimensões: quantidades de lareiras; número, formas e adorno de escadas; dimensão e número de quartos; latrinas; tipo de sistema de escoamento ou mesmo sua inexistência; quantidade de pátios; dentre outras. Essa é uma realidade múltipla também se apresenta em nossos dias, afinal, ao observar as casas contemporâneas podemos notar inúmeras diferenças entre elas e, mesmo em bairros onde todas elas possuem a mesma planta, cada morador impõe sua vivência no interior de cada uma delas. Ainda assim, isso não nos impede de poder indicar características que perpassam as residências atuais.

Frente a essa gama de variantes castelãs, a atitude mais honesta para a abordagem dos castelos medievais é a de expor suas configurações gerais, mas sem enquadra-los em esquemas rígidos – salvo se pretenda abordar uma fortificação específica ou um conjunto delas que apresentem características semelhantes.

Um signo de poder no horizonte

Estruturas que se erguiam do chão rumo ao céu, destaque na imensidão dos campos e ponto de referência no horizonte. O castelo medieval não pode ser entendido sem que seja observado sob o ponto de vista daquelas pessoas que, vivendo ao seu redor, viam naqueles muros a materialização de poder simbólico que emana dessa construção.

A sociedade medieval era majoritariamente formada por iletrados – com ampla incidência para os camponeses, e menor no caso de nobres e clérigos –, assim o marco visual desempenhava uma importante função de rememoração naquele contexto. Georges Duby, medievalista francês, já chamou atenção para a relevância do aspecto visual na Idade Média em seu estudo sobre as catedrais, cuja construção ganhou impulso a partir do século XII, e a ideia transmitida pelos coloridos vitrais ostentados pelas fachadas dessas construções: “[…] Deus é luz. Desta luz inicial, incriada e criadora, participa cada criatura” (DUBY, 1988, p. 105).

Essa imagem, presente na obra Les très riches heures feita pelos irmãos Limbourg para o Duque de Berry, demonstra a presença do castelo do Louvre – hoje Museu do Louvre – no horizonte dos camponeses que trabalhavam no seu entorno. Original: Musée Condé – França. Disponível em: http://www.wga.hu/art/l/limbourg/10octobr.jpg

Essa imagem, presente na obra Les très riches heures feita pelos irmãos Limbourg para o Duque de Berry, demonstra a presença do castelo do Louvre – hoje Museu do Louvre – no horizonte dos camponeses que trabalhavam no seu entorno. Original: Musée Condé – França.
Disponível em: http://www.wga.hu/art/l/limbourg/10octobr.jpg

Assim como os vitrais das catedrais tinham a intenção de transmitir uma mensagem, a imagem do castelo consolidada no horizonte expressava um conjunto de referências aos camponeses que viviam ao redor dele. A robustez da fortificação significava a proteção oferecida pelo senhor, ponto de refúgio e defesa em um contexto de violência endêmica em que a insegurança era parte da vivencia cotidiana.

Ainda que símbolo de segurança, a imagem do castelo significava a presença constante do senhor feudal sobre seus vassalos, lembrança sempre presente dos vínculos que os prendiam e dos deveres entre quem trabalhava e quem lutava. Em última instancia, essa construção solidificava de maneira visível no horizonte cotidiano a hierarquia social e os lugares ocupados por aqueles que a viam de longe e os que ocupavam suas paredes.

Ao senhor feudal não bastava que o castelo fosse o símbolo de sua autoridade sobre os camponeses, mas também deveria refletir seu poder frente aos demais nobres. Assim, a habitação sustentava o status nobiliárquico de quem a ocupava, e era esse o proposito de elementos presentes em seu interior: rica tapeçaria, mobiliário amplo, ornamentos detalhados e feitos de cobre, bronze ou vidro. Todos esses elementos buscavam evidenciar o caráter aristocrático daquele edifício.

Um espaço castelão detinha, ainda, especial importância simbólica: a capela, local da ligação com o divino. Sua localização no interior da fortaleza não é mera disposição aleatória, pois, integrada a habitação senhorial e contando com uma fenda em sua parede, possibilitava ao suserano acompanhar o ofício sem abandonar o quarto e garantindo a ele lugar privilegiado e de destaque naquela dependência. Contudo, reiterando a ausência de planos explicativos rígidos para o período medieval, vale acrescentar: “Há casos em que a capela está integrada a muralha e que sua cabeceira assegura o flanqueamento da cortina: também nesse caso é a proteção do sagrado que se busca” (PESEZ, 2006, p. 169).

No caso dos reis, a capela representava espaço afirmativo de sua posição na sociedade: juiz enviado por Deus para proporcionar justiça aos homens e zelar pelo bem comum. Vejamos como Alfonso X, rei de Castela e autor da obra Las Siete Partidas, define a função daqueles que, como ele, estavam a frente dos reinos medievais: “[…] e os santos disseram que o rei é senhor posto na terra em lugar de Deus para cumprir a justiça e dar a cada um seu direito” (ALFONSO X, 1807, p. 7). Tamanha relação entre o caráter terreno da realeza e os desígnios divinos impulsionaram determinados reis a fazer das capelas repositórios de relíquias, a exemplo de Luís IX da França, conhecido como São Luís, que construía a chamada Sainte-Chapelle – edifício de culto destinado ao recebimento da cruz e da coroa de espinhos de Cristo (PESEZ, 2006).

Mesmo espaços funcionais como o horto não escapavam a aura simbólica que recaia sobre os espaços de vivencia na sociedade medieval. Como apontado por José Custódio Vieira da Silva, pesquisador da arquitetura medieval, esse espaço sofreu transformações ao longo da Idade Média que o estruturaram como jardim, garantindo a ele presença na literatura e espiritualidade medievais. O autor acrescenta: “Lugar escondido e de recônditos secretos, repleto de aromas inebriantes e de cores variadas, é associado ao próprio Jardim do Éden – Bosque Deleitoso e Horto do Esposo onde a alma, a exemplo do poético livro do Antigo Testamento, O cântico dos Cânticos, suspira ansiosamente pelo seu amado” (SILVA, 2011, p. 87).

Referências

Fontes

ALFONSO X. Las Siete Partidas. Tomo II. Madrid: Imprenta Real, 1807.

DUARTE. Leal conselheiro, o qual fez Dom Duarte: seguido do Livro da ensinança de bem cavalgar toda sella. Paris: Casa de J. P Aillaud, 1854.

Bibliografia

BARTHÉLEMY, Dominique. Os arranjos do espaço privado. In: História da Vida Privada: da Europa Feudal a Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 395-501.

DUBY, Georges. O tempo das catedrais: a arte e a sociedade, 980-1420. Lisboa: Editora Estampa, 1988.

GONÇALVES, Iria. A Alimentação. In: SOUSA, Bernardo Vasconcelos. História da Vida Privada em Portugal – A Idade Média. Maia: Circulo de Leitores e Temas e Debates, 2011.p. 226-259.

LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC, 2005.

LEPAGE, Jean-Denis. Castles and fortified cities of medieval Europe: an illustrated history. London: MacFarland & Company, 2002.

PESEZ, Jean-Marie. Castelo. In: Le GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC, 2006.

SILVA, José Custódio Vieira da. O paço. In: SOUSA, Bernardo Vasconcelos. História da Vida Privada em Portugal – A Idade Média. Maia: Circulo de Leitores e Temas e Debates, 2011. p. 79-97.