As Mulheres

Carlos Eduardo Zlatic.

(PGHIS/UFPR/NEMED)

O emergir do século XXI trouxe consigo novas formas de luta em prol dos direitos femininos e da igualde efetiva entre homens e mulheres no interior de uma sociedade que ainda não oferece o mesmo tratamento aos dois gêneros. Diante de dilemas e lutas que ganharam evidência a partir do primeiro quarto do século XX – mas que existiam já antes disso –, os grupos de movimentos sociais dos nossos atuais dias se articulam em prol da mudança da condição feminina na atual sociedade, muitas vezes equiparada ao período medieval.

Diante dessa referência direta à medievalidade, se torna pertinente questionar: qual o tratamento recebido pelas mulheres ao longo da Idade Média ocidental? Quais as pressões vivenciadas pelo grupo feminino na Europa medieval que justifica essa rápida ligação a um período de mais de cinco séculos passados? Ainda hoje são os mesmos imperativos que determinam as questões em torno do tratamento das mulheres em nossa atual sociedade?

Pecado, estigma da mulher.

As pressões que atuavam sobre a vivência da mulher ao longo da Idade Média não poderiam ser entendidas sem que, primeiro, se aborde o estatuto religioso que imperava sobre a feminilidade. Para tanto, é preciso não perder de vista o poder e a ampla presença da Igreja no desenvolvimento dos modelos explicativos da sociedade medieval, os quais abarcavam desde a divisão do tempo – do calendário anual e as festividades religiosas às horas do dia e suas orações – até a maneira como cada pessoa entendia seu lugar no mundo. Seja por meio de ideias abrangentes, seja por meio de tratados direcionados as mulheres, o discurso religioso buscou orientar o cotidiano feminino, desde o modo de pensar aos menores gestos.

Para tanto, foi com o recurso aos escritos bíblicos que os tratadistas eclesiásticos buscaram elementos que legitimassem suas orientações e diretrizes para o comportamento das mulheres. De maneira mais precisa, foram as próprias figuras femininas presentes na Bíblia que serviram que referencias para os discursos acerca da natureza e dos deveres da mulher na Idade Média.

Eva foi a primeira figura chamada a servir de exemplo. Primeira mulher a existir, nascida diretamente de Adão, essa figura representava – na visão dos tratadistas medievais – a cópia mal acabada do homem, ser imperfeito que, incapaz de se conter, enterrou o Paraíso ao incorrer no Pecado Original. Portão para tudo que perece, foi por excelência a imagem do caráter podre intrínseco às mulheres, ligando-as a tudo que morre, que deixa corromper-se.

Ocupando uma posição no ponto extremo oposto a Eva, esteve a figura de Maria. Virgem sempre intacta – mesmo após conceber o filho de Deus –, representava a porta para os Ceús, caminho pelo qual Cristo veio à luz. Assim entendida, ocupou também a posição da mãe de todos os cristãos e, portanto, refúgio de todos aqueles que pecam, marcadamente após o fortalecimento do marianismo no século XII.

A pequena escultura de Maria com o menino Jesus é exemplo da produção medieval que buscava na imagem da virgem mãe um exemplo a ser seguido pelas mulheres. Virgen con el Niño. Museo de la Fundación Lázaro Galdiano. Disponível em: http://ceres.mcu.es/pages/Main?idt=126612&inventary=03073&table=FMUS&museum=MLGM

A pequena escultura de Maria com o menino Jesus é exemplo da produção medieval que buscava na imagem da virgem mãe um exemplo a ser seguido pelas mulheres.
Virgen con el Niño. Museo de la Fundación Lázaro Galdiano.
Disponível em: http://ceres.mcu.es/pages/Main?idt=126612&inventary=03073&table=FMUS&museum=MLGM

Por fim, os representantes da cristandade medieval viram em Maria Madalena a terceira figura bíblica exemplar para o gênero feminino. Essa personagem, tratada pela Bíblia como aquela que espalha os pecados por meio de seu corpo, em clara alusão à prostituição, foi salva por Jesus após o reconhecimento e confissão de seus pecados. Passou a seguir e, em contrapartida, foi consagrada como aquela que primeiro constatou a ressureição de Cristo.

A presença dessas três representações – Eva, Virgem Maria e Maria Madalena – não deve ser entendida como um pensamento que viveu apenas em um plano ideológico, como uma referência distante a um passado bíblico. Ao contrário, essas imagens exemplares atuaram de fortemente no cotidiano feminino ao longo da Idade Média, e não apenas no das mulheres, mas também no dos homens que as rodeavam.

A Idade Média foi um período de poder dos homens. Ao redor de papas, bispos, reis, senhores, cavaleiros, guerreiros e servos girava o ideário que atribuiu a eles a proeminência política, econômica, social e cultural por mais de mil anos. Esse fator da presença central do gênero masculino no seio da sociedade, juntamente com o pensamento religioso, colocou as mulheres sobre o julgo permanente de eclesiásticos, pais e maridos, todos eles responsável por vigiar os atos femininos.

Essa necessidade de tutela advinha precisamente da força impressa pelas três imagens bíblicas anteriormente expostas na vida cotidiana de filhas, esposas e viúvas. Filhas de Eva, toda mulher possuía, como ligação àquela primeira, uma inclinação para o pecado, para o que eram empurradas por sua própria natureza corruptível, de caráter pouco rígido e sempre pronta para ceder aos seus desejos. Entendida como ser que age mais por seus impulsos – gerados por suas vontades sexuais –, é incapaz de conter-se apenas por seu autocontrole, cabendo aos homens vigia-las, mantê-las retilíneas e atentas à sua condição permanente de pecadoras.

Foram duas as características femininas apontadas pelos tratadistas como aquelas que, atribuídas por Deus a elas, ajudariam os homens em sua tarefa de vigia: a fraqueza e a vergonha. A primeira estava ligada a condição física da mulher, sendo fraca era incapaz de resistir ao ímpeto de suas sentinelas, que deveriam chegar às ultimas consequência – o que incluía a morte – para controla-las. Aquela segunda, fruto do pecado de Eva, as faziam dóceis e recatadas, desde que essa vergonha fosse inculcada nas mulheres com os elementos corretos.

Contudo, não advinha apenas dos homens que circulavam ao redor das mulheres a maior pressão sobre sua conduta, mas antes de toda a sociedade que a cercava. Imersas nesse âmbito, elas recebiam, desde a mais tenra idade, uma gama de mensagens e significados voltados para mostrar-lhes os valores que deveriam seguir. Os dois maiores elementos nesse caso eram a virgindade e a maternidade, ambos advindos da imagem da Virgem-Maria.

A virgindade era a condição primeira para que a mulher não caísse em pecado, haja vista que o pecado da carne era o elemento fundador da corrupção, portanto, resistir aos seus impulsos terrenos – sexuais – era elemento central na educação feminina. Já a maternidade era o elemento que elevava a mulher à condição de ser indispensável para a continuação da sociedade, sendo ela quem nutria não apenas o novo ser, mas todo o sistema social. Contudo, como interpretar deveres tão contrastantes como virgindade e maternidade? Ora, sendo a Virgem Maria um caso exemplar – símbolo materno da ação de Deus –, como as mulheres deveriam se comportar diante desse impasse?

Atentos a esse dilema, os teóricos medievais desenvolveram maneira de adequar esses ideais a um caminho indicado como o correto para a trajetória da vida feminina. O modelo explicativo mais usado foi aquele pautado na relação idade/condição social, ou seja: jovem/solteira; adulta/casada; idosa/viúva. Esse plano deu condições para que os tratadistas organizassem seu ideário em torno do papel que esperavam da mulher na sociedade medieval e em cada momento de sua vida. As donzelas, ainda livres das necessidades do casamento, poderiam se dedicar unicamente à castidade. As esposas deveriam atender a necessidade importa pelo casamento, ou seja, ter filhos, assim o sexo estava voltado unicamente para a procriação, não devendo ser buscado por nenhum dos cônjuges se não para este fim. As matriarcas, libertas do matrimónio pela morte do marido, poderiam retomar a castidade e manter a penitência após os atos carnais – exigência que impelia muitas das mulheres nobres ao claustro dos mosteiros ao longo de sua viuvez.

Se os pensamentos das mulheres sofriam tamanha interferência dos homens, não menos era a expressão física dos que sua mentalidade poderia reverberar e simbolizar. Não foram poucos os aspectos da imagem corporal da mulher que receberam atenção dos teóricos cristãos na Idade Média.

Em espaços fechados, e principalmente em ambiente público, as mulheres deveriam manter a sobriedade de seus gestos: pouco movimentar braços, cabeças e ancas; manter os olhos semiabertos e baixos; sorrir sem mostrar os dentes; quando à mesa, comer e beber o mínimo. Em síntese, fora do claustro no qual eram colocadas pelos homens a mulher deveria manter um comportamento que a possibilitasse estar presente, mas nunca chamar atenção para si.

A pecha de tagarelar era outro estigma que pesava sobre as mulheres. Símbolo de tudo que questiona, incapazes de se conter ou mesmo de medir suas palavras, eram acusadas de estarem sempre aos cantos, em fofocas e conchavos, prontas para criar intrigas. Para evitar palavras inconvenientes, os tratadistas eclesiásticos colocavam as palavras das mulheres condicionadas pelas dos homens, portanto, encontravam na voz masculina a representação de seus pensamentos, fato que pode ser constatado na imposição da não participação delas em tribunais.

Marcadamente ligada a preocupação acerca do caráter enganador, fútil e podre que pesava sobre as mulheres, os cuidados com a aparência física e a moda não deixaram de ser alvo de censuras ao gênero feminino. Seguindo essa trilha, as mulheres que usavam produtos de beleza para alterar a jovialidade de suas faces, pintar os lábios ou os cabelos, assim como aquelas que recorriam às perucas, eram tidas como contestadoras, não apenas de todos aqueles imperativos que os homens lhes impunham, mas dos próprios desígnios de Deus, pois, ao alterar a aparência de seus corpos, questionavam a aparência natural que o tempo – esse espectro da ação divina – tinha lhes dado.

Juntamente com a questão da cosmética, caminhavam as preocupações ligadas diretamente à moda e as formas de se vestir e adornar. Sinônimo de futilidade, as joias eram entendidas como atrativo para a beleza carnaval das mulheres, meio pelo qual elas podiam turvar suas virtudes e chamar atenção para seus atributos pecaminosos. A vigilância sobre as roupas seguia o mesmo intuito.

A partir dos séculos XII e XIII, período em que ocorreu o Renascimento Comercial no Ocidente Medieval, a disponibilidade de tecidos cresceu exponencialmente. Esse processo também trouxe consigo o incremento das preocupações em torno das vestes femininas. O tom do discurso religioso era pautado pela ligação entre a necessidade das roupas após o Pecado Original e o contato com o sentimento de vergonha.

Tomando por ponto de partida essa referência bíblica, os longos e rebuscados vestidos eram criticados, assim como os tratamentos cosméticos e as joias, pelo realçar do corpo, representando o convite para a reincidência do pecado. Ao chamar atenção para seu sexo, e não para suas virtudes, as mulheres que recorriam a essa indumentária eram vistas como aquelas que atraiam os homens sem lhes oferecer frutos – casamento, fidelidade, filhos –, portanto, impulsionavam-nos a corrupção da carne. Essas mulheres assim flertavam com a morte, e assim marcavam os destinos daqueles que com elas se envolviam.

O próprio pano usado para a confecção das vestes foi recoberto de significados que exaltavam sua perenidade, seu desgaste ao longo do tempo, seu uso passageiro. Esse caráter fraco e perecível era também atribuído às mulheres que se cobriam com os tecidos. Não deixa de ser interessante, ainda, as relações estabelecidas pelos tratadistas acerca da matéria-prima usada para a produção das vestes, inicialmente a partir de toscas peles animais – símbolo da expulsão do Paraíso e equiparação dos humanos aos animais – até a seda – já conhecida na Idade Média e produzida a partir da excreção de vermes, significava o ponto mais profundo da queda dos homens em desgraça.

Aspecto central exposto pelos tratadistas eclesiásticos acerca da posição ocupada pela mulher na sociedade medieval, o trabalho e o imperativo de se manter constantemente ocupada era outro traço indissociável do comportamento feminino. Essas tarefas encontravam no âmbito da habitação familiar o seu ponto central – local onde eram depositados os esforços femininos – e em torno do qual orbitava a vivência das mulheres. Era, portanto, ao lar que as mulheres deveriam se atentar: manter todos os cômodos limpos, a comida pronta, a despensa abastecida, os cuidados com confecção, reparo e limpeza das roupas – tanto de cama quanto aquelas usadas pelos membros do grupo familiar. Era também no âmbito da casa que estavam os filhos, a quem o aspecto maternal das mulheres as ligavam de maneira intrínseca após o nascimento do rebento, sendo, portanto, seu papel fundamental, o cuidado com os seus: alimentação, vestuário, educação, orientação nos primeiros trabalhos e tarefas, e todos os demais aspectos que pudessem fazer parte da educação dos pequenos.

Essa ampla carga de trabalhos e pequenas tarefas que se acumulavam sobre o cotidiano feminino tinha um papel central no objetivo dos tratadistas: manter as mulheres sempre ocupadas. Era apenas retirando qualquer possibilidade de ócio que esses seres imperfeitos poderiam ter ao longo do seu dia que poderia ser garantida a retidão em uma vida livre de pecado.

Imagens bíblicas, estrutura física e caráter fraco, necessidade de serem discretas, taciturnas, submissas, singelas, recatadas, maternais, laboriosas, todas essas imagens cercavam as mulheres e lhes lembravam de suas fraquezas e seus deveres em resistir ao pecado. Este foi sempre o inimigo que os tratadistas eclesiásticos buscaram inculcar no gênero feminino ao longo da Idade Média, fonte de todo corrupção, era o pecado a porta para a queda em desgraça daqueles que circundavam as mulheres e, em última instância, toda a sociedade.

Contudo, seria uma atitude por demais abrangente afirmar que essa gama de elementos atingiram a completude das mulheres da mesma forma ao longo de toda a Idade Média. Sendo assim, se mostra imperativo buscar apontar de maneira mais precisa – ou, ao menos, não reducionista – as condições experimentadas pelas mulheres no âmbito próprio que ocupavam na vivencia social do período medieval.

A posição social, aspecto de divergência na vivência feminina.

A fim de apreender de maneira mais específica as pressões sociais que atuavam sobre as mulheres no longo da Idade Média, devemos aborda-las no interior dos âmbitos sociais nos quais se inseriam. Dentre as inúmeras possibilidades de divisões e segmentos que poderiam ser eleitos para essa abordagem, aquele dos grupos sociais parece ser o mais indicado, ou seja: nobres, citadinos e camponeses. Cada um desses âmbitos imprimiam exigências e pressões distintas sobre a vivência cotidiana das mulheres.

Contudo, antes de adentrar precisamente esse assunto, é preciso chamar atenção para o fato de que são escassas as vozes femininas da Idade Média que chegaram até a contemporaneidade. Em grande parte, sabemos sobre o gênero feminino através do filtro masculino, por meio de documentação produzida por homens. Esbarramos, ainda, em outra dificuldade: a disponibilidade de fontes para entender aqueles três âmbitos elencados para a abordagem, pois, ao passo que possuímos melhor suporte para a compreensão do espaço nobre, o mesmo não pode ser dito acerca do citadino e do camponês. Ainda que com esses entraves, é essencial que se aborde tais ambientes de sociabilidade.

A mulher nobre

As mulheres que ocupavam o centro de poder por excelência da sociedade medieval eram aquelas que nasciam no seio da nobreza. Inseridas nesse grupo, não tiveram o mesmo tratamento, ou sofreram as mesmas pressões, ao longo de toda a Idade Média, sendo que podemos estabelecer um marco para a viragem no tratamento recebido pelo gênero feminino: o nascimento das linhagens nobiliárquicas e a afirmação da estrutura agnástica de parentesco, o que ocorreu por volta do século XI.

Com um sistema de herança que privilegiada o primogênito em relação a todos os demais irmãos, fossem eles homens ou mulheres, a preferência dos grandes chefes de linhagem sempre foi pelos filhos homens, ou seja, aqueles que seriam capazes de carregar o poder da família e o transmitir às gerações futuras, que ocupariam a posição de guerreiros, que possuíam força para as tarefas pesadas. As filhas eram entendidas como um peso, um grande investimento de forças para educar, dotar e casar.

Nas estratégias da nobreza, o casamento era o elemento central que explicava a função social das mulheres, contudo esse era um assunto dos mais importantes, portanto, discutido e efetivado pelos homens. Isso porque o matrimonio era uma via cara para o estabelecimento de alianças políticas entre os membros da nobreza. Ou seja, as mulheres atuaram como moedas de troca daquele jogo político do qual os homens participavam.

Cantiga de escarnio de Fernão Garcia Esgaravunha. Por este texto podem ser constatados alguns dos elementos do pensamento medieval que caracterizavam uma boa mulher, tais como: fiar, tecer, costurar e cozinhar. Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1544&pv=sim

Cantiga de escarnio de Fernão Garcia Esgaravunha. Por este texto podem ser constatados alguns dos elementos do pensamento medieval que caracterizavam uma boa mulher, tais como: fiar, tecer, costurar e cozinhar.
Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1544&pv=sim

A partir dos doze anos, as jovens já estavam habilitadas a efetivar um matrimonio, que poderia já ser estabelecido antes, desde os seus sete anos de idade. A cerimônia era o momento de aceitar o enlace e mostrar seu consentimento, haja vista que, segundo as regras da Igreja, um casamento não poderia ser realizado sem a vontade expressa de ambos os esponsais. Contudo, e apesar do fato de que os tratadistas medievais expressarem sua confiança nas decisões daquela pequena mulher, atuavam sobre ela muito mais as pressões políticas do chefe familiar do que sua liberdade de escolha. Em síntese, o casamento não era uma relação de amor, mas de alianças políticas; era menos a vontade de dois noivos, e mais a dos seus pais – interessados em ampliar o poder da família nobre.

Até que sua filha se casasse, o pai e chefe de linhagem mantinha rígido controle sobre ela, principalmente a sua castidade. A mulher nobre, e principalmente as damas, eram exemplos máximos de pureza. Após escolher um cônjuge, a cerimonia do matrimonio marcava a passagem da mulher do domínio do pai ao do marido. A partir de então ela deveria assumir a função de esposa e desempenhar suas novas responsabilidades na casa do marido.

Condição determinante para o futuro do casamento, a capacidade de gerar uma prole – preferencialmente formada por varões – traçava a continuidade do casamento ou a sua dissolução. O sucesso nessa fase inaugurava uma nova responsabilidade: o cuidado com os filhos. Para o caso da nobreza, os herdeiros do chefe senhorial tinham fundamental importância para os destinos da casa nobiliárquica, ao passo que eram eles que, após a morte do pai, iriam manter os domínios territoriais – e com isso o poder econômico, político e social – construído por seus antepassados.

Oferecer esse elemento crucial de sobrevivência do grupo nobre era tarefa que ocupava boa parte do tempo e das forças femininas, principalmente se lembrarmos de que os primeiros anos de vida da criança era o período de maior risco de morte para os pequenos ao longo da Idade Média. A empreitada da mãe começava com os cuidados com a alimentação – oferta de comida e seu preparo, de maneira a facilitar a deglutição – e a saúde do frágil recém-nascido. Vencida essa primeira fase, era sobre a educação dos seus que a mulher deveria se dedicar: o respeito aos preceitos religiosos, a forma de pensar e agir de um nobre, a memória dos antepassados, os lugares da casa que poderiam frequentar ou não, todos esses conhecimentos eram comuns a dois os gêneros. A partir de dado momento, os meninos eram entregues a educação masculina, para que fossem iniciados nas artes militares, enquanto as meninas permaneciam com suas progenitoras. Eram as mães que protegiam e educavam suas filhas, inculcavam a importância da virgindade, da submissão aos homens, como se comportar no espaço da residência e fora dele, assim como efetuar as tarefas que os cuidados com a casa exigiriam quando se tornasse uma esposa.

Lado a lado com os cuidados com os filhos estavam os encargos da casa. A mulher era a portadora das chaves do guarda-roupa, dispensa e celeiro, sendo função dela zelar pela limpeza e bom estados das roupas, assim como controlar a reserva de alimentos disponível. Sua atenção deveria estar sempre voltada para esses serviços do espaço habitacional, mas também para a correta execução que as servas – as quais estavam sob o domínio de suas ordens – desempenhavam nas tarefas do lar.

Contudo, a mulher – senhora da casa – não permanecia solitária ao longo de seus dias, principalmente quando estava inserida nos mais altos estratos da nobreza. Ao seu lado estavam as esposas dos nobres que integravam o grupo de relações cultivadas pelo seu marido, além da ama e da aia – que auxiliavam nos cuidados com os filhos. Esse grupo de damas formava o núcleo feminino da residência, o chamado gineceu – ambiente de tudo que era feminino, formado pela senhora e damas, representava aquele espaço em que as mulheres permaneciam enclausuradas, longe da presença e do olhar masculino.

Era também na vivencia conjunto que elas desempenhavam aqueles tantos outros trabalhos voltados para lhes ocupar e afastar o pecado: fiar, tecer, costurar, bordar – reforçando a imagem ideal da mulher, que deve sempre andar munida de linha, agulha e tecidos – cozer, enfim, tudo que lhes mantivessem ocupadas.

Na imagem, três mulheres se mantêm ocupadas com etapas do processo de produção de tecidos, demonstrando tanto a função da mulher na mentalidade medieval. Ilustração do manuscrito De Claris mulieribus, autoria de Giovanni Boccaccio. Biblioteca Nacional da França. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b84521932/f150.item

Na imagem, três mulheres se mantêm ocupadas com etapas do processo de produção de tecidos, demonstrando tanto a função da mulher na mentalidade medieval.
Ilustração do manuscrito De Claris mulieribus, autoria de Giovanni Boccaccio. Biblioteca Nacional da França.
Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b84521932/f150.item

A mulher citadina

O ressurgimento da cidade na Idade Média teve como um dos principais fatores o renascimento do comércio. A partir dos pontos de cruzamento das rotas comerciais surgiram os primeiro aglomerados urbanos, os quais cresceram em tamanho e se tornaram expressivas cidades. Importantes pontos de passagem, aquele era um ambiente aglomerado de pessoas, em grande parte mercadores interessados em trocar suas mercadorias. Em um território tão dinâmico, a flacidez moral não passou em branco frente aos teóricos da Igreja, os quais viam nos vícios – como a entrega à bebida ou a prostituição – como característica maior da moral urbana.

Nas cidades, a vivência feminina experimentava profundas diferenças em relação àquela constatada para as nobres. O casamento não ocorria tão prematuramente, em função da necessidade de uma melhor eleição do futuro esposo – decisão para a qual a mulher gozava de uma maior autonomia de escolha, se comparada àquela disponível às damas da nobreza.

O cotidiano do casal nos espaços citadinos contava com uma maior proximidade entre homens e mulheres, tendo em vista que era recorrente o fato do espaço de trabalho – a oficina – ser o mesmo que o da sua habitação. O encurtamento das relações atribuía à mulher um papel mais determinante para a sobrevivência da família, cabendo a ela, em não poucos casos, o papel de ajudante no labor do esposo. Tendo em vista que os cálculos feitos por historiadores sugerem que uma fração que variava de um terço a metade dos mestres artesãos da Europa Medieval não tiveram funcionários – aprendizes e jornaleiros –, a função da esposa nessa tarefa não deve ser menosprezada.

A importância do trabalho feminino para o equilíbrio ou incremento das contas do lar não se dava apenas pelo auxílio ao marido. Muitas delas desempenharam trabalhos fora do âmbito de suas habitações, ganhavam as ruas e ai desempenhavam importantes funções comerciais, seja vendendo os bens produzidos nas oficinas familiares ou aqueles advindos de suas habilidades em cozinhar e produzir cervejas. Portanto, esse quadro sugere que a capacidade comercial das mulheres não deve ser ignorada no que diz respeito às formas de ocupação feminina ao longo da Idade Média.

Na gravura do casal citadino, a esposa do cozinheiro leva consigo as chaves, demonstrando os cuidados com o trabalho doméstico. Imagem de Albrecht Dürer intitulada Le cuisinier et sa femme – O cozinheiro e sua esposa. Biblioteca Nacional da França. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b6951285b.r=D%C3%BCrer+estampe.langPT

Na gravura do casal citadino, a esposa do cozinheiro leva consigo as chaves, demonstrando os cuidados com o trabalho doméstico. Imagem de Albrecht Dürer intitulada Le cuisinier et sa femme – O cozinheiro e sua esposa. Biblioteca Nacional da França.
Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b6951285b.r=D%C3%BCrer+estampe.langPT

Todas essas tarefas ligadas ao labor não libertavam as mulheres citadinas das tarefas que a sociedade lhes havia atribuído como condição intrínseca: o cuidados com os filhos, com a manutenção de tudo que estivesse ligado a habitação, fosse em seu interior – os aposentos, as roupas de cama, as vestes dos familiares –, ou em seu exterior – onde a horta e a criação de pequenos animais contribuía para a alimentação diária.

É preciso ter cuidado, contudo, para que essa relativa liberdade feminina não seja entendida como fator de igualdade frente aos homens no espaço citadino. O mundo medieval era masculino, essa característica pesou sobre o dia-a-dia das mulheres em todos os âmbitos da sociedade e nas cidades isso não era diferente, bastando citar como exemplo a grande diferença dos salários entre os gêneros – cabendo a mão-de-obra feminina os menores salários.

A mulher nos campos

Também no campo pesou sobre as mulheres aquelas tarefas apontadas anteriormente: atenção aos filhos e às tarefas ligadas aos cuidados com o lar – limpeza, manutenção e cuidado com os alimentos. Contudo era no espaço exterior às paredes da casa que o trabalho feminino se destacou daquele constatado para o grupo das nobres e das citadinas.

O trabalho no campo era caracterizado – como ainda hoje – pelo contato com a terra e os produtos agrícolas, labor que exigia elevado esforço físico daqueles que viveram na Idade Média. Assim sendo, coube às mulheres aqueles afazeres que necessitavam de menor força muscular – mas que nem por isso eram menos penosos – tais como: colheita do lúpulo, linho, garança, vinha e ervas, assim como a separação e condicionamento desses produtos; alimentação dos animais, tosquio das ovelhas, recolha de lenha e uma infinidade de outros trabalhos rotineiros ao cotidiano campesino e que exigiam o esforço daquelas mulheres.

A aparência do casal de camponeses retratados na figura demonstra a dureza imposta pelo trabalho no campo mesmo sobre as mulheres. Imagem de Albrecht Dürer intitulada Couple de paysans au marché – Casal de camponeses em marcha. Biblioteca Nacional da França. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b6951290n.r=D%C3%BCrer+estampe.langPT

A aparência do casal de camponeses retratados na figura demonstra a dureza imposta pelo trabalho no campo mesmo sobre as mulheres. Imagem de Albrecht Dürer intitulada Couple de paysans au marché – Casal de camponeses em marcha. Biblioteca Nacional da França.
Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b6951290n.r=D%C3%BCrer+estampe.langPT

Poder e formas de resistência

Finalmente, uma apresentação acerca das mulheres na Idade Média – ainda que não aborde a vastidão de informações que o tema oferece – não poderia ignorar alguns exemplos daquelas que, por suas ações, destoaram no tipo de comportamento esperado para a mulher ao longo do período medieval. Não apenas Joana D’Arc, figura feminina mais conhecida do medievo, mas também outras tantas quebram o protocolo do que se esperava delas. Dois casos podem ser reveladores: Maria de Molina e Chistine de Pizan.

A primeira foi rainha de Castela e esposa de Sancho IV, governante entre 1284 e 1295. Após a morte do marido, Maria de Molina foi tutora do filho, Fernando IV e, depois do falecimento desse, esteve ao lado de Afonso XI – seu neto – na direção do reino. Diante de seu percurso a frente da política castelhana, não é exagero afirmar que ela fora rainha por três vezes, tendo sido em todas elas protagonista na manutenção da coesão do reino de Castela em um período de profunda instabilidade política e guerras civis. Mostrando admirável habilidade política, soube comandar exércitos, dialogar com nobres e estabelecer pactos de paz com reis, se afirmando como exemplo de destaque entre as personagens femininas da Idade Média, marcadamente no âmbito da Península Ibérica.

Christine de Pizan nasceu em 1364 na cidade de Veneza. Filha de um professor da Universidade de Bolonha, teve a acesso aos conhecimentos da escrita e leitura, assim como a muitos livros, em um período em que o acesso a cultura letrada era restrito a um circulo fechado de pessoas – em sua maioria clérigos. Por meio de sua vasta obra, deu enfoque às questões que envolvia a mulher na Idade Média, abordando-as sob a perspectiva de seu enquadramento ativo na sociedade. Temos, nessa letrada, o símbolo de uma mulher singular para período em que viveu e, seja por sua atuação, seja por seus escritos, demonstrou o caráter misógino da sociedade medieval ao mesmo tempo em que registrou e debateu a posição ocupada pelo gênero feminino naqueles tempos.

Para além desses casos exemplares, outras mulheres se empenharam em fazer frente às pressões impostas a elas pela mentalidade característica da sociedade medieval. Apesar dos poucos registros, sabemos que algumas buscaram anular casamentos não desejados, mas que lhes foram impostos. Outras, não aceitando o papel maternal que delas era esperado, ou ainda para esconder um adultério, recorreram ao aborto – prática já existente na Idade Média, para o que as mulheres recorriam à clivagem de centeio – demonstrando a relativização do sentimento maternal.

A imagem retrata a ideia carregada no Livro da Cidade das Mulheres, de Christine de Pizan, onde a autora defende a autonomia e capacidades femininas, aqui retratadas por atividades que incluem mesmo a construção de uma muralha. Ilustração de Le Livre de la Cité des dames - O livro da cidade das mulheres – de Christine de Pizan. Disponível em: http://www.wdl.org/pt/item/4391/ A imagem retrata a ideia carregada no Livro da Cidade das Mulheres, de Christine de Pizan, onde a autora defende a autonomia e capacidades femininas, aqui retratadas por atividades que incluem mesmo a construção de uma muralha. Ilustração de Le Livre de la Cité des dames - O livro da cidade das mulheres – de Christine de Pizan. Disponível em: http://www.wdl.org/pt/item/4391/

A imagem retrata a ideia carregada no Livro da Cidade das Mulheres, de Christine de Pizan, onde a autora defende a autonomia e capacidades femininas, aqui retratadas por atividades que incluem mesmo a construção de uma muralha. Ilustração de Le Livre de la Cité des dames – O livro da cidade das mulheres – de Christine de Pizan.
Disponível em: http://www.wdl.org/pt/item/4391/

Expostos alguns elementos centrais acerca da mentalidade estabelecia o comportamento das mulheres na Idade Média, é preciso retomar a pergunta: quais os fatores que aproximam a condição do gênero feminino do medievo europeu ao da nossa contemporaneidade. Muito, certamente. As pressões da dupla tarefa dividida entre o trabalho e os cuidados com o lar, a moral em torno dos adornos e vestes, as pressões do dever maternal, as diferenças de salário, entre outras tantas constatadas ao longo dessas linhas.

Contudo, não podemos esquecer o longo espaço de tempo que separam as mulheres medievais e as contemporâneas. Muita coisa também mudou. O fim da imposição da clausula no lar, os direitos em torno da igualdade jurídica, e tantas conquista que são fruto das próprias conquistas femininas. Os problemas que ainda se constituem como violências contra as mulheres não podem ser entendidos como medievais, são antes fruto de um pensamento contemporâneo, estabelecido sobre outros elementos da mentalidade atual, mas que ainda se constituem como duros entraves para a condição do gênero feminino nos nossos dias.

Referências bibliográficas

ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da Vida Privada: Da Europa Feudal ao Renascimento. V. II. Porto: Edições Afrontamento, 1990.

CURIESES, Rafael del Valle. Maria de Molina: el soberano exercício de la concordia. Madrid: Alderaban, 2000.

DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das Mulheres. Vol. 2: A Idade Média. Porto: Edições Afrontamento, 1993.

LEITE, Lucimara. Christine de Pizan: uma resistência na aprendizagem da moral da resignação. Tese (Doutorado). São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letra e Ciências Humanas – USP. 228 p.

SOUSA, Bernardo Vasconcelos e (coord.). História da Vida Privada em Portugal – A Idade Média. Maia: Circulo de Leitores e Temas e Debates, 2011.