Poderes no Império Romano do Oriente

Diversas representações de poderes no Império Romano do Oriente

Janira Feliciano Pohlmann

Doutoranda em História Antiga pelo programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. Bolsista CAPES. Membro discente do Núcleo de Estudos Mediterrânicos da UFPR (NEMED-UFPR).

Em um contexto de constantes ameaças externas, provocadas por grupos estrangeiros, e de perigos advindos de dentro do próprio Império, como usurpações de lideranças, agitações religiosas e conflitos gerados por alianças de interesse e por descontentamentos diversos, a legitimidade dos poderes necessitava ser frequentemente enfatizada.

Neste ambiente, não tratamos apenas do poder do imperador em comandar seus súditos, havia uma variedade de domínios que se intercalavam, se relacionavam e, por vezes, se contrapunham ou se completavam. Especialmente a partir da época do imperador romano Constantino, notamos o desenvolvimento de uma aliança bastante promissora entre o poder imperial e grupos cristãos. De fato, foi um processo bastante lento e repleto de adversidades. Mesmo sendo o século IV d.C. tido pela historiografia como uma época de grande desenvolvimento do cristianismo, sabemos que muitos personagens propagadores de outras crenças religiosas continuaram a se destacar naquele cenário.

Durante séculos, documentos escritos e de outras diversas naturezas (construções arquitetônicas, mosaicos, pinturas…) desempenharam um papel preponderante tanto como difusores didáticos de crenças religiosas quanto como meio de representação da importância da figura imperial, a qual, em conformidade com os discursos cristãos, governava em nome de Deus.

Infelizmente, uma imensidão de obras que compunham a tradição oral daquela sociedade nem chegaram a serem grafadas e outras centenas, não alcançaram nossos dias. Apesar destas “lacunas” documentais, percebemos a preocupação de dirigentes religiosos e de imperadores em fomentar e patrocinar discursos (escritos ou não) que apoiassem suas causas e ideias. Lembremos que um líder somente mantém sua posição quando amparado por uma ampla base de apoiadores. Ninguém governa sozinho, nem mesmo em uma monarquia ou em um império. Há, sim, alguém a frente dos súditos, mas não sozinho. Sendo assim, tais líderes sempre buscam expandir suas bases de apoio e convencer seus liderados de seu valor.

A fim de preservar sua estima junto aos seus súditos, angariar novos seguidores e, acima de tudo, consolidar seu poder perante a sociedade, os imperadores romanos, tanto da parte ocidental como da parte oriental do Império, lançaram mão de diversas estratégias que garantiam seu papel de governante soberano. Neste trabalho, exploramos alguns destes elementos postos em prática no universo oriental do Império dos romanos.

Discursos construídos por palavras grafadas e por esculturas

Antes de iniciarmos nossas análises, assim como advertia Michel Baxandal1, neste texto eu não me proponho a explicar esculturas e mosaicos, mas sim a tecer observações a respeito deles. Notas que nos auxiliam na compreensão do contexto no qual foram forjados.

Erguido sob ordens de Teodósio em 3902, o obelisco do Hipódromo era o monumento mais antigo de Constantinopla (como é, atualmente, o monumento mais antigo de Istambul). Fazia parte das esculturas centrais do Hipódromo e se localizava a frente do assento imperial (kathisma).

A cena da qual trataremos foi esculpida em pedra, mais exatamente em granito vermelho, e faz parte de uma obra maior, um obelisco originalmente modelado no Egito para Thumose III, que governou entre 1479 e 1425 a.C. O obelisco está muito bem conservado e preserva seu antigo lugar na cidade, não mais Constantinopla, é claro, mas Istambul.

Abaixo do monumento original egípcio, foram incluídos trabalhos em relevo (imagens e frases) os quais reverenciavam a centralidade do poder de Teodósio naquela sociedade.

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Começamos nossos estudos sobre as representações do poder de Teodósio pela seguinte imagem, encontrada na face oeste do monumento:

Teodosio

Imagem disponível em: <http://www.citytripplanner.com/en/things-to-do_Istanbul/Obelisk-of-Theodosius#.VGER2PnF-3Q> Acesso em: 23/09/2014. Acervo Pandora.

A escultura não nos apresenta vestígios de cores. Somente relevos entalhados em granito vermelho. Os personagens ocupam todo o plano de maneira bastante simétrica. Notamos um equilíbrio em toda a obra dividida horizontal e verticalmente. A faixa horizontal separa nitidamente indivíduos detalhadamente esculpidos (na parte superior da cena) de outras pessoas aglomeradas na parte inferior da obra. Podemos dizer, ainda, que uma linha vertical é demarcada por uma figura central: um homem mais alto que os demais e com características pictográficas também diferenciadas. Além estar no primeiro plano da obra, este indivíduo ocupa um lugar de destaque dentro da própria escultura, margeando por colunas, e foi representado com uma estatura mais alta do que a dos demais personagens.

No centro do documento aqui analisado, observamos um indivíduo que parece estar em um camarote destinado a ele e seus “escolhidos”, provavelmente familiares. As colunas o destacam e separam do restante dos espectadores. Além de estar no centro da cena, está na linha da frente mesmo sendo o mais alto personagem ali representado.

Outro realce em sua figura é a coroa de louros que carrega em sua mão direita. Premiação inspirada na mitologia grega e destinada aos vencedores de batalhas e jogos. Lembremos que a prerrogativa de laurear o vitorioso era do imperador dos romanos. Logo, já temos pistas sobre a importância deste cidadão.

Ao lado deste governante, porém fora da área do camarote, vemos pessoas vestidas com túnicas elaboradas, aspectos também sobressalentes nas vestimentas do imperador e daqueles que o acompanham. Notamos os detalhes das pregas nas roupas.

Na parte inferior desta cena – uma suposta arquibancada – observamos um número maior de pessoas. Estas, representadas sem muitos detalhes. Mal conseguimos visualizar seus corpos; parecem uma grande massa de espectadores amontoados. Não há muitos pormenores nas esculturas dos indivíduos. Entretanto, percebemos alguns instrumentos musicais nas mãos das pessoas localizadas nas extremidades. Posicionadas na primeira fila, há grupos de pessoas em posições similares, o que nos remete a dançarinos executando coreografias no decorrer da cerimônia.

Abaixo desta cena, há duas escrituras – uma na face oeste e outra na face leste, escritas respectivamente latim e outra em grego bizantino. Ambas reportam praticamente a mesma mensagem, embora tragam informações complementares.

Na inscrição latina lê-se: “Certamente era difícil de me conquistar, mas fui obrigado a obedecer a mestres serenos e portar suas palmas, uma vez que tiranos foram subjugados. Tudo cede a Teodósio e sua descendência eterna. Assim, conquistou e fui domado em dez dias, três vezes. Quando Próculo foi juiz, fui alçado para a cimeira dos ventos.” (T.A.)

Na inscrição grega lê-se: “Esta coluna com quatro lados que jazia na terra, somente o imperador Teodósio se atreveu a erguê-la novamente; Próculo foi convidado para executar a sua ordem; e esta grande coluna foi erguida em 32 dias.” (T.A.)

Obelisco de Teodosio2

Obelisco de Teodósio – face oriental. Imagem disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/51/Istanbul.Hippodrome006.jpg/1024px-Istanbul.Hippodrome006.jpg> Acesso em: 23/09/2014.

 

 

Para a sorte de nossos estudos, o “depoimento do próprio obelisco nos forneceu o nome do governante em destaque na cena estudada: Teodósio. Mas qual deles? O registro escrito ainda traz outra informação essencial: “fui domado em dez dias, três vezes. Quando Próculo foi juiz, fui alçado para a cimeira dos ventos.” Portanto, o obelisco foi erguido por um Teodósio que tinha Próculo como um de seus juízes. A partir destas palavras, finalmente, conseguimos identificar com certeza a pessoa de Teodósio I.

Conforme a mensagem grafada em baixo relevo no obelisco, Teodósio fora capaz de solucionar os problemas com os tiranos, afinal, “tudo [cedia] a Teodósio”, mais que isso, tudo cederia aos seus descendentes.

Este monumento, narra por meio de figuras, uma comemoração. Para ser mais exata, uma premiação a mais um vencedor dos jogos realizados no Hipódromo de Constantinopla. Cabia ao imperador laurear o vitorioso. Por isso, Teodósio I tinha em sua mão direita uma coroa de louros. A localização do obelisco – Hipódromo de Constantinolpa – nos permite afirmar a respeito do evento narrado na imagem.

A cena possui caráter perfomático, carregado de artificialidade. Foi escolhido um instante para ser representado e fabricar determinada imagem imperial. Esta, por sua vez, somente seria aceita, ou seja, compreendida socialmente, quando estivesse em conformidade com a linguagem daquela sociedade. Em uma “pose feita para ser admirada pelos olhos do observador, o governante – em primeiro plano – exibe o grande símbolo da vitória de um competidor: a coroa de louros. Era prerrogativa imperial a coroação do vencedor. Neste momento, o poder imperial era visto e ritualmente sentido em toda sua pompa.

Espaços de poder

Podemos fazer um paralelo entre grandes símbolos arquitetônicos do Império Bizantino: enquanto Santa Sofia será posteriormente o coração da vida religiosa de Constantinopla, no Hipódromo pulsavam as atividades civis da capital do Império Romano do Oriente. As corridas de bigas eram jogos muito populares desde o período helenístico. Herdadas pelos romanos e bizantinos, essas corridas eram eventos que congregavam vários grupos sociais em um mesmo espaço físico. Embora, este “grande espaço” fosse construído de maneira a segregar cada um destes grupos, na imagem estudada, todos estão representados de frente, na mesma proporção, com um padrão que se repete e não indica características individuais. Estas são reservadas à figura do imperador. Como bem notamos: as arquibancadas inferiores são destinadas aos músicos, dançarinos e outros espectadores; enquanto na parte superior da escultura vemos o imperador e alguns escolhidos desfrutar de um camarote exclusivo – um lugar extremamente privilegiado em meio às arquibancadas superiores que já eram um recanto especial.

O aspecto religioso (e cristão) era marcante no Império Romano do Oriente. Os bizantinos viam a eles próprios como protetores da cristandade. Talvez por este motivo, os imperadores de Bizâncio preferissem as carreiras de bigas aos jogos gladiatórios, tão menosprezados pela maior parte dos cristãos, embora as próprias carreiras também fossem motivos de discórdias dentro da cristandade. Do ponto de vista de alguns cristãos estes jogos provocavam despesas e embates desnecessários que prejudicavam o correto governo.

O conjunto de ideias de origem romana que diziam respeito ao poder imperial mesclou-se com correntes cristãs e helenísticas, o que produziu uma ideologia bizantina. O governante, tido como o escolhido para representar Deus na terra, propagava seu poder com as grandes construções e com o embelezamento da capital, Constantinopla. As mais elaboradas cerimônias necessitavam contar com a presença do imperador e de seu séquito (algumas vezes esta presença era física, outras, por meio de imagens). Estas ocasiões propiciavam uma verdadeira projeção do poder. Eram repletas de verdades inquestionáveis da soberania imperial e de eternos gestos simbólicos – como a coroação do vencedor das corridas de bigas. Estes pomposos rituais transmitiam mensagens de poder sobre a sociedade e, ao mesmo tempo, reforçavam a capacidade de governar do imperador.

Os jogos do Hipódromo fascinavam a população bizantina e o centro deste evento, como percebemos na escultura do Obelisco de Teodósio era o governante. Além de ser um entretenimento, eram uma das poucas oportunidades dos romanos orientais verem o imperador – quer fosse via imagem pictórica, quer fosse a figura física do governante.

A escultura do Obelisco desempenhava o papel de fundamentar a comunicação e a propaganda imperial. Logo, era um verdadeiro instrumento de poder. Não, apenas, um documento que retratava uma determinada realidade política, social e cultural. Era um instrumento de construção e consolidação de um modelo político-ideológico que fortalecia o poder do imperador.

Em uma sociedade composta em sua maioria por analfabetos, na cena aqui analisada, Teodósio fez questão de exaltar seu poder e sua presença pela via do entretenimento, das ações que podemos considerar “civis”. Afinal, lembremos que quanto maior sua base de apoio, mais fácil seria resistir perante os constantes questionamentos de poder empreendidos pelos usurpadores e as demais ameaças à figura imperial. O instante representado na cena, codificado através de convenções, códigos e simbolismos, fabricou perfeitamente uma imagem na qual o imperador se integrava a sociedade a qual liderava, mas também com a qual convivia e se relacionava a fim de manter seu poder e destacar sua figura dos demais homens daquele contexto.

De acordo com o que afirmamos anteriormente, elementos propagadores da soberania imperial foram bastante utilizados naquela sociedade. Foi uma prática continuamente revisitada.

Redigida na segunda metade do século VI d.C., o livro  Sobre os edifícios do antigo retórico e historiador Procópio de Cesaréia exaltou as variadas obras públicas realizadas pelo imperador Justiniano. Nesta elaboração, a grandiosidade e a multiplicidade destas obras destacavam a imponência de Constantinopla ao mesmo tempo em que reconheciam e promoviam o poder imperial:

Visto que o imperador [Justiniano] mantém aqui [em Constantinopla] sua residência, resulta da grandeza do Império que uma multidão de homens das mais variadas condições chegam à cidade, vindos de todas as partes do mundo. […] A juntar às outras dificuldades estas pessoas têm também necessidade de alojamentos, sendo incapazes de pagar o aluguel de qualquer residência aqui. Esta dificuldade foi-lhes totalmente resolvida pelo imperador Justiniano e pela imperatriz Teodora. Muito perto do mar, no local chamado Estádio, construíram uma muito grande hospedaria destinada a servir de alojamento temporário àqueles que assim se encontrassem embaraçados. (Procópio de Cesaréia. Sobre os edifícios I, XI 23-37. In: PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Editora UNESP, 2000. p. 47.)

Neste trecho, observamos o cuidado de Justiniano e de Teodora com aqueles que chegavam a sua cidade. Esta atenção era vista como a filantropia imperial, o que ofertava a cada um dos governantes o virtuoso título de filantropos. Discursos propagadores da magnificência de Constantinopla atraíam a ela indivíduos que buscavam trabalho. Pessoas que ali eram acolhidas pelas benfeitorias imperiais e, ao desenvolverem suas atividades profissionais, engrandeciam ainda mais a cidade. Um círculo ativo do processo histórico no qual a prática de escrever incitava pessoas a “querer ver”, “conhecer” e “produzir” naquela capital. Trabalhos diversos que impulsionavam novamente a pena do escritor… Uma vida ativa, produzida por diferentes sujeitos relacionados entre si.

Nesta ação contínua da história, a filantropia imperial podia ser vista nas construções edificadas pelo governante, sentida por todos aqueles que desfrutavam das beneficies e exaltada por palavras escritas e faladas. Desta maneira, a virtude da filantropia enobrecia tanto a cidade como o imperador que a possuísse.

Sabemos, todavia, que era necessário um conjunto de ações, de virtudes e de imagens para que um imperador fosse considerado ideal para exercer suas funções. Desta maneira, a este espírito filantropo de Justiniano e de sua esposa, juntaram-se outros elementos.

Em um contexto no qual poucas pessoas tinham acesso as palavras escritas, palavras faladas, mosaicos, pinturas, construções arquitetônicas e outros meios ajudavam na elaboração de imagens representativas de poder. Seguem alguns exemplos.

Justiniano e seu séquito. Imagem disponível em: <http://bizantinistica.files.wordpress.com/2011/10/meister_von_san_vitale_in_ravenna_003.jpg> Acesso em: 03/09/2014.

Este mosaico está localizado na igreja de São Vital, em Ravena. Notamos o lugar central ocupado por Justiniano na cena. Além de ocupar uma posição que visualmente o destaca (o meio do mosaico), ele ainda está trajado com uma vestimenta escura ricamente adornada com joias, chamando ainda mais a atenção do observador. Seu papel como líder que governava em nome de Deus foi salientado com uma auréola dourada, recurso didático promotor de um discurso que aproximava o imperador dos apóstolos, dos santos, dos anjos e do próprio Cristo. Uma elaboração que sacralizava a figura imperial.

O mosaico também demonstrava a ampla base de apoio de Justianiano. Segundo o discurso imagético, o imperador contava com a aprovação do exército (representados pelos homens armados e com vestes coloridas), do senado e de funcionário civis (os três indivíduos togados, dois à esquerda e um à direita de Justiniano) e dos membros da igreja cristã (personagens que carregam símbolos cristãos – a cruz (este era o bispo Maximianus), a bíblia e o incensário). Lembremos que quanto maior a base de apoio do imperador, mais fácil era a manutenção de seu poder. Especialmente quando a ratificação desta autoridade advinha dos grupos mais significativos daquela sociedade: exército, senado/funcionários civis e comunidade religiosa.

Ademais de estar representado no centro do mosaico, é o imperador quem carregava a patena (ou pátena), prato no qual são colocadas as hóstias para a missa. Portanto, o imperador era o foco da imagem visual e da ação sagrada da missa, uma vez que tornava possível a consagração dos fiéis durante estas celebrações, pois era ele quem portava as hóstias.

Toda imagem carregava consigo um discurso de ordem e de poder. Ela ensinava por meio de figuras, cores e através dos gestos e símbolos que elas continham. No caso deste mosaico em homenagem a Teodósio, o imperador era concebido como o centro do poder civil, militar e religioso. Fora apresentado no meio dos seus mais importantes liderados, entre eles o bispo Maximianus, e trazia consigo o elemento essencial para a consagração dos fiéis: a hóstia. Com esta elaboração discursiva, ele era desenhado e compreendido como o representante de Deus na terra; como aquele que tinha o aval divino para governar – mas não era Deus.

O imperador era considerado sagrado por ter a benção divina para comandar os demais indivíduos. Esta benção sagrada concedia ao imperador sabedoria e força para guiar corretamente a sociedade bizantina e trazer vitórias (militares, políticas, financeiras e religiosas) para aquele grupo. Sabemos que este é um discurso ideal, mas novamente, temos que lembrar que ele compreendido e aceito naquele contexto. Sendo assim, era válido – talvez não totalmente verdadeiro – mas, acima de tudo, apropriado para manter o lugar de destaque da figura imperial, recrutar aliados e sustentar a ordem e as hierarquias sociais.

É importante observarmos também o local no qual esta obra foi construída: na igreja de São Vital, na cidade de Ravena. Este templo cristão foi esplendorosamente decorado com mosaicos que remetem à simbologia cristã. O imenso mosaico do altar central traz Cristo sentado sobre o mundo, ladeado por anjos, por São Vital e por uma interessante figura vestida como sacerdote e que carrega uma igreja em suas mãos. Logo abaixo desta obra, destacam-se os mosaicos de Justiniano (à esquerda) e de Teodora (à direita), ambos executados em 547.

As adequações implementadas por Diocleciano, no final do século III e no início do século IV, e sustentadas por Constantino e seus sucessores exigiram e desenvolveram uma nova disposição para a sociedade romana. As mudanças no exército e o surgimento de uma elite militar proveniente do grupo dos équites fomentaram a profissionalização deste grupo. Este processo de profissionalização, por sua vez, estendeu-se a outros âmbitos da sociedade, pois era necessária uma administração eficiente para providenciar e gerenciar os recursos financiadores da nova formação do exército. Para tanto, observamos a profissionalização dos indivíduos da burocracia administrativa, a qual exigia que os funcionários, antes senadores que mudavam de cargo constantemente, agora se especializassem em suas funções.

 

Imagem copiada do documentário "San Vitale, Ravenna", disponível em: Acesso em: 03/09/2014.

Imagem copiada do documentário “San Vitale, Ravenna”, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=It3i-dKusIM#t=90> Acesso em: 03/09/2014.

Esta igreja começou a ser erguida sob o domínio do rei ostrogodo Teodorico, em 525, e foi concluída durante a liderança romana de Justiniano, em 548. Os mosaicos concebem uma provável cerimônia de consagração deste edifício – algo que não ocorrera efetivamente, visto que nesta época os imperadores tinham uma idade avançada e não viajaram até Ravena para tal celebração. Todavia, suas imagens representavam seus poderes e suas ações. Mesmo que os indivíduos não fossem vistos pessoalmente, seus retratos expressavam seus papéis como pessoas designadas por Deus para comandar aquela sociedade.

A noção de que os governantes (imperadores e imperatrizes) eram abençoados divinamente e não eram a personificação da divindade pode ser mais bem observada em outras tantas obras bizantinas. Neste trabalho, selecionamos verificar a miniatura de Basilio II, imperador bizantino em 963 e entre 976 e 1025.

Após um período de intensas lutas contra tribos estrangeiras e de redução territorial, sob o governo de Basílio II, o Império Romano oriental atingiu sua maior extensão, abrangendo desde o estreito de Messina ao Eufrates e do Danúbio à Síria[1].

Em sua campanha para recuperar os territórios bizantinos, Basílio enfrentou e derrotou o forte grupo dos búlgaros, fato que lhe concedeu o título de bulgaróctone, ou seja, “assassino de búlgaros”. Sua coroação como imperador bizantino foi registrada em uma miniatura de um saltério que hoje está conservado na Biblioteca Marciana de Veneza.

NOTAS

[1] BAXANDAL, Michel. Padrões de intenção: a explicação histórica dos quadros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 31.

[2 ]As datas apresentadas neste trabalho referem-se à época posterior ao nascimento de Jesus Cristo, por isso, não lançarei mão continuamente da expressão “d.C.”. Quando se fizer necessário destacar algum acontecimento anterior a Cristo, enfatizarei com o enunciado “a.C.”

[3]BROWING, Robert. The Byzantine Empire. Washington, DC: The Catholic University of America Press, 1992, p. 116.

Referência bibliográfica:

BAXANDAL, Michel. Padrões de intenção: a explicação histórica dos quadros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BROWING, Robert. The Byzantine Empire. Washington, DC: The Catholic University of America Press, 1992.

PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

[Verbete] “Saltério”. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlpo/salt%C3%A9rio> Acesso em: 28/10/2014.

Referências diversas:

San Vitale, Ravenna (documentário). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=It3i-dKusIM#t=90> Acesso em: 03/09/2014.

Obelisco de Teodósio. Imagem disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Obelisk_of_Theodosius-Istanbul.jpg> Acesso em: 23/09/2014.

Obelisco de Teodósio (base). Imagem disponível em: <http://www.citytripplanner.com/en/things-to-do_Istanbul/Obelisk-of-Theodosius#.VGER2PnF-3Q> Acesso em: 23/09/2014.

Obelisco de Teodósio (inscrição latina). http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4d/Obelisk_of_theodosius_latin_inscription.jpg/1024px-Obelisk_of_theodosius_latin_inscription.jpg

Obelisco de Teodósio (inscrição grega). http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/51/Istanbul.Hippodrome006.jpg/1024px-Istanbul.Hippodrome006.jpg

Justiniano e seu séquito. Imagem disponível em: <http://bizantinistica.files.wordpress.com/2011/10/meister_von_san_vitale_in_ravenna_003.jpg> Acesso em: 03/09/2014.

Basílio II. Imagem disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/83/BNMMsGr17Fol3r.jpg> Acesso em: 28/10/2014.

“Leituras” complementares sobre Constantinopla (séc. XII)

Sugestão de exercício para sala de aula. “Convidar” os alunos a conhecer Constantinopla através de palavras e mapas elaborados no século XII. Ainda é possível trabalhar a relação desenvolvida entre reis cristãos e funcionários árabes, no caso em destaque, o apreço do rei cristão da Sicília, Rogério II, pelo escritor Muhammad al-Idrisi.

Descrição de Constantinopla pelo geógrafo árabe Muhammad al-Idrisi (séc. XII) – palavras grafadas.

“Esta capital está construída sobre uma língua de terra de forma triangular. Dois do seus lados são banhados pelo mar; o terceiro compreende o terreno sobre o qual se ergue a Porta Áurea. O comprimento total da cidade é de 9 milhas. Está rodeada por uma forte muralha cuja altura é de 21 côvados e revestida de um parapeito com a altura de 10 côvados, tanto do lado da terra como do mar. Entre este parapeito e o mar existe uma torre que se ergue á altura de cerca de 50 côvados. A cidade tem cerca de cem portas, das quais a principal é a que chamam a Porta Áurea; é de ferro coberto de lâminas de ouro e não se conhece nenhuma que lhe seja comparável na grandeza, em toda a extensão do Império Romano.

Esta cidade encerra um palácio afamado pela sua altura, vastidão e beleza das suas construções e ainda um hipódromo pelo qual se chega a esse palácio, o mais espantoso circo que existe no universo. Caminha-se nele entre duas ordens de estátuas de bronze de um trabalho precioso, representando homens, cavalos, leões, etc., esculpidos com uma perfeição capaz de causar o desespero dos artistas hábeis. Estas figuras são de uma estatura mais elevada que a grandeza natural. O palácio contém igualmente um grande número de objetos de arte infinitamente curiosos […].”

AMÉDÉE e JAMBERT (Trad.). Geographie D´Idrisi. Paris, 1840. Original árabe. Apud PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. 3a. reimp. São Paulo: Editora UNESP, 2000, p. 48.

IMAGENS

Constantinopla em mapa, por Muhammad al-Idrisi (séc. XII). Imagem disponível em: Acesso em: 20/09/2014.

Constantinopla em mapa, por Muhammad al-Idrisi (séc. XII).
Imagem disponível em: <http://www.geographos.com/BLOGRAPHOS/articulos/Al_Idrisi_46.jpg> Acesso em: 20/09/2014.

Mapa para auxílio do professor.

Este mapa registra as construções religiosas cristãs de antes e depois do ano 700 d.C.

Além de promover o trabalho sobre questões religiosas, o mapa possibilita ao professor uma leitura mais clara sobre a carta de al-Idrisi. Nele, é possível identificarmos os nomes das construções, como as Muralhas de Constantino, as Muralhas de Teodósio II, a Acrópoles, o Palácio Imperial Boucoleon (a sudeste), o Palácio Blachernae (no extremo noroeste de Constantinopla), e outras.

Imagem disponível em: Acesso em: 20/09/2014.

Imagem disponível em: <http://www.learn.columbia.edu/courses/medmil/pages/non-mma-pages/maps/other-4.html> Acesso em: 20/09/2014.

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